quinta-feira, 20 de julho de 2017

"Crónicas de Nunes, um asno - Alistamento"

“Esta é uma obra de ficção, qualquer semelhança com nomes, pessoas, factos ou situações da vida real terá sido mera coincidência”

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Num dia de Verão, cansado de ainda não ter conseguido a tão ansiada aprovação e liberdade que queria do seu “rico” pai, Nunes decidiu que alistar-se na tropa seria a melhor opção pois só desta forma poderia ter um rendimento. A verdade é que o pai alcançara o seu próprio estatuto como militar de carreira, apesar do mesmo ser só reconhecido pelo próprio. Levantou-se, procurou na gaveta da roupa interior por uma muda lavada para se deparar com a gaveta vazia. O velho hábito de atirar a roupa para cima do armário do quarto era muito mais confortável, estendeu o braço e retirou um par de cuecas e meias hirtas de tão sujas que estavam, franziu o sobrolho enquanto pensava que teriam que servir.

Minutos mais tarde, sentado no café Mil e uma Noites fumando um cigarro na companhia do seu amigo Paulitos, acompanhado de um pequeno-almoço de cervejas comunicou ao amigo a sua decisão. Ambos pesaram os prós e os contras, decidindo que se era para se alistar teria que ser num dos ramos das tropas especiais, sempre lhe dava outro estatuto, afinal não ficava bem a um menino como ele nascido em berço de antiquarias andar a marchar como um mais do povo. Estava decidido, Nunes e Paulitos selaram o momento com um audível beijo na boca perante o olhar atónito das velhas senhoras do bairro que tomavam àquela hora o seu cházinho com torradas aparadas acompanhadas de geleia de marmelo. Foi necessário o empregado acudir-lhes com um copo de água com açúcar para que não desmaiassem pois não estavam habituadas a manifestações de carinho entre homens, muito menos em público e àquela hora sagrada.

Quando voltava para casa Nunes soube que tomara a decisão acertada, era verdade que seriam cerca de três anos longe da vida que conhecia, mas o mais importante é que a partir daquele dia deixaria de se preocupar com as horas do recolher obrigatório instituídas pelo pai. Mais vezes do que aquelas que gostaria de se lembrar dormira nas escadas do prédio, como um cão, tudo porque se atrasara um minuto após o recolher obrigatoriamente das 22 horas. Por aquela altura tinha consciência de que nunca teria as chaves da casa do pai por este ter medo que lá metesse o seu único amigo Paulitos e este decidisse surripiar as velharias amealhadas e cheias de pó.

Naquele dia Nunes daria aquele que seria o seu primeiro salto para a tão ansiada nova vida. 

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“Esta é uma obra de ficção, qualquer semelhança com nomes, pessoas, factos ou situações da vida real terá sido mera  coincidência” ...