domingo, 2 de abril de 2017

Entrevista à escritora Vanessa Lourenço publicada no Jornal Nova Gazeta

Quando há um ano atrás a escritora Vanessa Lourenço nos prometeu uma trilogia com gatos, algumas vozes em surdina pareciam desconfiar desta sua intenção. Como seria possível escrever uma estória fantástica cujos personagens fossem gatos e que ao mesmo tempo não fosse um livro para crianças?

Pois desenganem-se os mais céticos, porque não somente os gatos conseguiram provar que estão preparados para enfrentar tudo e todos seguindo os passos da sua criadora, como passado apenas um ano a Vanessa acabou de lançar o segundo volume desta trilogia.

A verdade é que desde a publicação de “A Cria Negra de Felis Mal’Ak”, a Vanessa voltou para nos apresentar “A Batalha de Sekmet” e mais uma vez conseguiu provar que quando se gosta do que se faz e se trabalha muito conseguem alcançar-se todos os objetivos a que nos propomos e os limites deixam de existir.

Mas todas as estórias têm a sua própria história e por detrás destes fantásticos gatos está a sua criadora. A Vanessa escreve sobre aquilo que é, uma apaixonada por livros e por gatos. Esta odisseia a quatro patas começou a crescer na sua cabeça quando teve o infortúnio de ver o seu gato preto morrer atropelado, nesse momento decidiu que a vida dele tinha que ser contada, dai a passá-la para o papel foi logicamente para a Vanessa o passo seguinte. E desta forma para além de o honrar acabou por o imortalizar.

Tenho a felicidade de conhecer a Vanessa pessoalmente e posso afirmar que o que mais me atrai na sua escrita é aquele poder impar que tem de deixar o leitor ansioso para saber o que acontecerá na página seguinte, os seus livros são na realidade um reflexo de quem é. A única garantia que retiramos da sua escrita é a de que parar de ler não é uma opção, até porque não o conseguimos fazer.

Na “A Batalha de Sekmet” vamos ter o tão merecido desenvolvimento pelo qual ansiávamos desde o primeiro livro. Aqui temos a possibilidade de conhecer as duas faces de uma Deusa trazida diretamente da mitologia egípcia que esconde um grande segredo. Mas a questão que nos mantém presos desde o início é se esta conseguirá destruir aquele grupo tão unido e acabar com uma inteira espécie na Terra.

Serão estes amigos de garras afiadas (quando necessário) e sempre prontos para a acção capazes de lutar com todas as suas forças e coragem, que lhes reconhecemos desde o primeiro volume, esta poderosa força?

Em vez de abrir um pouco mais do véu sobre este grupo felino prefiro convidar-vos todos a embarcar nesta aventura e a conhecerem melhor a Vanessa através da sua página. E com o Natal tão próximo porque não oferecer um destes exemplares ou até mesmo os dois? Se até a língua deixou de ser uma barreira, afinal a “A Cria de Felis Mal’Ak” já se encontra disponível em inglês.

Utilizando as palavras da própria: “não quero saber o que pensas, quero saber o que sentes”.

