“Esta é uma obra de ficção, qualquer semelhança com nomes,
pessoas, factos ou situações da vida real terá sido mera coincidência”
Todos, pelo menos uma vez na vida, conhecemos pessoas
tão vazias, insignificantes, porém com trejeitos de grandes feitos, criaturas
que se rodeiam dos seus similares numa efémera tentativa de se encontrarem na
sua triste e insignificante passagem entre nós. No fim não deixam saudades,
memórias, e o que eventualmente fica acaba por ser destruído pelo próprio tempo.
Por esse motivo as “Crónicas de Nunes, um asno” tenta ser um retrato vivo do
que não queremos para os nossos filhos e filhas.
*
Numa quente tarde de maio nascia Nunes de cognome um asno. O seu inesperado nascimento
vinha trocar as voltas de final de vida ao seu velho pai que nunca pensou que na
sua provecta idade tivesse que ouvir os gritos daquela criança insegura que
numa demonstração da sua fraqueza vinham sempre acompanhados por rios de baba. O
velho sentou-se num cadeirão do quarto do hospital da Cruz Vermelha, sim porque
o menino tinha que nascer num local frequentado pelos brasonados de Lisboa, mesmo
que para isso tivessem que comer língua de vaca durante uns meses (a mesma
subentenda-se, que isto de comprar várias era um desperdício de dinheiro), pousou
a cabeça entre as mãos e naquele momento tomou as decisões que melhor lhe
facilitariam a sua coexistência com este novo rebento, enviaria o seu filho
mais velho para um colégio interno de padres de preferência bem longe de Lisboa
(quanto mais longe mais barato) e a sua filha, bem como era meio doidivana tinha
esperanças que fugisse de casa. Estava decidido, levantou-se de repente satisfeito
com a sua decisão, o corpo podia estar velho, mas a sua cabeça ainda funcionava
a cem por cento. Uma coisa era certa nunca mais se deitaria excitado (o que já
era raro) com a mulher, sempre que tivesse ideias infelizes tomaria um banho de
água tépida, na sua idade já não era necessário o uso abusivo de água fria até
porque lhe fazia mal ao reumático.
O Nunes que dormia no berço ao lado da cama da mãe
acordou assustado começando a berrar. A mãe nem se mexeu, finalmente descansava
merecidamente, tinham sido nove árduos meses a transportar aquele infeliz que
parecia já ter nascido com dentes e uma aptidão invulgar para apertar os
atacadores. Entrava uma enfermeira incomodada pelo choro da criança, a um
sacudir de mão da mãe levou-a com ela para o berçário.
A verdade é que estes primeiros momentos da vida
de Nunes iriam influenciar toda a sua vida futura, na tentativa infrutífera de
conquistar a admiração e respeito do pai bem como a atenção da mãe. E seria
somente aos seus 33 anos que o conseguiria, ao exemplo de seu pai encontraria
uma mulher disposta a financiar as suas ideias de grandeza e melhor ainda, que
o trataria como um filho o que a sua mãe nunca fizera.
Naquele dia nascia aquele, cujas crónicas começam
hoje.
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