sexta-feira, 10 de abril de 2020

in YGGDRASIL, PROFECIA DO SANGUE - cap 25


VINTE E CINCO


Maria abriu os olhos reparando num tabuleiro com comida pousado na mesa à frente da cama. Sentou-se espreguiçando-se.
Rhenan uma vez mais levantara-se, saindo do quarto sem que se apercebesse. O delicioso odor fê-la levantar-se. Comeu os ovos mexidos com queijo e pão de passas, bebendo o café com leite ainda quente, exactamente como gostava. Podia facilmente habituar-se àquelas mordomias, com a avó tinha sempre aqueles mimos. Naquele dia estava decidida a descobrir onde se escondiam os homens.
Um suave bater na porta e Maeve espreitava.
- Podemos entrar?
- Tu e quem? – Maria olhava divertida.
- Nós! - Deirdre entrou seguida da irmã, muito bem vestidas envergando as cores do Clã, maquilhadas e com jóias belíssimas.
- Estão lindas. - Maria saltou da cama fascinada com a beleza daquelas mulheres - Esqueci-me de alguma coisa? Alguém faz anos?
- Hoje, é realmente um dia muito especial. - Freya soava misteriosa observando-a com os olhos a brilhar.
Maria começava a ficar nervosa com elas paradas à sua frente.
Maeve abriu os pesados cortinados, brilhava um sol maravilhoso.
- Já viste que dia lindo?
- Que horas são?
- Passa pouco das oito.
- Oito? Não é um bocado cedo para estarem todas aperaltadas?
- Hoje não! – Deirdre sorria.
- Os vossos casacos têm a cor do Clã.
- Só os usamos em acontecimentos importantes e felizmente hoje é um desses dias.
Maria não aguentava tanta felicidade, podia jurar que ouvira Freya cantarolar, começavam a assustá-la. Levantou-se entrando na casa de banho. Demorou o dobro do tempo, lavou o cabelo com o shampoo com um delicioso odor a maçãs verdes, colocou gel no corpo, aproveitando para usar o máximo dos produtos de beleza que Maeve fizera tanta questão em oferecer-lhe.
Maeve espreitou quando colocava óleo no corpo.
- Despacha-te! Estás aí há uma hora.
- Não me disseste que tínhamos o tempo contado.
- E não temos, mas era bom se te despachasses enquanto há sol.
Saiu embrulhada numa toalha com o cabelo molhado a pingar-lhe as costas, odiava sentir-se pressionada.
- Deixa-me secar-te o cabelo.
- Maeve larga-me, - afastou-se dela – ainda me consigo vestir sozinha. Mas afinal onde vamos?
- É surpresa.
- Para quem?
- Para ti.
- Para mim? - as mãos suavam, odiava surpresas - A Freya e a tua mãe?
- Pedi-lhes para saírem estavam insuportáveis.
- Estás a querer dizer-me que estás melhor?
- Eu sou a calma personificada. Agora vê lá se aceleras antes que me dê um ataque de coração.
- Tens razão, mais calma é impossível.
Secou o cabelo enquanto Maeve andava impaciente pelo quarto, olhando através da janela, bufando. Era a primeira vez que a via assim.
- Pára de sorrir Maria, estou a ver-te e sei que estás a fazer de propósito. O cabelo está excelente agora veste-te.
- Não posso acreditar, também me escolheste a roupa?
- Sim! Vais levar este vestido branco com esta lingerie.
- Onde é que desencantaste o vestido?
- Mas consegues fazer alguma coisa, sem ser preciso explicar?
- Caso ainda não tenhas percebido não costumo usar vestidos e muito menos roupa interior como essa. – não se lembrava de ter comprado aquela lingerie, mas desconfiava que Maeve o fizera por ela - Para vestir isso mais vale ir nua.
- Então vai, mas veste-te de uma vez.
Maeve continuava a caminhar impaciente.
Antes que tivesse um ataque de ansiedade Maria fez o que lhe pedia, admirando-se ao espelho sem se reconhecer. Maeve saltava como uma criança com uma boneca nova, abraçando-a.
- Estás deslumbrante!
Sentia-se como Maeve a via, resplandecente. O vestido era lindíssimo e parecia ter sido feito à sua medida. Branco pérola de corte direito até aos pés, as mangas ajustadas aos braços. Um par de sapatos do mesmo tom estavam pousados em cima da cama.