In Jornal Nova Gazeta, 02 Abril 2017


Casa Assombrada do Peso

Não conseguia fechar os olhos naquela noite a pensar no que o irmão me dissera quando chegou da escola naquela tarde. Teimava em assustá-la, parecia que ao sentir o seu medo lhe crescia uma espécie de poder que só ele conseguia compreender. Todos os dias ao final da tarde quando voltava das aulas passava por aquela casa branca, com as janelas de madeira apodrecida, trapos que em tempo teriam sido cortinas de seda e que agora não passavam de nada mais do que velhos trapos sujos, rasgados. Já reparara no brasão de pedra por cima da enorme porta de madeira com batentes de ferro, O quintal tinha ervas tão altas que não permitiam vislumbrar toda a sua opulência de tempos passados e como se não bastasse o velho portão de ferro enferrujado, que já tivera certamente melhores dias, mantinha-se reforçado na sua clausura com correntes de aço trancadas com um cadeado, era notório a quem quer que se atrevesse ali entrar que aquele local estava inacessível.
Parecia-lhe ridículo que o irmão a tentasse assustar com estórias de almas penadas que ali viviam ávidas por novas almas. Mas apesar de saber que não passavam de palavras provocadoras para a deixar assustada a verdade é que sempre que ali passava sentia-se observada. Nunca olhara para trás mas na realidade algo ou alguém parecia seguir os seus passos olhando-a por detrás daquelas janelas onde o vento teimava em brincar com a miséria em que aquele local se transformara.
Fechou os olhos e tentou dormir. No dia seguinte tinha matemática logo no primeiro tempo e não queria chegar sonolenta. Se já era difícil olhar para os números bem acordada nem queria pensar como seria se estivesse dormente.
Adormeceu rapidamente e sonhou.
Sonhou com a casa branca em toda a sua glória. Os muros altos de um branco resplandecente, portão aberto permitindo a entrada a quem se quisesse aventurar naqueles lindos jardins de erva aparada, canteiros de rosas das mais diversas cores, exalando um cheiro impossível de descrever. O brasão por cima da porta anunciando que aquela casa pertencia a uma família abastada. Nem faltava o empregado de libré a abrir-lhe a porta para que entrasse, sorrindo-lhe amistosamente,
Estava na entrada a olhar para o pé alto da casa com as suas escadas de madeira forradas com uma alcatifa vermelho fogo, o seu corrimão tão polido que se podia ver o reflexo do resto da casa, o magnifico lustre de cristal. Sentia que não devia subir. Caminhou pelo lado direito para a imensa sala aberta até à parte de trás da casa, conseguia ver a lareira onde crepitava um fogo lento, a sala com convidativos sofás de veludo com as suas mesas enfeitadas com pequenas toalhas rendadas, o piano perto da janela que se mantinha aberta para o jardim permitindo que o cheiro das flores inundassem aquele espaço como se também elas ali pertencessem. A mesa comprida de mogno com as cadeiras de costas altas, com dois lugares preparados para o jantar, um em cada extremo onde umas velas já aqueciam com a sua calma luz.
Olhou em volta não estava ali mais ninguém a não ser ela. Não sabia como tinha ali ido parar, não se lembrava de o ter feito. Sentia que era errado ali estar, no entanto algo lhe dizia que pertencia àquele lugar. Sentou-se num sofá. Não queria abusar da hospitalidade dos seus donos iria esperar até que um deles aparecesse e lhe conseguisse explicar o porquê da sua presença naquela casa, naquela noite.
Devia ter adormecido porque quando abriu os olhos estava tudo escuro à sua volta. Cheirava a madeira húmida pela chuva que se ouvia cair lá fora. Por momentos não soube onde estava até que ouviu um piano. Tocava uma música triste que os seus olhos se encheram de lágrimas. Estava sentada no que devia ter sido um bom sofá mas que agora não passava de uma recordação de tempos passados, onde as molas soltas se apertavam e encontro aos seus rins, magoando-a. Ergueu-se com dificuldade tentando não cair nos pedaços de vidros espalhados pelo chão à sua volta. Percebeu que eram das janelas altas, olhou em volta tentando que os seus olhos se habituassem àquela escuridão que teimava rodeá-la. Continuava a ouvir a música, não sentia medo antes pelo contrário sentia curiosidade. Muita curiosidade.
