sexta-feira, 6 de outubro de 2017

De casinha a casa, ou o pretensiosismo a roçar a porcaria.

Uma casa antiga tem alma. A alma das pessoas que lá viveram, que por lá passaram e que de alguma forma deixara o seu cunho. Foi por todos esses motivos que me senti tão atraída pela minha nova casa.

Soube desde o primeiro dia que necessitava de obras. Mas esse era o maior atractivo nela. Quem me conhece sabe que não gosto de casas modernas, com aspiração central, com piscina olímpica ou até mesmo sistema de segurança ultrassofisticado. Para mim todos esses aspectos são colmatados com a vassoura, um pequeno lago, cães e gatos (muitos de preferência).

Gosto do que é rústico, acho graça a um muro a necessitar de uma pintura, árvores para serem podadas, erva para ser cortada, a simples ideia de ter o meu próprio poço com uma nascente natural dá-me um novo ânimo pois tudo isto faz parte das alegrias de colocarmos o nosso próprio cunho naquilo que é nosso e sermos recompensados.

A pior parte é quando começamos a conhecer os anteriores proprietários pelo que vamos encontrando espalhado pelo terreno.

Por esse motivo achei necessário deixar aqui alguns conselhos para quem queira tal como eu adquirir uma casa com alma que de alguma forma retorcida quem a vendeu tentou quebrar e não conseguiu.

Elaborei uma resumida lista do que ficou:
1º - Nunca lhe chamem casinha, não é uma casa de banho é uma CASA;
2º - A lenha dentro da lareira é para arder NÃO é para tapar o buraco no fundo da mesma;
3º- Se um enxame de abelhas faz uma colmeia dentro de casa LIMPAR a cera que fica no chão é uma prioridade, devem ter em conta que não poupam porque a mesma não serve para encerar;
4º - Se a piscina se estraga, devem TRANSPORTÁ-LA para a reciclagem NUNCA a devem enterrar no fundo do jardim o mesmo se aplica a mobílias e latas de tinta vazias;
5º - PROIBIDO dizer que se tem uma garrafeira quando a mesma é composta por espaços ocos, garrafas vazias e aranhas;
6º - O pomar é para ser limpo não é para ter uma trepadeira a cobrir o chão, as paredes e as árvores, A MENOS que se esteja a planear fazer um safari pelas densas florestas do terreno de catana em riste;
7º - É de uma riqueza extrema ter-se uma pérgula A NÃO SER que a mesma esteja podre atirada para um monte de lixo;
8º - A melhor maneira de se ter o alpendre limpo NÃO É colocando-lhe gordura, pois nem tudo o que brilha é ouro. Julgo que um simples balde de água com detergente seria o suficiente;
9º - O LIXO que deixam para trás ao qual chamam de utilidades não é um tesouro perdido. Para quem chega, continua a ser lixo;
10º - NUNCA cortar os fios eléctricos somente porque não se percebe um boi de eletricidade;
11º - Um toco de árvore morta NÃO É uma mesa de poker, é simplesmente para retirar.

PODIA continuar, mas como não tenho veia de comediante prefiro ficar-me por aqui, até porque não tenho pretensões e gosto de limpeza. Afinal após somente três meses de trabalho dedicado, a CASA está como nunca esteve. Limpa, habitável e finalmente a alma que lhe tinha sido negada voltou reforçada, talvez por saber que finalmente também ela reencontrou a sua alma gémea. NÓS!


quarta-feira, 4 de outubro de 2017

À conversa com a autora Inês Oliveira

Por acreditar na divulgação de novos autores como forma de promoção do seu trabalho e por contar com esse mesmo apoio por parte das chefias do Jornal Nova Gazeta, estive à conversa com mais uma jovem autora portuguesa emigrada em França.

Poderia ser eu a apresentar-vos a Inês Oliveira mas nada melhor do que a própria para falar de si e do seu trabalho.