- São para ti, oferta da minha mãe.
- São lindíssimos, mas salto alto? Devias ter avisado a tua mãe que não me dou com saltos.
- Diz-lhe tu!
Maria torceu o nariz, tinha mesmo de agradecer e fazer um esforço para não cair.
- Experimenta-os. – tinha finalmente conseguido calá-la.
Maria calçou-os e apesar de terem salto davam-lhe um andar fantástico. Maeve ajudou-a a fazer uma maquilhagem muito suave em tons pastel realçando-lhe os olhos castanhos. Fez-lhe uma trança larga prendendo-lhe flores de jasmim a todo o comprimento.
- Estás maravilhosa! - as lágrimas brilhavam nos seus olhos azuis.
- É como me sinto, mas não me faças chorar ou estrago-te o trabalho.
- São lágrimas de felicidade.
- Eu sei, mesmo assim. – voltou a cabeça para observar o que Maeve lhe fizera ao cabelo – Adoro o penteado.
- As flores são jasmim representam aquilo que és, luz. E vão dar-te amor e prosperidade.
Freya e Deirdre observavam-na da porta emocionadas.
- Estás linda. – Freya avançou para o interior do quarto - Quando o meu filho te vir… – ria-se divertida.
- Fazes lembrar-me alguém. – Deirdre beijou Maria sorrindo para a irmã.
- Começam a assustar-me, podem dizer-me onde vamos?
Maeve empurrou Maria para fora do quarto seguida da mãe e da tia.
Caminhavam em silêncio.  Ao cimo da escadaria Maria olhou para baixo ficando sem ar ao ver Lochan envergando kilt, com o cabelo revolto e os olhos a brilhar, sorrindo-lhe em sinal de aprovação. Desceu ao seu encontro.
Lochan não conseguia parar de lhe sorrir estendendo-lhe a mão para a ajudar a descer os últimos degraus.
- É hoje que te roubo ao meu irmão. És uma visão do paraíso. – admirava-a.
Freya bateu ao de leve no ombro do filho trazendo-o de volta à realidade. Maria sorria, sentindo o rosto aquecer.  
– Dás-me a honra de te levar? -  deu o braço a Maria.
- Não sei para onde me levas, mas adoraria ir contigo. - estendeu a mão tomando-lhe o braço sem reparar na felicidade das mulheres - Estás fantástico, mas não deixes que a tua mãe nos ouça. - sussurrou-lhe.
Lochan sorriu-lhe, pousando a mão livre sobre a que Maria mantinha no seu braço.
Contornaram a casa seguidos por Maeve, Freya e Deirdre.
- Sabes que tens umas pernas jeitosas?
- Infelizmente é um drama para nós homens do Clã, somos lindos e bem feitos. – Lochan tentava manter um ar sério, mas não conseguiu evitar rir.
- Esqueceste-te de humildes. – Maria continuava a achar que se iam fazer um picnic no jardim da propriedade, não era necessário irem tão bem vestidos – Onde vamos?
- Se tiveres paciência descobres por ti mesma.
Estavam perto do lago.
- Chegámos! – Lochan sorria ao ver a cara do irmão, o modo como olhava para Maria.
Eoghan e Fionn trocaram um ar cúmplice deliciados com a reacção de Rhenan quando Maria aparecera pelo braço do irmão.
Parou boquiaberta com a imagem que se deparava à sua frente.
Perto da água, tinha sido construída uma pérgula em Freixo entrançado com flores de jasmim a fecharem-na, conferindo-lhe uma sombra perfeita e um odor deslumbrante, naquele estranho e quente dia de Primavera.
Maria sentia o calor do olhar de Rhenan, um misto de fascínio e desejo. Envergando kilt como os irmãos que o ladeavam, parecia um Deus. Compreendia finalmente o motivo do desaparecimento dos homens, estavam a preparar tudo para tornar aquele dia perfeito. O dia do seu casamento.
- Se quiseres fugir ainda estás a tempo. – Lochan sussurrou-lhe ao ouvido olhando para o irmão com um sorriso matreiro.