Caminhou com cuidado contornando os pedaços de madeira e vidros espalhados no chão tentando não se cortar, percebeu que estava descalça. Mesmo que tentasse fugir daquele local nunca o conseguiria fazer sem se ferir.
O som suave do piano voltou a ouvir-se. Olhou na direcção daquele local que sabia ser o sitio onde o vira. Alguém estava sentado, não conseguia ver-lhe a cara, mas conseguia sentir o seu desespero. Esticou a mão, tremia, tinha que fazer com que aquele vulto se voltasse e a encarasse. Tinha que ver quem era, saber o que o fazia sofrer.
O piano parou e assim que a sua mão lhe tocava no ombro, o vulto voltou-se e sentiu um frio que a congelou, naquele momento teve medo e gritou.
A mãe estava sentada ao seu lado na cama segurando-a pelos braços, tentando acalmá-la. Estava de olhos abertos sentindo-se perdida até que o calor dos braços da sua mãe a trouxe de volta para o conforto da sua cama, do seu quarto, da sua casa. O irmão olhava-a da ombreira da porta, nunca a ouvira gritar daquela maneira, nunca a sentira tão assustada. Talvez fosse uma boa altura para lhe dizer que inventara toda aquela história da “Casa branca do Peso”, afinal não passava mesmo de uma casa velha que alguém abandonara ao tempo, tinha que lhe dizer que os fantasmas não existem só na nossa imaginação e que até esses são somente projecções dos nossos próprios receios.
Assim que a mãe os deixou sozinhos aproximou-se da irmã, sentando-se aos pés da sua cama.
- Desculpa Mafalda não foi minha intenção assustar-te tanto.
A irmã olhou para ele.
- Não! Tens razão. Algo estranho se passa naquela casa, o dono…o dono não tem cara.
Aproximou-se mais dela segurando-lhe na mão.
- Ali não existe nada, nem ninguém. Fui eu com as minhas estúpidas ideias e com a facilidade com que te deixas assustar. Prometo não o voltar a fazer.
- Não! Não estás a perceber, eu estive lá, naquela casa, na sala, havia um piano, eu vi-o!
- Sonhaste, nada disso aconteceu realmente.
- Não estás a perceber, tu tinhas razão.
- Já te disse que inventei tudo só para te assustar. Esquece o que sonhaste e tenta dormir. De preferência desta vez tenta não sonhar nem gritar.
A mãe entrou naquele momento transportando um copo de leite morno com mel, o melhor remédio para acalmar os nervos.
Quando a casa ficou novamente em silêncio e já estava a sentir aquela moleza que antecede o sono. Voltou a ouvir a mesma música, mas desta vez não estava na velha “casa branca do peso”, estava deitada na sua cama, no seu quarto, na sua casa. Levantou-se da cama caminhando descalça até à janela que dava para a entrada da casa e conseguiu ver à distância uma luz que tremeluzia, ouviu a música cada vez mais alta. Desta vez não teve medo, algo mudara naquela melodia estava mais suave mais quente já não soava triste e abandonada. Caminhou de volta para a cama, descalça sem se aperceber que os seus pés sujos de pó e ervas secas manchavam o chão de madeira atrás de si.
No quarto ao lado o irmão conseguia ver o mesmo que ela. E nesse momento a imagem daquele homem sem rosto apareceu-lhe à sua frente e pode ouvir nitidamente a sua voz dentro da sua cabeça.
- Obrigado por me teres apresentado a tua irmã. Era mesmo aquela por quem esperara. Eu Pedro, Barão do Peso sou um homem de palavra pelo que deves considerar a tua divida para comigo saldada.
O irmão não conseguiu gritar, estava tolhido de medo, o que fizera? Nunca devia ter lá entrado, nunca deveria ter tirado a fotografia que encontrara de cima do piano, mas a mulher da imagem era tão parecida com a sua irmã que se assustara. Inconscientemente ao contar à sua irmã a estória daquela velha casa tinha-a conduzido para aquele local que se dizia ser amaldiçoado desde o dia em que a mulher da fotografia, a noiva do dono da casa desaparecera misteriosamente. Contava-se que desesperado deitara fogo à casa com uma vela enquanto tocava piano. Não tivera morte imediata, mas ficara com a cara desfigurada pelo fogo.