MBC – Quem é a Inês Oliveira?
IO - Uma jovem cheia de segredos e contos. Estou emigrada em França desde os vinte e quatro anos, longe da minha família e amigos. Ao início para tentar colmatar a sua ausência agarrei-me à leitura. Livros portugueses pois sempre adorei ler, mas aos poucos também comecei a ler em francês movia-me a necessidade de me integrar mais rapidamente no país que me acolhia.

MBC – O que te levou a escrever, e principalmente a escrever poesia?
IO - A solidão. Ao separar-me da minha família e amigos para partir nesta nova aventura fez com que rapidamente me sentisse isolada de todos os meus hábitos e caprichos. Escrever sempre foi a forma mais facil de me exprimir. Colocar por escrito o que tantas vezes se torna dificil dizer por palavras seja por falta de espontaneidade ou quem sabe timidez . Sempre olhei com admiração para aquelas pessoas que têm a capacidade de “brincar” com as palavras contando estórias fabulosas. Na 4ªclasse, lembro-me da minha professora pedir logo no inicio do mês de setembro que fizessemos uma redaçao para contar as nossas férias de verão. No final de cada redação escrevia um verso, penso que era o meu subconsciente a dizer-me o que fazer.
Desde então nunca mais parei. Infelizmente perdi todos esses pequenos versos num acidente doméstico mas a recordação, essa nunca morre. Também em França a partir do momento em que comecei a escrever algo acordou dentro de mim, essa antiga vontade de colocar por escrito o que me vai na alma e que tantas vezes não consigo dizer por palavras.

MBC – “Só Eu Sei”, o título do teu livro tem algum significado especial que queiras partilhar?
IO - Este livro é um misto de pensamentos, sentimentos, desejos, sonhos. Aqui, penso que algumas pessoas se conseguirão identificar com as suas próprias histórias, tal como eu tenho as minhas aqui desenhadas por palavras mas guardando sempre um lado secreto e misterioso. Motivo pelo qual resolvi que este livro se deveria chamar “Só Eu Sei”.

MBC – Ainda és muito nova e começaste neste mundo da escrita há relativamente pouco tempo quais são os teus planos para um futuro próximo?
IO - Não tenho intenção de ser conhecida ou famosa. Neste momento o meu único objetivo é poder partilhar as minhas estórias, contos mas acima de tudo tirar prazer ao fazê-lo.

MBC – Planeias manter-te dentro deste género ou podemos esperar um romance para breve?
IO - Podem sempre surgir surpresas. Um romance não está fora dos meus planos.
Para breve? Quem sabe!

MBC – Este teu livro está a venda em Portugal ou somente em França? E já agora, onde se pode comprar?
IO - Para obeterem o livro podem fazê-lo passando pela minha pagina do facebook @inesoliveira83, através da minha editora @portugalmagedicoes e ainda através do site www.ptkdo.com.

MBC – O livro está traduzido em outras línguas?
IO – Não. Este foi apenas escrito em português.

MBC  – Tens feito algumas apresentações em Portugal?
IO – Não tenho feito muitas apresentações. Não por falta de propostas mas pela falta de tempo. Infelizmente a vida nem sempre nos permite fazer o que mais desejamos.

MBC – Queres deixar alguma mensagem para quem tal como tu começa agora?
IO - A vida é muito curta para nos arrependermos do que ficou por fazer ou dizer.

Sonhar é um meio de motivação sobre os nossos objectivos. Nem sempre é fácil, mas o fácil tambem não dá o mesmo gosto e prazer ao ser realizado.

In Jornal Nova Gazeta, 04 Outubro 2017

terça-feira, 3 de outubro de 2017

À conversa com o escritor Robert Service


Resultado de imagem para nicolau II livro de robert service


O que nos leva a ler um livro com o título: “O último dos Czares, Nicolau II e a Revolução Russa” cem anos após o seu acontecimento? Será o mistério que ainda hoje existe à volta da família Romanov? O aparecimento de Putin como um novo imperador que tenta reunificar esta nova Rússia?
Para sabermos as respostas a todas estas questões fomos falar com o autor.