- Quero que me leves ao teu irmão. - apertou-lhe o braço olhando para ele emocionada - Obrigada por seres tu a entregar-me, não podia ser outra pessoa. – colocou-se em bicos dos pés beijando-o nos lábios.
- Obrigado por o fazeres tão feliz.
Maria sentia-se a personagem principal de uma história de encantar. Os irmãos juntos eram uma visão deslumbrante, altos, o mesmo cabelo escuro e os olhos de um azul que derretia. Não desviava os olhos de Rhenan, conseguia sentir a sua emoção, o desejo nos seus olhos. Imaginara-o de kilt, mas nem nos seus melhores sonhos o vira tão sedutor e irresistível. Queria atirar-se nos seus braços e jurar-lhe amor eterno, mas ainda tinha de chegar perto dele sem tropeçar.
Lochan segurava-a firmemente sorrindo para o irmão, beijando-a antes de a entregar.
- É toda tua, mano!
Rhenan esticou-lhe o braço num cumprimento de guerreiros, sem tirar os olhos de Maria.
- Go raibh maith agat deartháir![1] - Rhenan baixou a cabeça em sinal de respeito. Lochan colocou-se a seu lado.
Rhenan segurou a mão de Maria conduzindo-a para debaixo da pérgula.
- Mo ghrá! Estás linda. - a voz rouca mostrava a emoção que sentia - Pedi a toda a minha família que estivesse aqui hoje para poder testemunhar a minha promessa de amor.
Maria respirava com dificuldade, sentia o olhar de todos. Concentrou-se naquele homem que esperara séculos sem amor até o encontrar nela.
Rhenan não tirava os olhos dos seus mantendo as suas mãos nas dele.
- Mo chroí!
“Prometo, perante todos que nunca terás fome de amor pois eu o alimentarei com cada pedaço da minha alma;
Prometo, que nunca sentirás sede de amor pois eu te saciarei com cada gota do meu sangue;
Prometo, que nunca sentirás dor pois eu te protegerei com cada parte do meu corpo;
Prometo, secar-te as lágrimas que vertas com os meus beijos.
Esperei por ti várias vidas sem te encontrar,
Definhei sem te poder amar,
Agora que te encontrei entrego-me a ti.
O meu corpo,
a minha alma,
todos os meus bens.
Prometi-me a ti desde o dia que te vi, para toda a eternidade.
Que a Deusa nos conceda a graça de filhos como última prova da minha devoção por ti.
E que vejam em mim um pai, um companheiro.
Tenho a Deusa e a minha família, como minhas testemunhas,
Is breá liom tú mo bhean chéile.”[2]

- Que assim seja! – Maria ouviu-se dizer aquelas palavras que a família repetia.
Rhenan abraçou-a, beijando-a, selando a promessa que lhe fazia.
Os irmãos gritavam de felicidade rodeando-os. Obrigando Rhenan a largar Maria entre fortes e sonoros abraços. Beijando-a em sinal de respeito, era oficialmente uma MacCumhaill.
- Cunhadinha, - Fionn abraçou-a - ainda pensei raptar-te, estás radiosa.
- Não tinhas hipóteses, meu! Se eu que sou uma cópia viva do nosso irmão não consegui, eras logo tu, ranhoso. – Lochan socou o irmão no braço.
Rhenan beijava a mãe e a tia sem tirar os olhos de Maria, era finalmente sua mulher.
Maeve dançava, era um dia perfeito.
A família crescia e com Maria as suas esperanças.
- Quero que saibas como estamos felizes, o meu filho não podia ter escolhido melhor. – Freya limpava uma teimosa lágrima de felicidade - Vamos celebrar.
Voltaram-se, caminhando de regresso a casa.
- Esperamos-vos lá dentro. - Eoghan encaminhou a família à sua frente piscando-lhes o olho.
Maria abraçava Rhenan.
- Então era para aqui que vinham todos os dias. Adorei a surpresa e tudo o que disseste.
- Mo ghrá! Sinto que te amo desde o início dos tempos, que te conheço há muito. Tenho-me aguentado para não gritar que te pertenço e que és minha. Hoje finalmente pude fazê-lo.
- És só meu?
- Sempre fui. Nunca amei até te conhecer e as promessas que te fiz são para manter enquanto viver.
- Então são para sempre. Mas terás de mo provar mais tarde.