Reza a lenda que quem lá entrar por sua livre vontade passara a fazer parte da sua estória e essa nunca estará terminada.
Resultado de imagem para casa vaz em peso da régua 

sábado, 11 de fevereiro de 2017

Vou subir a fasquia e escrever mais cinco sombras

Está decidido! 
Vou subir a fasquia.
Quero mais de trinta e três mil pessoas a correrem para as salas de cinema portuguesas para assistirem à estreia dos meus filmes. Quanto ao resto do mundo logo se vê.
Ontem, a convite da minha amiga Elisabete, fui ao Colombo assistir ao segundo filme sobre o “senhor cinzento” baseado no romance erótico de E. L. James.
Para ser exacta foi esta mesma amiga que me apresentou a autora emprestando-me os seus livros para que os lesse e lhe desse a minha opinião. O que fiz.
Passo para os desabafos do que gostei e não gostei no que vi ontem.
Pontos Negativos: Dakota Johnson. É como ver a Dory à procura de si mesma. Além de que fica aqui o exemplo de que uma “cunha” nem sempre é aconselhável, principalmente quando naquela família nenhum peixe sabe nadar. Algemas para os tornozelos com extensor-ATENÇÃO não aconselhável a pessoas com excesso de peso, o rodar pode tornar-se problemático para todos os envolvidos.
Pontos Positivos: Jamie Dornan, antes de mais porque é irlandês (muito relevante), porque tem um corpo que apela a todos os pecados mentais e físicos, mas principalmente porque se não fosse ele a “Dory” continuava perdida. Algemas para os tornozelos com extensor. Banda sonora e paisagens fantásticas da Colômbia Britânica.

Decidi que a partir de hoje vou colocar mais tons de cinza naquilo que escrevo, desde já peço à minha tia que me perdoe, mas desta vez não vou seguir os seus conselhos e cortar as cenas de sexo, antes pelo contrário. A partir de hoje vai ser um deboche de sexo, vícios, sadismo, multimilionários, beleza e ausência de cérebro.  