Robert John Service é um historiador e autor britânico que tem escrito extensivamente sobre a história da União Soviética, particularmente desde o período da Revolução de Outubro à morte de Stalin. Actualmente é professor de história da Rússia na Universidade de Oxford. Como autor, é conhecido por ter escrito as biografias de Vladimir Lenin, Josef Stalin e Leon Trotsky.

Sendo eu uma curiosa pela história mundial, os mistérios escondidos em documentos antigos e tendo uma forte ligação familiar à Rússia tive o privilégio de falar com o autor para tentar perceber um pouco melhor o que o leva a sentir esta mesma atração. Porquê Nicolau II, os Romanov, a Revolução Russa, sem nos esquecermos da carismática figura de Rasputin, odiado, temido e incompreendido por tantos, e da sua influência sobre a família do czar. Robert Service conseguiu fazer com que deixasse de lado as minhas ideias pré-concebidas sobre este homem e o visse à luz dos acontecimentos sociais da época.

Durante o tempo que amavelmente me disponibilizou tivemos ainda a oportunidade de trocar algumas ideias sobre os momentos curiosos que todas as suas investigações acabam por revelar. Um documento esquecido nos arquivos de uma biblioteca que por sorte ou por estar assim destinado lhe vem parar às mãos e que prova vir a ser de grande utilidade, uma bibliotecária que é a única pessoa capaz de ler a caligrafia de um documento esquecido no meio de tantos outros e que acaba por trazer à luz do conhecimento aspectos perdidos no tempo e no pensamento. A descoberta, por acaso, de um arquivo nunca antes estudado proporcionar-lhe-ia respostas a muitas das suas questões, mas também à descoberta de novos temas que ficarão para já a aguardar uma resposta mais estudada.

Informou-me que presentemente está a escrever sobre Putin, o entusiasmo deste com os Romanov e em particular com os factos políticos, históricos e sociais que conduziram ao trágico fim do último dos czares.

Sentados na livraria Buchholz na manhã do passado dia 09 de junho, começámos por falar sobre algumas curiosidades que envolveram Nicolau II e das quais vos deixo aqui dois desses exemplos: primeiro, o facto do primeiro czar da dinastia Romanov, Mikhail I, ter sido eleito czar pelos boiardos em assembleia nacional no Mosteiro Ipatiev enquanto que o último czar da dinastia Romanov, Nicolau II, era assassinado com a sua família na adega da casa Ipatiev. E, ainda, o facto de Nicolau II ter estado 23 anos no poder e para se descer até à adega onde foi assassinado com a sua família na casa Ipatiev ter que se descer 23 degraus.
MBC - Sabendo das questões que levanta em todos os seus trabalhos sejam elas de foro político ou histórico, combinando todas estas vertentes tornando-as intrigantes para os seus leitores gostava que me desse a sua visão sobre Nicolau II, o homem, o pai, o czar.  
RS – Nicolau II era acima de tudo um obstinado, dificilmente mudava de ideias. Ninguém sabia realmente o que pensava ou o que esperar dele. Principalmente aqueles com quem deveria trabalhar directamente para governar aquele imenso país que era a Rússia. A política não lhe interessada por esse motivo era muito pouco informado sobre o que se passava no mundo, era militar de coração, mas era acima de tudo um homem simples. O seu lado mais negro era possivelmente o ódio que sentia pelos judeus. Ao mesmo tempo que era um pai e marido extremoso. Penso que teria sido mais feliz se tivesse vivido uma vida mais simples, adorava trabalhos manuais, o contacto com a terra. Testemunhas afirmavam que nunca o tinham visto mais feliz do que desde que abdicara, teria vivido feliz como um homem do campo ao invés de imperador. É verdade que era um ser humano complexo, mas afinal todos nós somos complexos, por esse motivo achei que era minha obrigação mostrá-lo como um ser humano.