- Posso provar-to já!
- Aqui? E se alguém aparece?
- O Eoghan não deixa. – Rhenan ria-se divertido.
- És doido!
- Sou, por ti! - arrastou-a para debaixo da pérgula para ficarem longe do sol.
- Só uma questão.
- Maria vais mesmo fazer-me perguntas agora?
- Tens alguma coisa vestida debaixo dessa linda saia?
- Eu dou-te a saia, anda cá que te mostro o que tenho por baixo.
Ria-se deliciada quando Rhenan a puxava para si, sem perceber como a conseguira despir tão depressa. Tinha de dar razão a Maeve e lembrar-se de lhe agradecer por a ter obrigado a vestir a lingerie, ao vê-lo perder a respiração, com o corpo a reagir.
- Linda! – sussurrava com a voz rouca. Desfez-lhe a trança passando-lhe os dedos pelo cabelo sentindo o seu odor – Enlouqueces-me mulher.       
Desfez o kilt atirando-o para o chão onde a deitou.
Rhenan olhava para Maria, era como um quadro que a Deusa tivesse pintado, o seu corpo alvo, os cabelos cor de oiro, os lábios inchados dos seus beijos, os mamilos intumescidos de desejo, o ondular da sua barriga ansiando o seu toque. Deitou-se sobre ela amando-a como se o mundo fosse acabar.
No céu apareciam nuvens que em breve tapariam o sol, ambos sabiam que estava na hora de regressar.
- Já percebi para que serve o kilt, é assim uma espécie de cama ambulante.
- Entre outras coisas.
- Quantas deitaste nesta cama?
- Só tu!
Maria deu-lhe um murro no braço enquanto se sentava.
- A partir de hoje estás proibido de falares de outras mulheres, nem sequer podes pensar nelas.
Rhenan abraçou-a puxando-a para cima do peito, beijando-a.
- Não penses que te safas com beijos. – ria-se feliz.
- O que fiz antes de te conhecer é como se nunca tivesse acontecido. Comecei a viver quando te vi. Acredita.
- Acredito. – Maria beijou-lhe a ponta do nariz.
- Vamos para dentro mo ghrá! Antes que aquelas nuvens tapem o sol ou um dos meus irmãos nos venha chamar.
Maria levantou-se de um salto, o pensamento de a poderem ver nua fê-la vestir-se em menos de um segundo.
- Tem calma, - Rhenan ria-se divertido, deitado observando-a - mesmo que nos vissem não estávamos a fazer nada reprovável.
- Pois não, mas acredita que não me apetecia ser apanhada pela tua mãe ou um dos teus irmãos. Ajuda-me a apertar o vestido.
- Anda cá. – levantou-se passando-lhe as mãos ao longo das costas - Fica-te muito bem. Estás radiosa.
- Onde o arranjaram tão depressa?
- Era da minha mãe.
Maria abriu os olhos espantada.
- Não o estraguei, pois não?
- Está perfeito.
- A tua mãe emprestou-me o vestido dela?
- Mo ghrá! A minha mãe ofereceu-to.
- Mas era dela.
- E agora é teu e mais tarde se quiseres será da mulher do nosso filho.
Maria abraçou-o encostando a cabeça ao seu peito.
Rhenan segurou-lhe na cara, queria guardar na sua memória todos os pormenores do dia mais feliz da sua vida.
- Agora vou levar-te para casa como um verdadeiro guerreiro. – acabava de prender o kilt – Segurou Maria, atirando-a por cima do ombro gritando um clamor de vitória como faria depois de uma batalha. Entrou em casa empurrando a porta com o pé. Maria ria-se divertida, Rhenan gritou pousando-a, os irmãos responderam-lhe lançando as mãos ao ar.
Antes de ter tempo de agradecer a Freya já os irmãos a puxavam para dançar. Rhenan e Eoghan dançavam frente a frente, parecia uma luta entre os dois apesar de não se tocarem.
Quando Maria conseguiu finalmente libertar-se dos braços dos homens sentou-se ao lado de Freya.
- Queria agradecer-lhe por sentir que sou digna de usar o seu vestido.
Freya segurou-lhe as mãos.
- Dei-to com todo o meu amor, assim como te entrego o meu filho. Sei quanto o amas e ele a ti. Sinto-me honrada por o teres vestido naquele que será o primeiro dia do início da tua nova vida.