E se me fosse permitido um conselho a James Foley, o director deste segundo filme: “lembre a Dory que por esta altura as bolas já deviam ter sido retiradas.


segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

O Covil da Ria Formosa - IV Capítulo

Capítulo Quatro

   Tinham-se juntado no quarto de Mário. Matilde tentava insistentemente contactar com as irmãs para as avisar, mas estas continuavam incomunicáveis.
    Diogo entrou a correr, tinha ido espreitar se ainda ali se encontravam e reparara nuns faróis a atravessarem a ponte de acesso à ilha.
     - Vem aí alguém.
- O que queres dizer? - Inês levantou-se de um salto - Conseguiram entrar?
- Não mana, vem alguém a atravessar a ponte.
Matilde parecia perder cor a cada hora que passava.
- Vamos ter calma. Pelo que percebemos eles não conseguem entrar sem a nossa autorização.
O carro passava naquele momento à frente da casa continuando sem abrandar, um grupo de rapazes cantava desafinadamente tentando acompanhar a música sem saberem para onde se dirigiam. Ficou naquele momento provado que não iriam longe, no seu encalce corriam quase todas aquelas almas penadas.
- Matilde e Inês, não saiam daqui, já voltamos. – Mário fez sinal aos primos para que o seguissem.
- Não nos deixem, por favor, voltem. - Inês sentou-se na cama e Matilde juntou-se a ela. Abraçaram-se confortando-se naquela hora de terror.
- Matilde estás muito fria, queres um cobertor?
- Estou bem, só um pouco agoniada.
Não disseram mais nada.

Mário pegou na chave do carro entregando-a ao Diogo.
- O que queres que faça com isto?
- Vais entrar no meu carro e sair da ilha…
- Sozinho? E deixo-vos aqui? Deves estar louco.
- Não nos vais deixar para trás. Vais posicionar-te no cruzamento do aeroporto, evita que mais pessoas tentem entrar na ilha.
- E vocês?
- Enquanto estivermos dentro de casa estamos seguros. - Miguel esticou-lhe o telemóvel que colocou no bolso das calças.
- A porta do meu carro abre com a aproximação do comando pelo que só tens que correr lá para dentro, não olhes para trás nós vamos distrai-los do outro lado da casa. Boa sorte meu.
Abraçaram-se.
Diogo voltou-se.
- Ao menos sabem contra o que lutamos?
- Vampiros meu, vampiros.
Diogo e Mário olharam para ele, tudo indicava que assim fosse.
- Só mais um conselho, fecha bem as portas, não dês boleia e desconfia da tua própria sombra.
- Tomem conta da minha irmã.
- Sabes que sim. – Mário bateu-lhe ao de leve no ombro decidido a ganhar tempo ao primo para que este partisse em segurança.
Miguel teria que fechar a porta mal saísse.
Nesse momento na sala Mário abria a porta deparando-se com o mesmo cenário.
- Soube que queria entrar. - Dirigiu-se à criatura, tinha que a distrair
Continuava na mesma posição olhando-o.
- Mário.
- Desculpe, conhecemo-nos? – O simples facto de saber o seu nome e de o ter pronunciado gelara-o.
- Conheço-te.
Engoliu em seco. Aquela voz começava a mexer com ele. Tinha que a afastar da sua mente. Reparou que falava sem mexer os lábios.
Ouviu quando Diogo saiu da garagem a alta velocidade, antes que alguma daquelas criaturas tivesse tempo de reagir. Viu as luzes atravessarem a ponte. Conseguira.
Sorriu satisfeito.
Fechou-lhe a porta na cara, ouvindo um uivo de raiva.
Tinha a cabeça pesada. O efeito daquela voz deixara-o com uma terrível dor de cabeça. Fora difícil resistir-lhe.
Miguel trancava a porta quando uma explosão ecoou. 
Correram para a janela, não queriam acreditar no que os seus olhos viam, a ponte já não existia. Por ali não conseguiriam sair.
Intuitivamente olharam para os relógios. Faltavam horas para o nascer do dia. Ia ser uma longa noite.
Viram as luzes do carro que por ali passara minutos antes ziguezaguear até embater no muro do parque de campismo, souberam de imediato o que acontecera com os seus ocupantes.
- Preparem-se, temos que estar prontos para sair daqui assim que pudermos.
- Sair daqui? - Matilde gemeu – Mas aqui estamos seguros.
- Não sei se durante muito tempo, são muitos e sinto que provocar aquela doida lá em baixo, não jogou a nosso favor.
- Vamos para onde? Como? - Inês faria o que lhe dissessem apesar de ter muitas dúvidas.
- Os vampiros conseguem atravessar água? - Miguel olhava através da janela para os ocupantes do carro.
- Querem atravessar a nado, no escuro? - A Inês não lhe agradava a ideia. - Como pensam passar por eles?
- Eu consigo distrai-los.
- Já chega o meu irmão ter-se arriscado, não nos vamos separar novamente. Sozinhos ficamos vulneráveis. – Inês agarrou na mão de Miguel
- Já te esqueceste que sou campeão de corta mato? Dá-me um pouco de crédito prima.
- Só não te quero perder.
- Não vai acontecer.
- E se esperássemos pela madrugada? – Matilde estava cada vez mais franca.
- Não sei se temos esse tempo. - Mário olhava alternadamente para todos. - O Miguel só tem que levar atrás dele aqueles que se encontram na parte da frente da casa…
- E vai para onde? - Inês parecia confusa – A ponte não existe.
- Eu salto. – Miguel já fazia aquecimentos.
- Saltas? E nós?
- Seguimos pela Ria, contornamos a casa da Matilde e avançamos até alcançarmos a água. Temos que ser rápidos e silenciosos.
- Está maré baixa vamos ter que correr pelo lodo.
- Conseguimos. – Mário piscou-lhe o olho.
- Prontos? – Miguel já abria a porta.
- Não! - Inês agarrou-o no braço
- Garanto-te que nenhuma daquelas anormais sanguessugas me conseguirá apanhar - Sorriu-lhe.
- Vemo-nos mais tarde. – Mário fez-lhe sinal – Quando quiseres.
Naquele momento não havia tempo para mais despedidas.
Abriu a porta e começou a correr saltando o muro, vários vultos corriam no seu encalço. Inês manteve os olhos fixos nele até o deixar de ver, nesse momento rezou para que todos sobrevivessem àquela tormenta.
O caminho estava livre.
Mário certificou-se fazendo-lhes sinal para que saíssem junto a ele, fechou a porta à chave colocando-a no bolso das calças. Mantinham-se alerta.
Avançaram pelo lodo a custo. 
- Quando chegarmos perto da água preparem-se para nadar até ao barco.
 Matilde parou.
- Não podes parar. – Inês gritou-lhe quando viu que aquelas criaturas estavam quase a alcançá-los. Mário segurou-lhe na mão puxando-a com ele, mergulhando.
Perante o seu olhar horrificado Matilde entrava em combustão em contacto com a água salgada.
- Mário! Nada!.
A verdade é que não podia fazer nada. Quando é que fora transformada? Como conseguira entrar na casa deles? Lembrou-se que no dia em que chegara lhe tinha perguntado se não a convidava a entrar. E ele fizera-o.
Começou a nadar ao lado da prima, subiram para o barco com a ajuda de Miguel que também se lançara à água para escapar a quem o perseguia. Repararam num carro que se aproximava no caminho de acesso à ilha. Diogo vira a explosão. Saiu do carro mergulhando na direção deles. O único local seguro naquela noite era no meio da Ria Formosa.
Viram as irmãs de Matilde.