MBC – A forma como se relacionava com os seus captores desde o primeiro dia dizia muito a respeito dessa personalidade?
RS – Durante o seu cativeiro em Tsarskoye Selo, Nicolau II encontrou vários livros que lia fervorosamente sobre assuntos que até então ignorava. Falava amiúde com os seus carcereiros sobre temas de interesse geral, sobre a Rússia, o Mundo, mas principalmente sobre as dificuldades com que a classe mais baixa da sua sociedade tinha que se confrontar diariamente. Foi deste modo que se apercebeu de que vivera numa bolha até aquele momento.  

MBC –Qual era o seu maior receio?
RS – Que os comunistas os levassem para Moscovo e que o obrigassem a assinar um qualquer tipo de acordo.

MBC - Sempre me deixou curiosa o facto do czar ter tantas ligações familiares na Europa e ninguém ter vindo em seu auxílio. Principalmente o seu primo o Rei Jorge V de Inglaterra?
RS – Aqueles que defendiam o czar internamente estavam fracturados e levaram algum tempo até se conseguirem reagrupar. O governo britânico chegou a oferecer asilo a Nicolau e à sua família, mas o rei Jorge V, seu primo, revogaria a mesma por querer ficar de bem com a esquerda. Nesta altura falava-se de uma conspiração entre Inglaterra, França e Moscovo para destituírem Lenine. 

MBC - Já tendo abdicado, porquê matá-los? Não os poderiam ter mantido sobre apertada vigilância ou quem sabe até exílio forçado?
RS - Existiam vários indivíduos, e estamos a falar de bolcheviques, dispostos a matar Nicolau, com ou sem aprovação da liderança, e aqui falo de Lenine, até à presente data não foi encontrado nenhum documento que o envolvesse directamente neste bárbaro assassinato. Manter o czar e a família vivos tornara-se um risco pois as forças que o apoiavam já vinham em seu auxílio para os libertar. Estavam mesmo muito perto da casa dai o precipitar dos acontecimentos.

MBC – Pensa que se o czar e a sua família tivessem sobrevivido a Rússia seria a que temos hoje ou ainda teríamos uma Rússia com czares?
RS – Infelizmente nunca saberemos porque a história assim não o quis.


O meu agradecimento a Robert Service, fico ansiosamente a aguardar o seu próximo livro e quem sabe uma nova conversa. E à editora Desassossego do Grupo Saída de Emergência por me terem proporcionado este momento único.

Texto: MBarreto Condado
Fotos: Mário Ramires

In Jornal Nova Gazeta, 14 Junho 2017

segunda-feira, 2 de outubro de 2017

À conversa com a pintora Armanda Alves e com a autora Luisa Fresta


“Há momentos em que nos apetece abraçar o mundo”, foi desta forma que a poetisa Regina Correia apresentou a autora Luísa Fresta e a pintora Armanda Alves no seu mais recente trabalho a quatro mãos, estou a falar do livro “Contexturas”, publicado pela editora Livros de Ontem.

“Contexturas", é uma confortável viagem através de um universo de emoções. Um livro composto por vinte pequenos contos todos eles emoldurados por uma tela única. Sentimos ao folhear as suas páginas que a respiração acelera como um despertar dos nossos próximos sentimentos tal é a harmonia existente entre a pintura e os contos.
Através das suas páginas somos conduzidos numa viagem ímpar por terra e por mar, onde a imaginação encontra no extraordinário o banal, sentimo-nos parte de todo aquele teatro narrativo, imersos nas suas páginas de onde nos recusamos sair por querermos sempre mais. De imediato notamos a ligação das autoras à mãe natureza, à língua, ao cheiro do oceano angolano, aos sabores, às cores de África num intrincado puzzle onde a lusofonia tem a sua mais forte expressão na língua, também esta sempre presente nos quadros de Armanda Alves.

