domingo, 2 de abril de 2017

Casa Assombrada do Peso

Não conseguia fechar os olhos naquela noite a pensar no que o irmão me dissera quando chegou da escola naquela tarde. Teimava em assustá-la, parecia que ao sentir o seu medo lhe crescia uma espécie de poder que só ele conseguia compreender. Todos os dias ao final da tarde quando voltava das aulas passava por aquela casa branca, com as janelas de madeira apodrecida, trapos que em tempo teriam sido cortinas de seda e que agora não passavam de nada mais do que velhos trapos sujos, rasgados. Já reparara no brasão de pedra por cima da enorme porta de madeira com batentes de ferro, O quintal tinha ervas tão altas que não permitiam vislumbrar toda a sua opulência de tempos passados e como se não bastasse o velho portão de ferro enferrujado, que já tivera certamente melhores dias, mantinha-se reforçado na sua clausura com correntes de aço trancadas com um cadeado, era notório a quem quer que se atrevesse ali entrar que aquele local estava inacessível.
Parecia-lhe ridículo que o irmão a tentasse assustar com estórias de almas penadas que ali viviam ávidas por novas almas. Mas apesar de saber que não passavam de palavras provocadoras para a deixar assustada a verdade é que sempre que ali passava sentia-se observada. Nunca olhara para trás mas na realidade algo ou alguém parecia seguir os seus passos olhando-a por detrás daquelas janelas onde o vento teimava em brincar com a miséria em que aquele local se transformara.
Fechou os olhos e tentou dormir. No dia seguinte tinha matemática logo no primeiro tempo e não queria chegar sonolenta. Se já era difícil olhar para os números bem acordada nem queria pensar como seria se estivesse dormente.
Adormeceu rapidamente e sonhou.
Sonhou com a casa branca em toda a sua glória. Os muros altos de um branco resplandecente, portão aberto permitindo a entrada a quem se quisesse aventurar naqueles lindos jardins de erva aparada, canteiros de rosas das mais diversas cores, exalando um cheiro impossível de descrever. O brasão por cima da porta anunciando que aquela casa pertencia a uma família abastada. Nem faltava o empregado de libré a abrir-lhe a porta para que entrasse, sorrindo-lhe amistosamente,
Estava na entrada a olhar para o pé alto da casa com as suas escadas de madeira forradas com uma alcatifa vermelho fogo, o seu corrimão tão polido que se podia ver o reflexo do resto da casa, o magnifico lustre de cristal. Sentia que não devia subir. Caminhou pelo lado direito para a imensa sala aberta até à parte de trás da casa, conseguia ver a lareira onde crepitava um fogo lento, a sala com convidativos sofás de veludo com as suas mesas enfeitadas com pequenas toalhas rendadas, o piano perto da janela que se mantinha aberta para o jardim permitindo que o cheiro das flores inundassem aquele espaço como se também elas ali pertencessem. A mesa comprida de mogno com as cadeiras de costas altas, com dois lugares preparados para o jantar, um em cada extremo onde umas velas já aqueciam com a sua calma luz.
Olhou em volta não estava ali mais ninguém a não ser ela. Não sabia como tinha ali ido parar, não se lembrava de o ter feito. Sentia que era errado ali estar, no entanto algo lhe dizia que pertencia àquele lugar. Sentou-se num sofá. Não queria abusar da hospitalidade dos seus donos iria esperar até que um deles aparecesse e lhe conseguisse explicar o porquê da sua presença naquela casa, naquela noite.
Devia ter adormecido porque quando abriu os olhos estava tudo escuro à sua volta. Cheirava a madeira húmida pela chuva que se ouvia cair lá fora. Por momentos não soube onde estava até que ouviu um piano. Tocava uma música triste que os seus olhos se encheram de lágrimas. Estava sentada no que devia ter sido um bom sofá mas que agora não passava de uma recordação de tempos passados, onde as molas soltas se apertavam e encontro aos seus rins, magoando-a. Ergueu-se com dificuldade tentando não cair nos pedaços de vidros espalhados pelo chão à sua volta. Percebeu que eram das janelas altas, olhou em volta tentando que os seus olhos se habituassem àquela escuridão que teimava rodeá-la. Continuava a ouvir a música, não sentia medo antes pelo contrário sentia curiosidade. Muita curiosidade.