Os vultos seguiam pela praia até à Quinta do Lago. A longa noite começava…

domingo, 5 de fevereiro de 2017

O Covil da Ria Formosa - III Capítulo

Capítulo Três

            A cozinha e a sala estavam iluminadas pelos candeeiros.
            Conseguiam sentir o nervosismo uns dos outros. Sabiam que algo estava errado.
            Matilde jantou com eles.
Achava-a muito pálida. Podia ser do medo.
            - Onde estão as tuas irmãs Matilde? - Inês não resistiu perguntar.
            - Foram passear para Faro hoje à tarde, há uma feira de artesanato, devem jantar por lá.
            Miguel comia as últimas batatas fritas antes que Diogo as visse.
            - A Matilde dorme cá esta noite! - Mário olhou para a prima.
            - Parece-me bem. – Não queria que ele fosse para casa dela, não conseguia deixar de pensar na sensação estranha que sentira naquela casa. - Vai ser agradável ter a tua companhia aqui esta noite.
            - Obrigada Inês. – Sorriu-lhe.
Não parecia ter muita fome, brincava com a comida no prato. Levantou-se.
            - Eu já vos venho ajudar a lavar a loiça, vou só num instante a casa buscar algumas roupas.
            - Não! - Inês nem se tinha apercebido que gritara
            - Não? - Matilde parou perplexa a olhá-la.
            - Por favor não vás eu empresto-te umas roupas minhas.
            - Mana não estás a dizer coisa com coisa. - Sentou-se novamente perto dela tocando-lhe na mão percebeu que tremia, estava gelada. - Afinal o que é que se passa contigo?
            - Inês estás bem? - Mário já se levantava - O que é que te aconteceu esta tarde? Nunca te vi assim.
            Levantou os olhos encarando-os, o que podia(m) ver neles não era dor era desespero.
            - Tenho medo.
            - Medo? De quê?
            - Se vos contar vão pensar que estou maluca.
            - Não! Isso nós já sabemos – Miguel sorriu-lhe enquanto falava - mas se não nos contares vamos pensar algo muito pior. - Terminara as batatas fritas.
            - Começa do princípio. Temos a noite toda. – Mário puxou a cadeira para perto dela.
            Respirou fundo, nunca fora cobarde. Podiam pensar o que quisessem, crescera com eles, conheciam-na o suficiente para saber que existiam motivos para agir assim.
            - Vocês não notaram nada estranho nos últimos dias?
            - Quando dizes estranho estás a referir-te a quê? - Miguel enchia o copo com uma cerveja morna.
            - A tudo. Olhem à vossa volta. Em todos estes anos que para aqui vimos, alguma vez se lembram de ver a ilha tão deserta com este tempo fantástico? O cheiro nauseabundo que está permanentemente no ar. Não acham estranho o padeiro não aparecer nem enviar alguém que o substitua? Algumas das pessoas vivem aqui o ano inteiro e aparentemente só nós é que cá estamos. Onde estão todos?
            O silêncio tornou-se pesado.
            Já todos tinham pensado o mesmo.
            Mário conseguia reconhecer o cheiro.
            - Tens razão. Algo muito estranho se passa.
            Miguel falou finalmente.
            - Talvez gostassem de saber da nossa tentativa de comprar pão esta manhã na estalagem. Quando entrámos só lá estava aquele empregado que a prima acha giro.
            Inês fulminou-o com o olhar.
            - Confirmou-nos que não têm recebido pão, nem fruta, nem queijos, enfim parece que todos os distribuidores estão de greve.
            - Mas o que é que isso tem de estranho?
            - O facto de não estar ninguém na estalagem àquela hora apesar de o buffet do pequeno-almoço estar preparado. Segundo o empregado a estalagem está cheia.
            Ninguém falava, parecia que estavam a viver um filme de John Carpenter.
            - Mas o estranho foi quando o empregado se ausentou, – Diogo recomeçou onde Miguel ficara – e já não voltou a aparecer. Ficámos completamente sozinhos, acabámos por vir embora, sem o pão.
            - Vocês sabem como gosto de ir correr pela praia. – Mário tomou a palavra - Hoje a seguir ao almoço fui até à barra e a verdade é que não vi ninguém em todo o areal. Nem sequer os cães dos pescadores, ou até mesmo os gatos que costumam estar pendurados nas varandas das casas. Regressei pela ria e é a mesma desolação, até o parque de campismo parece deserto. Malta, estamos em pleno fim de semana, onde estão todos?
            - A ilha está amaldiçoada. – Miguel engoliu o resto da cerveja
            - Mas estás louco? – Inês parecia relutante
            - Então como justificas este silêncio?
            - Algum de vocês reparou que ao final da tarde na praia está sempre um grupo parado a olhar nesta direção? – Diogo abria outro pacote de batatas mantendo-as afastadas de Miguel.
            - Então também os viste? - Inês suspirou fundo, afinal não estava doida.
            - Começam a assustar-me. - Matilde chegou-se mais para perto de Mário que a abraçou.
            - Eu acho que temos razões para ficar assustados, - Inês continuou – não devemos sair durante a noite.
            - Depois de tudo o que foi dito podes ficar descansada que não vamos a lado nenhum mana.
            - E as minhas irmãs? - Matilde olhava para eles à espera de uma solução. - Tenho que as avisar de que algo errado se passa. O que lhes digo?
            Olharam todos entre si. Afinal o que é que temiam?
            - Não sei o que está lá fora - Mário falou segurando-lhe a mão entre as suas - mas temos que evitar que entre nesta casa. Acho que lhes deves ligar para os telemóveis a avisá-las para não voltarem para casa esta noite.
            Levantaram-se ao mesmo tempo, iam confirmar que estava tudo trancado. Miguel caminhou para a porta da sala que dava acesso ao pátio das traseiras, lembrava-se de a ter deixado aberta, preparava-se para a fechar quando se deparou com uma mulher prostrada à sua frente olhando-o com uns olhos sem luz.
            - Posso ajudá-la?
            - Convida-me a entrar. - Falou com uma voz que o atraia para si.
            Antes mesmo que Miguel pudesse responder Inês tinha-se aproximado do primo tapando-lhe a boca respondendo em vez dele.
            - Quem é a senhora?
            Os olhos dela transformaram-se em duas bolas vermelhas de ódio enquanto a encaravam.
            - Convida-me a entrar.
            - Mas se nem a conheço.
            - Cabra. Deixa-me entrar! - Gritou tirando Miguel do torpor em que se encontrava.
            O pátio começou a encher-se, reconhecia quase todos. Eram os vizinhos desaparecidos. Pareciam em transe, olhando-os com olhares sequiosos.
            - Sabes com quem te estás a meter?
            - Não quero saber. Aqui não entra.
            Empurrou a porta fechando-lha na cara.
            Conseguiam ouvi-los do lado de fora. Estavam cercados dentro da própria casa.
            - Quem era aquela mulher? Viste os olhos deles?
            - Vi prima. Os nossos vizinhos pareciam almas penadas.
            - Também lá estava o padeiro.
            - E o rapaz da estalagem.
            - O que são aquelas coisas?
            - Tenho as minhas suspeitas.
            - A porta está bem fechada?