Se para a Luísa os contos nasceram a olhar para os quadros, já para a Armanda saber que as suas telas onde existe um universo que se encaminha para o enrodilhado do tecido social e humano foi a fonte de inspiração necessária para o nascimento de “Contexturas” é por si só motivo de rejubilo.

Gostava ainda de vos deixar uma pequena nota biográfica das autoras antes da entrevista que gentilmente me cederam.

Armanda Alves é luso angolana, artista plástica vive há alguns anos em Portugal e, durante muito tempo pintou por prazer, para si e para os seus amigos. Com vasta obra reconhecida a nível internacional mostra toda a sua energia que passa de uma maneira extraordinária para a tela, com o seu jogo de cores numa linha marcadamente abstrata.

Luísa Fresta, autora, nascida em Portugal, viveu a maior parte da sua infância e adolescência em Angola, país com o qual mantém laços de cidadania bem como familiares, estando radicada em Portugal desde 1993. Estudou engenharia civil em França. Os pequenos contos foram pensados e escritos a olhar para os quadros nunca se esquecendo das suas raízes.


MBC – Para quem ouve falar do vosso trabalho somente agora, como gostariam que vos reconhecessem?
LF – Tenho gostos ecléticos, não gosto de limitações a nível criativo. Sou engenheira civil e só comecei a escrever há cerca de cinco anos. Para além da poesia os contos sempre me fascinaram. Adoro escrever tendo sempre Angola no pensamento, costumo dizer que o sotaque é como as vivências nunca se perde.
AA – Como pintora, considero-me uma fazedora de formas. Não pinto em cavalete, gosto de pintar no chão ou na mesa. Sou autodidata, indisciplinada quando encontro vida pura.

MBC – Há quem diga que os quadros deram vida ao livro, ou terá sido o oposto?
LF – Para mim a obra já existia, a vontade que tive de escrever surgiu porque os quadros ganharam vida perante os meus olhos. Sem eles os contos não existiriam.
AA – Os quadros por si só falavam.

MBC – Como surgiu este projecto em conjunto?
LF – A parceria surgiu do nada. A Armanda foi-me apresentada por uma amiga comum a Maria que achou que tínhamos tudo para dar certo e não estava de todo errada. Deixamos correr esta nossa parceria sem pressões pelo que sempre que sentir as mesmas emoções perante uma tela da Armanda continuarei a escrever.
AA – Foi uma brincadeira que surgiu do nada. Uma coisa é certa na altura não pensei que os meus quadros fizessem alguém apaixonar-se e entregar-se como o faço. O meu mundo é pintar, é desta forma que me exprimo, que faço o que melhor sei, é por esse motivo que ver os meus sentimentos transformados em palavras é por si só um engrandecimento de tudo aquilo em que acredito.

MBC – Uma frase que descreva o vosso trabalho?
LF – Fusão.
AA – Coesão.

Texto e fotos: MBarreto Condado
In Jornal Nova Gazeta, 01 Outubro 2017

quarta-feira, 27 de setembro de 2017

À conversa com o autor Manuel do Nascimento

Tenho conversado regularmente com novos autores portugueses que tentam vingar no competitivo panorama literário português, sem me esquecer de todos os outros que vivem fora de Portugal.  

No ano passado conheci alguns desses autores e cheguei mesmo a ter a oportunidade de apresentar o meu trabalho em Paris por intermédio deles.

Deixo-vos aqui a conversa que tive com o Manuel do Nascimento para que o possam conhecer um pouco melhor e saber o que tem feito pela divulgação da nossa história. A altura para o fazer foi a ideal na medida em que o Manuel publicou o seu primeiro romance no passado mês de agosto.

MBC – Para quem ainda não te conheça, gostava que te apresentasses.
MN - Nasci numa vila da região do Dão no distrito de Viseu. Aos 11 anos completei o exame da 4ª classe, e como os meus pais tinham poucos recursos. Vi-me obrigado a vir para Lisboa viver com familiares de forma a poder continuar os meus estudos. A verdade é que podia ter ido para Lamego ou Viseu, mas infelizmente os meus pais não podiam comportar tamanho encargo. De 1962 até 1970, estudei e trabalhei na capital. Quando completei 20 anos, estava na eminencia de ser chamado para o serviço militar que implicava a minha partida para as colónias. Como não conseguia entender a finalidade das guerras coloniais, decidi partir para Paris, onde resido desde então.