Caminhou com cuidado contornando os pedaços de madeira e vidros espalhados no chão tentando não se cortar, percebeu que estava descalça. Mesmo que tentasse fugir daquele local nunca o conseguiria fazer sem se ferir.
O som suave do piano voltou a ouvir-se. Olhou na direcção daquele local que sabia ser o sitio onde o vira. Alguém estava sentado, não conseguia ver-lhe a cara, mas conseguia sentir o seu desespero. Esticou a mão, tremia, tinha que fazer com que aquele vulto se voltasse e a encarasse. Tinha que ver quem era, saber o que o fazia sofrer.
O piano parou e assim que a sua mão lhe tocava no ombro, o vulto voltou-se e sentiu um frio que a congelou, naquele momento teve medo e gritou.
A mãe estava sentada ao seu lado na cama segurando-a pelos braços, tentando acalmá-la. Estava de olhos abertos sentindo-se perdida até que o calor dos braços da sua mãe a trouxe de volta para o conforto da sua cama, do seu quarto, da sua casa. O irmão olhava-a da ombreira da porta, nunca a ouvira gritar daquela maneira, nunca a sentira tão assustada. Talvez fosse uma boa altura para lhe dizer que inventara toda aquela história da “Casa branca do Peso”, afinal não passava mesmo de uma casa velha que alguém abandonara ao tempo, tinha que lhe dizer que os fantasmas não existem só na nossa imaginação e que até esses são somente projecções dos nossos próprios receios.
Assim que a mãe os deixou sozinhos aproximou-se da irmã, sentando-se aos pés da sua cama.
- Desculpa Mafalda não foi minha intenção assustar-te tanto.
A irmã olhou para ele.
- Não! Tens razão. Algo estranho se passa naquela casa, o dono…o dono não tem cara.
Aproximou-se mais dela segurando-lhe na mão.
- Ali não existe nada, nem ninguém. Fui eu com as minhas estúpidas ideias e com a facilidade com que te deixas assustar. Prometo não o voltar a fazer.
- Não! Não estás a perceber, eu estive lá, naquela casa, na sala, havia um piano, eu vi-o!
- Sonhaste, nada disso aconteceu realmente.
- Não estás a perceber, tu tinhas razão.
- Já te disse que inventei tudo só para te assustar. Esquece o que sonhaste e tenta dormir. De preferência desta vez tenta não sonhar nem gritar.
A mãe entrou naquele momento transportando um copo de leite morno com mel, o melhor remédio para acalmar os nervos.
Quando a casa ficou novamente em silêncio e já estava a sentir aquela moleza que antecede o sono. Voltou a ouvir a mesma música, mas desta vez não estava na velha “casa branca do peso”, estava deitada na sua cama, no seu quarto, na sua casa. Levantou-se da cama caminhando descalça até à janela que dava para a entrada da casa e conseguiu ver à distância uma luz que tremeluzia, ouviu a música cada vez mais alta. Desta vez não teve medo, algo mudara naquela melodia estava mais suave mais quente já não soava triste e abandonada. Caminhou de volta para a cama, descalça sem se aperceber que os seus pés sujos de pó e ervas secas manchavam o chão de madeira atrás de si.
No quarto ao lado o irmão conseguia ver o mesmo que ela. E nesse momento a imagem daquele homem sem rosto apareceu-lhe à sua frente e pode ouvir nitidamente a sua voz dentro da sua cabeça.
- Obrigado por me teres apresentado a tua irmã. Era mesmo aquela por quem esperara. Eu Pedro, Barão do Peso sou um homem de palavra pelo que deves considerar a tua divida para comigo saldada.
O irmão não conseguiu gritar, estava tolhido de medo, o que fizera? Nunca devia ter lá entrado, nunca deveria ter tirado a fotografia que encontrara de cima do piano, mas a mulher da imagem era tão parecida com a sua irmã que se assustara. Inconscientemente ao contar à sua irmã a estória daquela velha casa tinha-a conduzido para aquele local que se dizia ser amaldiçoado desde o dia em que a mulher da fotografia, a noiva do dono da casa desaparecera misteriosamente. Contava-se que desesperado deitara fogo à casa com uma vela enquanto tocava piano. Não tivera morte imediata, mas ficara com a cara desfigurada pelo fogo.

Reza a lenda que quem lá entrar por sua livre vontade passara a fazer parte da sua estória e essa nunca estará terminada.
Resultado de imagem para casa vaz em peso da régua 

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A CASA

“Esta é uma obra de ficção, qualquer semelhança com nomes, pessoas, factos ou situações da vida real terá sido mera  coincidência” ...