            - Por aqui garanto-te que ninguém entra.

sábado, 4 de fevereiro de 2017

O Covil da Ria Formosa - II Capítulo

Capítulo Dois
     Os raios de sol penetravam através da janela do quarto. Mesmo fechada permitia a passagem daquele cheiro que parecia ter ganho novas proporções.
      Desceu dirigindo-se à cozinha onde preparou um bule de café. Encheu uma chávena e foi abrir a porta de acesso ao pátio virado para a ria no preciso momento em que Matilde se preparava para bater.
          - Olá Mário!
          - Matilde? Quando chegaste?
          - Ontem à noite. Tiveste saudades minhas?
            Ali prostrada à sua frente estava a miúda com quem namorava todos os anos nas férias.
            Como não respondesse. Matilde avançou para ele abraçando-o e beijando-o. Evitando passar o limiar da porta. – Não me convidas a entrar?
            - Tenho sempre saudades tuas, anda cá. Entra. – Apertou-a, beijando-a.
            - Olha porque é que nunca me procuras em Lisboa?
            Beijava-lhe o pescoço enquanto lhe respondia a custo – Porque ando sempre de um lado para o outro, sabes que o meu curso não me permite ter muito tempo livre.
            - Pois, – fez beicinho – preferes passar o teu tempo com cadáveres.
           