MBC – Há tanto tempo fora da Portugal e sabendo que voltas todos os anos para “matar” saudades, pensas regressar definitivamente um dia?
MN - Estou radicado em Paris desde 1970, mas após o 25 de Abril, volto todos os anos, uma ou mais vezes por ano. Aproveito e dou sempre uma volta de norte a sul, mas gosto particularmente de Lisboa, onde a minha família ainda hoje reside. Venho por assim dizer matar saudades. Quanto à questão de voltar um dia definitivamente, posso dizer-te que para já a prioridade não é essa.

MBC – Os teus livros são o espelho da nostalgia que sentes pela nossa história? Ou uma forma de a dares a conhecer em França?
MN - Eu diria que não é nostalgia, mas sim a paixão pela história em geral. Mas é claro que adoro dar a conhecer a nossa história em França. Principalmente para os de terceira geração, os luso-descendentes que têm muito pouco conhecimento da história do país dos seus pais. Grande parte dos meus livros são em francês, não só para colmatar a falta de conhecimento da nossa história dos nossos luso-descendentes, mas também para que os franceses a conheçam um pouco melhor. Uma das coisas que notei aquando da minha chegada a Paris foi a falta de conhecimento do grande país que somos. Falar-lhes do pai do nosso primeiro rei, das invasões francesas em Portugal ou até mesmo da batalha de La Lys, no quadro da participação de Portugal nesse conflito mundial é o mesmo que nada. Parte dos franceses desconhecem esta parte da história tal como desconhecem a própria história de França. Sempre me incomodou muito tanto desinteresse por aquilo que nos torna Portugueses ou até mesmo Franceses. Esse foi talvez o principal motivo que me levou a escrever.

MBC – Soube que escreveste pela primeira vez um livro fora daquilo a que estás habituado. Queres falar-nos um pouco dele e do porquê de o fazeres neste momento?
MN - É verdade. Desta vez é um romance, “Nem tudo acontece por acaso”. Não te vou dizer que tenha sido por acaso, acredito mais que tenha sido o destino! Aconteceu numa das minhas viagens, na esplanada de um café em Lisboa tive uma conversa muito interessante com um sábio mendigo e com uma senhora. É uma estória em flashes que nos vai conduzir para um antiquíssimo mistério familiar. Aqui é-nos permitido viajar desde os tempos mais antigos até aos nossos dias. Revivemos duas guerras mundiais, as guerras de África, o Estado Novo, falo da ordem social onde os ricos tinham tudo e os pobres tão pouco, da chamada emigração de sonho onde muitos pensavam deixar a miséria para trás para encontrar uma outra nos países de acolhimento, de lendas, tradições, dos jardins e miradouros lisboetas, do vinte cinco de abril de 1974. Este livro acaba por ser uma viagem pela própria cidade de Lisboa, que tanto amo e para onde volto sempre que posso.

MBC – Os teus livros escritos em francês tendo em conta que alguns deles como já disseste relatam acontecimentos envolvendo os dois países em tempo de guerra, qual é a aceitação dos mesmos por parte dos franceses?
MN – Tenho que explicar um pouco o meu processo criativo. Desde o momento que decido escrever sei de imediato em que língua o vou fazer, mas sei também a que público se destinará. A maioria deles é em francês pois pretendo não somente dar a conhecer ao povo francês a nossa história como deixar testemunhos em França.  Todas as minhas obras editadas em Paris têm estado a cargo da mesma editora que tem apostado no meu trabalho, e, por conseguinte, uma grande parte das bibliotecas universitárias e públicas de França já os adquiriram.