Levantaram-se de mãos dadas, rodando à volta da mesa onde Rhenan e Eoghan continuavam a dançar, agradeciam mantendo a tradição druídica desde o início dos tempos fazendo a roda da vida girar.
Maria não conhecia metade dos pratos colocados sobre a mesa. Beberam hidromel, comeram fisk stuvad i öl[3], rak fisk[4], gravad lax[5], colcannon[6] e para sobremesa bolo de maçã e de whisky.
Ao anoitecer, Maria pegou no telemóvel afastando-se para o vestíbulo ligou à avó, Rhenan seguia-a.
Assim que a avó atendeu colocou em voz alta.
- Parabéns aos dois. Espero que sejam muito felizes.
- Sabias?
- O teu marido ligou-me a informar-me das suas intenções.
Rhenan sorria-lhe divertido por a ter surpreendido.
- Tenho pena que não estejas aqui.
- Estou em pensamento minha querida, nunca te esqueças que estou sempre contigo.
- Eu sei! Nas férias sempre podemos ir?
- Considera esse o meu presente de casamento.
- O melhor de sempre. Adoro-te!
- E eu a ti.
- O Rhenan manda-te um beijinho.
- A ele e a todos, o meu amor. Até logo, filha.
- Até logo, vovó.
Passou a mão na cara de Rhenan que pousara o queixo no seu ombro.
- És matreiro, falaste com a minha avó nas minhas costas.
- Não mo ghrá! A tua avó já me tinha dito que se já te tinha na minha cama devia tornar-te minha mulher.
- É uma raposa, esperta como tudo. Vamos para a sala, tenho uma surpresa para ti, na realidade para todos.
A campainha tocou.
- Estamos à espera de alguém? – Rhenan olhava para os irmãos que se aproximaram deixando as mulheres na sala.
Maeve juntou-se a eles.
- É o Sergiu, convidei-o.
- E como é que conseguiu abrir o portão Maeve? – Eoghan olhava para a prima apesar de saber a resposta.
- Porque lhe dei o código.
- Enlouqueceste? – Eoghan afastou-se para que Maeve passasse – Obrigas-me a alterá-lo amanhã.
- Não deve ser muito difícil, fazes isso num instante. – Maeve sorria-lhe encantadora quebrando todas as reservas que o primo ainda tivesse.
- Não lhe abras a porta, hoje é só para a família - Fionn continuava a mastigar – A comida não dá para dividir com ninguém.
- Se comeres dessa maneira nem deve chegar para nós. - Eoghan empurrou-o à sua frente de regresso à sala.
- Rhenan, deixa-o entrar eu gosto dele. – Maria tocou-lhe no braço - Ele é de confiança e a Maeve convidou-o.
Maeve sorria-lhe agradecida.
A contragosto Rhenan abriu a porta a um sorridente Sergiu, afastando-se de modo a permitir-lhe a entrada.
Sergiu entrou trazendo um presente que entregou a Maria com uma discreta e respeitosa vénia, não ousou beijá-la ao ver como Rhenan colocara possessivamente as mãos sobre os seus ombros.
- Entra, vem celebrar connosco.
Maeve beijou-o, ignorando propositadamente as caras carrancudas dos primos, só lhes faltava pintarem-nas para parecerem mais agressivos.
Maria deu uma cotovelada na barriga de Rhenan.
- Pára com isso! Eu gosto dele, a Maeve também e a tua tia até já lhe deu autorização para namorar a filha. Vamos para a sala, chegou a hora de acabar com segredos.
Rhenan não tirava as mãos de cima dos ombros de Maria, o que a mulher queria dizer com: “…acabar com segredos”?
Sergiu prostrou-se em frente das irmãs colocando um joelho no chão, baixando a cabeça em sinal de reverência.
- Mã numesc Sergiu Mihaiescu. Sunt aici pentru a servi.[7]
- Vã multumesc pe fiul meu. Accepta oferta.[8]
Levantou-se, quando Freya lhe tocou no ombro e o beijou, a irmã fez o mesmo.
- O que aconteceu? - Fionn olhava para os irmãos à espera de respostas. Ninguém percebia o que acabara de acontecer.
Maeve agarrou-se ao braço de Sergiu.