Diogo e Miguel desciam as escadas, Inês já comia uma taça de cereais sentada na cozinha.
            - O Mário? – Perguntou o irmão bocejando.
            - Está na sala na marmelada com a Matilde.
            Abriram os olhos de espanto entreolhando-se.
            - O homem não tem descanso. – A voz de Miguel soava com admiração
            - Chegou esta madrugada. – Inês levantou-se para ir lavar a taça.
            - Agora é que nunca mais lhe pomos a vista em cima
            - Espero bem que não, meu – Miguel riu-se dando-lhe uma cotovelada – não temos café?
            - Já não. Faz mais – Inês mordiscava uma maçã.
            - Nesse caso bebo coca-cola – virou a caneca para baixo, inconformado.
            - És mesmo preguiçoso Miguel.
– Também não temos pão? 
            - Vocês comeram todo o que comprámos ontem e o padeiro não tem aparecido. Não acham estranho?
            - Estranho mesmo é este cheiro. – Miguel levantou-se começando a subir as escadas – Estou esfomeado. Vou ver se arranjo pão na estalagem se não tiverem vou até ao parque de campismo.
            - Se esperares um pouco vou contigo. – Diogo levantou-se caminhando para a porta.
            Inês continuou sentada. O cheiro estava mesmo cada vez mais intenso e nauseabundo.
*
Deitada no chão húmido entre caixotes vazios na cave da estalagem sabia que estava segura.
Sorriu sem abrir os olhos.
Nas três últimas noites desde que ali chegara tinha-se alimentado à vontade.  Mas a comida começa a escassear.
Ouviu passos, desciam as escadas caminhando na sua direção.
Passou a língua pelos lábios humedecendo-os na expectativa de uma refeição ligeira antes do acordar. Nunca se sentira tão insaciada em tantos séculos como agora.
A porta abriu-se e uma luz fraca pendurada num fio do teto acendeu-se ferindo-lhe os olhos apesar de ainda os manter fechados. Não precisava de o ver para saber onde se encontrava, conseguia ouvir o bater do seu coração, o pulsar do seu sangue, atraindo-a. Continuou deitada no meio dos caixotes. Queria que a encontrasse ali.
O jovem caminhava na direção da sua própria morte sem se aperceber.
Largou a caixa de cartão que transportava quando viu aquela jovem mulher deitada no chão frio. Agachou-se perto do corpo olhando para a sua palidez, temendo o pior.
- Minha senhora, - falava com a voz baixa - minha senhora.
Ria-se sem se fazer ouvir. Não se cansava de ouvir a preocupação na voz deles quando a encontravam. Dava-lhes outro sabor ao sangue, ficava mais espesso, mais saboroso.
O jovem pegou-lhe no pulso, não o sentia, estava gelada.
Estava morta.
Levantava-se para ir pedir ajuda quando uma forte mão o segurou pela nuca puxando-o de encontro à boca já sequiosa daquele líquido quente que começava a fluir livremente. Ainda se tentou debater, mas o espanto na sua cara espelhava o pânico que sentia naquele momento. A vida abandonava-o.
Agora era só aguardar.
*
            Miguel e Diogo tinham levado as chaves do barco e as canas de pesca, Mário continuava entretido com Matilde. Suspeitava que não iria ver nenhum deles até ao final do dia.
            Saiu da espreguiçadeira, não conseguia ali ficar muito mais tempo com aquele cheiro. Olhou na direção da casa de Matilde, era estranho que ainda não tivesse visto nenhuma das suas irmãs. Continuava com as portadas todas corridas.
            Olhou na direção do aeroporto, tirou os óculos, nuvens escuras ameaçavam tapar o sol. Tinha uma luzinha de alerta a acender dentro do seu cérebro avisando-a de que algo poderia correr muito mal se ficasse no escuro. Olhou para a ria, queria que eles voltassem depressa. Começou a arrumar o pátio.
            Vestiu uma t-shirt comprida, estava a ficar com frio. Continuou a olhar para a ria, a maré estava a baixar e nem sinal deles. As nuvens taparam o sol. Contornou a casa e a sua atenção prendeu-se nas escadas de acesso à praia onde estava um grupo parado olhando na sua direção.
            Voltou a sentir medo.
            Entrou a correr dentro de casa pela porta da frente.
Sabia que não tinha imaginado nada daquilo.
            Abriu o frigorífico que estava às escuras, não tinham luz. O telefone fixo também não funcionava e a rede móvel tinha falhas. Tinha que se manter ocupada.
            O sol voltara a aparecer levando com ele os sinistros vultos. Saiu a medo olhando de relance para a rua, notou que os cães da casa em frente não ladravam. O seu cérebro enviava-lhe mensagens de perigo que ignorou, avançando em passo acelerado para a casa de Matilde, saltou o baixo muro de separação e entrou.
- Ana? Filipa? - Estava muito escuro, não obteve resposta. Conhecia bem aquela casa, brincara ali diversas vezes com elas. Voltou a insistir – É a Inês.
O mesmo silêncio.
            Sentia-se gelada. Empurrou a porta que dava acesso ao interior, carregou nos interruptores à sua passagem e nada. Aparentemente a falta de luz era generalizada.
            Espreitou para dentro da escuridão e voltou a chamar.
            - Estamos sem eletricidade e telefones queria saber se também estão com o mesmo problema.
            Uma vez mais só silêncio.
Fazia lembrar um daqueles filmes de terror que os primos e o irmão tanto gostavam de ver. Também ela já vira demasiados para saber que não devia entrar num local às escuras, principalmente se sentia que algo estava errado. E definitivamente alguma coisa estava muito errada ali. Devia seguir o seu primeiro instinto e sair dali o mais depressa que as suas pernas permitissem, mas a maldita curiosidade não a deixava. Onde estariam as irmãs dela?
            Voltou-se para sair quando lhe pareceu vislumbrar pelo canto do olho algo a mexer-se debaixo das escadas de acesso ao primeiro andar da casa.
            Não pensou duas vezes, voltou-se o mais depressa que conseguiu e preparava-se para sair quando chocou contra um corpo que a agarrou com mãos fortes. Gritou.
            - Mana estás bem?
Diogo estava parado à sua frente.
- Estás a tremer, o que foi que te aconteceu?
            Apesar de sentir que podia desmaiar a qualquer momento ainda conseguiu arranjar forças para falar.
            - Vamos sair daqui, vamos para casa, por favor.
            - Sabes que não há luz em toda a ilha?
            - Era sobre isso que vos queria falar. Onde está o Miguel?
            - Em casa.
            - Como soubeste que estava aqui?
            - Pareceu-me ouvir-te quando estávamos a subir os degraus.
            - Porque vieram tão tarde? Já está escuro.
            - Tem calma, estamos bem. Afinal o que estás aqui a fazer? – Olhava em volta tentando perceber o que a atraíra ali.
            - Vinha ver as irmãs da Matilde.
            - E onde é que elas estão?
            - Não sei. – Inês já caminhava para a porta puxando o irmão – Vamos sair daqui que esta casa começa a arrepiar-me.
            - Reparaste no cheiro? – Diogo cheirava o ar.
            Já não trocaram mais nenhuma palavra até entrarem em casa.
Inês trancou a porta atrás deles. Se alguma coisa andava lá fora não conseguiria passar pelas portas blindadas.
            Miguel mastigava uma sandes e o Mário ainda não tinha descido.
            - Hoje vi umas pessoas esquisitas na praia. Vocês viram alguma coisa? – Mexeu a carne que deixara ao lume enquanto tentava acalmar o coração que ameaçava saltar-lhe pela boca.
            - Não vimos ninguém. Estás a tremer? – Miguel parecia verdadeiramente preocupado.
            - Estou bem. Só me assustei um pouco, estava a escurecer e vocês ainda não tinham voltado. Ficava melhor se fossem buscar uns candeeiros a óleo que a mãe gosta de deixar espalhados pela casa.
Diogo fez-lhe a vontade.

A CASA

“Esta é uma obra de ficção, qualquer semelhança com nomes, pessoas, factos ou situações da vida real terá sido mera  coincidência” ...