MBC – Sei que és um dos responsáveis pela SALF. Queres explicar-nos o que significa a sigla, como surgiu? O que fazem pela divulgação dos artistas portugueses? Têm planos futuros para integrar os autores portugueses no fechado mundo artístico francês?
MN – A SALF - Sociedade dos Autores Lusófonos de França, é uma associação sem fins lucrativos, que foi fundada em 2011 por um grupo de autores lusófonos do qual faço parte. Exerço atualmente a função de Presidente. Esta associação tem por objectivo ajudar os autores lusófonos desde a criação à divulgação das suas obras sejam elas em português ou francês. Uma outra nossas outras componentes é a organização de encontros literários que inclua todos os nossos membros. Tivemos já a oportunidade de acolher escritores portugueses não residentes em França que participaram nos nossos encontros culturais,

MBC – Apresentações em Portugal? Tens feito? Tens alguma agendada para breve?
MN - Fiz duas apresentações em Portugal em 2013, uma em Lisboa outra em Viana do Castelo, para apresentar a obra História de Portugal-Uma Cronologia. Foi um trabalho que me levou 10 anos a concluir e que se compõe de três volumes. Não tenho nada previsto para breve, mas quando o meu romance “Nem Tudo Acontece por Acaso” for colocado nas livrarias e se estas mostrarem interesse numa apresentação, tudo pode Acontecer! Posso neste momento adiantar que no próximo mês de outubro, este meu último livro será apresentado no Consulado Geral de Portugal em Paris.

MBC – Uma frase que utilizas: “Só é vencido quem desiste de lutar” Aplica-se de alguma forma a ti?
MN - Não se aplica só a mim. Há tanta gente no mundo que luta das mais diversas formas. O meu combate em França tem sido, e continua a ser, dar uma imagem diferente daquela que têm dos portugueses e de Portugal. A forma que encontrei para lutar foi relatar a nossa história e cultura, deixar uma marca neste país, deixar para os meus filhos e netos uma lembrança escrita de quem somos, de quem sou. Temo que se parar de escrever tudo possa voltar a ser como dantes.
Gostava de deixar aqui o que me foi escrito um dia, numa dedicatória: Ao Manuel do Nascimento, autor contra o obscurantismo e pela história do povo português.

MBC – Para terminarmos gostarias de deixar alguma mensagem aos nossos leitores?
MN - Dizer que a história de um país e a de Portugal em particular sendo tão rica não tem fim é através dela que aprendemos quem somos e de onde vimos. Se não se conhece o passado não se pode avançar no futuro. E é com os nossos próprios erros que aprendemos a não os repetir.


In Jornal Nova Gazeta, 27 Setembro 2017 

domingo, 24 de setembro de 2017

Férias de Verão, Casamento e Emigração

Acabaram as férias que para muitos continuam a ser repartidas entre o mês de junho e o mês de setembro, em grande parte para evitar o afluxo de emigrantes que regressam sempre nos fortes meses de verão. A simples ideia de praias atulhadas de “Michel vien ao pai”, horas nas filas, o ouvir as habituais reclamações de que em Portugal é sempre a mesma coisa, que este nosso país parece um daqueles do terceiro mundo, continuam a ser motivo mais do que suficiente para muitos portugueses continuarem a fazer férias fora do característico período emigrante.

Se esta é a realidade do nosso país nos dois fortes meses de verão, também é verdade que os emigrantes não são mais do que os nossos portugueses regressados numa tentativa de aplacarem o saudosismo que se acumula nos longos e frios meses, nos países de acolhimento. Voltam para recarregar baterias com a boa comida, o vinho, o clima, a família e os amigos antes de serem uma vez mais obrigados a regressar.

Passei a entender esta movimentação de gentes da terra quando no passado mês de agosto conheci a Milene Paulo e o Hugo Joaquim, dois jovens emigrantes que fizeram de Inglaterra a sua nova morada, e que desta feita voltavam a casa para se casarem.