- O que disseste?
Sergiu olhou para Maria pedindo-lhe ajuda, autorizava-a finalmente a falar.
- Posso explicar.
Todos se voltaram para Maria.
Rhenan não percebia, mas continuava prostrado atrás dela sem se mexer.
- Há algum tempo descobri quem era o guerreiro que nos vinha ajudar, mas foi-me pedido segredo. A única pessoa a quem contei na altura foi à Freya, - segurou nas mãos de Rhenan pousadas nos seus ombros olhando para os MacCumhaill - porque precisava que se informasse sobre ele, sobre o seu pai e a ligação deles ao vosso tio.
- E eu confirmei, – Freya tomava a palavra - conheço pessoalmente Mihai, o pai de Sergiu, aliás todos conhecemos, é um velho amigo e guerreiro da antiga Ordem de Dracul, combateu com o nosso tio Vlad durante muitos séculos e é o seu mais fiel general. Sergiu veio apresentar-se para nos ajudar. A sua identidade foi revelada, será aconselhável que passe a viver na protecção que Yggdrasil lhe oferece.
- Maeve, não faças essa cara. – Maria reparara no seu ar confuso - Se não to dissemos foi para te proteger. Vem comigo à cozinha.
Maeve passou por Sergiu que baixou os olhos.
- Só te chamei para te garantir que o Sergiu fez segredo de quem era para te proteger, nos proteger a todos. Ele é tudo aquilo que conheces e gostas, nunca questiones os seus sentimentos por ti.
- Eu sei que me ama.        
- Mais do que possas imaginar. Que homem no seu perfeito juízo vem dormir a casa da namorada e aguenta as caras fechados dos primos sem reclamar? Conversa com ele e entendam-se. Podem contar sempre comigo.
Abraçaram-se.
- Vamos. – Maria segurou-lhe na mão levando-a de regresso à sala - Tenho mais uma novidade, vais gostar.
Sergiu comia enquanto conversava com as irmãs MacCumhaill.
- Novidades, - abraçou-se a Rhenan que a apertou - a minha avó ofereceu-nos uma prenda de lua-de-mel que nos contempla a todos. Férias no sul de Portugal, Sol, praia, comida e vinho. Que me dizem?
- Onde estiveres, eu estou mo ghrá!
- Lochan, serás excluído desta vez, mas não durante muito tempo, prometo-te.
- Não se preocupem comigo. Eu, a mãe e a tia temos de decidir como transportar o meu corpo. Esse tempo será precioso.
- Férias no sul de Portugal? - Fionn encheu os copos sentando-se perto de Sergiu não fosse tentar aproximar-se da prima. - Isso quer dizer que podemos ter miúdas?
- Se não tiver de te aturar concordo com tudo. – Maria encostava-se a Rhenan.
- Queres subir? – beijou-o puxando-lhe gentilmente o lábio de baixo.
- Não tens mais segredos?
- Tens de compreender, foi-me pedido segredo e esse não era meu para contar.
- Gosto que a minha mulher saiba respeitar a vontade dos outros. - Rhenan pegou-lhe ao colo subindo a escadaria. A família conversava na sala, aquele era um dia que nunca esqueceriam, com Sergiu tinham juntado mais uma peça daquele complicado puzzle que eram as suas vidas.
Entravam no quarto pela primeira vez como marido e mulher. Naquela noite e nas que se seguiriam não haveria criaturas das trevas ou Fadas traiçoeiras que se atravessem a tocar-lhes, o amor fazia milagres.
Chegara o tempo dos MacCumhaill.
O início de uma nova Era.
A Era dos Dragões.
O início da Profecia do Sangue.






[1] Muito obrigado, irmão!
[2] Amo-te minha mulher.
[3] Peixe com cerveja
[4] Truta salgada e fermentada com cebola crua, creme azedo e batatas
[5] Salmão cru curado com molho doce de mostarda e endro
[6] Batatas, alho e repolho
[7] Chamo-me Sergiu Mihaiescu. Estou aqui para as servir.
[8] Muito obrigada meu filho, aceitamos a oferta

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VINTE E CINCO M aria abriu os olhos reparando num tabuleiro com comida pousado na mesa à frente da cama. Sentou-se espreguiçando-...