Tudo começou quando me mudei de Lisboa para um simpático lugarejo no Oeste, daqueles onde entramos e já não queremos voltar a partir, onde a única família que aqui habita nos considera uma parte do seu núcleo.
Foi confrontada com esta realidade que aprendi a olhar para os nossos emigrantes com novos olhos.

A Milene e o Hugo fazem parte da estatística de portugueses que deixam o país em busca de uma vida melhor. Deixam tudo o que têm como garantido para trás e partem na esperança de um trabalho, de uma casa, de um futuro, nunca esquecendo quem cá deixam. Com eles percebi que existe um forte motivo para o regresso dos emigrantes em particular nestes meses e que não se deve ao calor e às fantásticas praias que temos para oferecer, é sim um regresso às origens, um reencontro com a sua família.

Por todos esses motivos sinto que a história da Milene e do Hugo deve ser contada.
Com eles, o “Era uma vez…” toma um significado diferente.


“Era uma vez uma jovem rapariga chamada Milene que vivia numa pequena aldeia do oeste português. Não muito longe, numa aldeia vizinha vivia um jovem, Hugo de seu nome. A verdade é que se conheciam, já se tendo cruzado por diversas vezes em festas nas aldeias vizinhas. Mas, foi somente quando o destino decidiu que o amor aconteceu.
Porém a vida daria uma reviravolta e Milene partia para Inglaterra. Hugo passava os dias a pensar na falta que a ausência daquela jovem mulher a quem já entregara o coração lhe fazia. Não demorou muito a segui-la. Em breve aterrava em Londres com um único intuito, ficarem juntos para sempre. O amor cresceu e como prova desse profundo sentimento eram abençoados com o nascimento de Emily.”

Assim como na história deles também a de tantos outros portugueses que partem na esperança de um dia regressarem, nem que seja somente durante os meses que tanto incómodo gera àqueles que têm o privilégio de cá viver em permanência. Não nos podemos esquecer de quem fica e que os espera ansiosamente todos os anos, falamos dos seus pais.


Para tentar perceber melhor o que os motiva a voltarem particularmente agora e no caso da Milene e do Hugo para se casarem, coloquei-lhes na véspera algumas questões tendo o cuidado de o fazer separadamente, perguntei-lhes o que mais gostavam no outro. Para a Milene, a capacidade que o Hugo tem de correr atrás daquilo em que acredita, da sua persistência para alcançar todos os objectivos independentemente da dificuldade que os mesmos possam acartar. Já para o Hugo, não há nada que não goste na Milene. Tudo! Foi a sua pronta resposta.


Pedi-lhes que me descrevessem o que significava o amor para cada um deles. Se para a Milene era a felicidade que sentia por estar com a pessoa amada e ter a vida que desejava para o Hugo era o carinho que só ela e a filha de ambos lhe conseguiam dar.

Porém ainda me faltava colocar-lhes a pergunta que maior curiosidade me despertava. Porquê o casamento nesta altura e em Portugal? Para a Milene era o momento ideal pois assim conseguiam reunir as pessoas que mais amavam naquele momento inesquecível, era a única altura do ano em que conseguiam estar todos juntos. O Hugo acabaria por completar o pensamento da noiva sem o saber ao afirmar que estão finalmente perto de quem mais gostam pelo que é a altura perfeita, sem nunca se esquecer que este momento ganha mais significado pelo valor que tem para a Milene.

Por todos estes motivos confesso que passei a ter mais respeito por quem regressa nem que seja somente durante um curto período nas férias, afinal não somos emigrantes, somos todos portugueses e se voltamos é porque este país nos corre nas veias independentemente de muitos de nós não saberem se algum dia voltarão de vez.

De uma coisa tenho a certeza, a história da Milene e do Hugo teve o seu inicio de conto de fadas no casamento e se começou com o “Era uma vez…” terminará certamente com o “Foram felizes para sempre.”


Obrigada aos dois.

Texto: MBarreto Condado
Fotos: Hugo Joaquim