Capítulo Dois
Os
raios de sol penetravam através da janela do quarto. Mesmo fechada permitia a
passagem daquele cheiro que parecia ter ganho novas proporções.
Desceu
dirigindo-se à cozinha onde preparou um bule de café. Encheu uma chávena e foi
abrir a porta de acesso ao pátio virado para a ria no preciso momento em que
Matilde se preparava para bater.
-
Olá Mário!
-
Matilde? Quando chegaste?
-
Ontem à noite. Tiveste saudades minhas?
Ali
prostrada à sua frente estava a miúda com quem namorava todos os anos nas
férias.
Como
não respondesse. Matilde avançou para ele abraçando-o e beijando-o. Evitando
passar o limiar da porta. – Não me convidas a entrar?
-
Tenho sempre saudades tuas, anda cá. Entra. – Apertou-a, beijando-a.
-
Olha porque é que nunca me procuras em Lisboa?
Beijava-lhe
o pescoço enquanto lhe respondia a custo – Porque ando sempre de um lado para o
outro, sabes que o meu curso não me permite ter muito tempo livre.
-
Pois, – fez beicinho – preferes passar o teu tempo com cadáveres.
Diogo e Miguel desciam as
escadas, Inês já comia uma taça de cereais sentada na cozinha.
-
O Mário? – Perguntou o irmão bocejando.
-
Está na sala na marmelada com a Matilde.
Abriram
os olhos de espanto entreolhando-se.
-
O homem não tem descanso. – A voz de Miguel soava com admiração
-
Chegou esta madrugada. – Inês levantou-se para ir lavar a taça.
-
Agora é que nunca mais lhe pomos a vista em cima
-
Espero bem que não, meu – Miguel riu-se dando-lhe uma cotovelada – não temos
café?
-
Já não. Faz mais – Inês mordiscava uma maçã.
-
Nesse caso bebo coca-cola – virou a caneca para baixo, inconformado.
-
És mesmo preguiçoso Miguel.
– Também não temos
pão?
-
Vocês comeram todo o que comprámos ontem e o padeiro não tem aparecido. Não
acham estranho?
-
Estranho mesmo é este cheiro. – Miguel levantou-se começando a subir as escadas
– Estou esfomeado. Vou ver se arranjo pão na estalagem se não tiverem vou até
ao parque de campismo.
-
Se esperares um pouco vou contigo. – Diogo levantou-se caminhando para a porta.
Inês
continuou sentada. O cheiro estava mesmo cada vez mais intenso e nauseabundo.
*
Deitada no chão húmido
entre caixotes vazios na cave da estalagem sabia que estava segura.
Sorriu sem abrir os
olhos.
Nas três últimas noites
desde que ali chegara tinha-se alimentado à vontade. Mas a comida começa a escassear.
Ouviu passos, desciam as
escadas caminhando na sua direção.
Passou a língua pelos
lábios humedecendo-os na expectativa de uma refeição ligeira antes do acordar.
Nunca se sentira tão insaciada em tantos séculos como agora.
A porta abriu-se e uma
luz fraca pendurada num fio do teto acendeu-se ferindo-lhe os olhos apesar de
ainda os manter fechados. Não precisava de o ver para saber onde se encontrava,
conseguia ouvir o bater do seu coração, o pulsar do seu sangue, atraindo-a.
Continuou deitada no meio dos caixotes. Queria que a encontrasse ali.
O jovem caminhava na
direção da sua própria morte sem se aperceber.
Largou a caixa de cartão
que transportava quando viu aquela jovem mulher deitada no chão frio.
Agachou-se perto do corpo olhando para a sua palidez, temendo o pior.
- Minha senhora, - falava
com a voz baixa - minha senhora.
Ria-se sem se fazer
ouvir. Não se cansava de ouvir a preocupação na voz deles quando a encontravam.
Dava-lhes outro sabor ao sangue, ficava mais espesso, mais saboroso.
O jovem pegou-lhe no
pulso, não o sentia, estava gelada.
Estava morta.
Levantava-se para ir
pedir ajuda quando uma forte mão o segurou pela nuca puxando-o de encontro à
boca já sequiosa daquele líquido quente que começava a fluir livremente. Ainda
se tentou debater, mas o espanto na sua cara espelhava o pânico que sentia
naquele momento. A vida abandonava-o.
Agora era só aguardar.
*
Miguel
e Diogo tinham levado as chaves do barco e as canas de pesca, Mário continuava entretido
com Matilde. Suspeitava que não iria ver nenhum deles até ao final do dia.
Saiu
da espreguiçadeira, não conseguia ali ficar muito mais tempo com aquele cheiro.
Olhou na direção da casa de Matilde, era estranho que ainda não tivesse visto
nenhuma das suas irmãs. Continuava com as portadas todas corridas.
Olhou
na direção do aeroporto, tirou os óculos, nuvens escuras ameaçavam tapar o sol.
Tinha uma luzinha de alerta a acender dentro do seu cérebro avisando-a de que
algo poderia correr muito mal se ficasse no escuro. Olhou para a ria, queria
que eles voltassem depressa. Começou a arrumar o pátio.
Vestiu
uma t-shirt comprida, estava a ficar com frio. Continuou a olhar para a ria, a
maré estava a baixar e nem sinal deles. As nuvens taparam o sol. Contornou a
casa e a sua atenção prendeu-se nas escadas de acesso à praia onde estava um
grupo parado olhando na sua direção.
Voltou
a sentir medo.
Entrou
a correr dentro de casa pela porta da frente.
Sabia que não tinha
imaginado nada daquilo.
Abriu
o frigorífico que estava às escuras, não tinham luz. O telefone fixo também não
funcionava e a rede móvel tinha falhas. Tinha que se manter ocupada.
O
sol voltara a aparecer levando com ele os sinistros vultos. Saiu a medo olhando
de relance para a rua, notou que os cães da casa em frente não ladravam. O seu
cérebro enviava-lhe mensagens de perigo que ignorou, avançando em passo
acelerado para a casa de Matilde, saltou o baixo muro de separação e entrou.
- Ana? Filipa? - Estava
muito escuro, não obteve resposta. Conhecia bem aquela casa, brincara ali
diversas vezes com elas. Voltou a insistir – É a Inês.
O mesmo silêncio.
Sentia-se
gelada. Empurrou a porta que dava acesso ao interior, carregou nos
interruptores à sua passagem e nada. Aparentemente a falta de luz era
generalizada.
Espreitou
para dentro da escuridão e voltou a chamar.
-
Estamos sem eletricidade e telefones queria saber se também estão com o mesmo
problema.
Uma
vez mais só silêncio.
Fazia lembrar um daqueles
filmes de terror que os primos e o irmão tanto gostavam de ver. Também ela já
vira demasiados para saber que não devia entrar num local às escuras,
principalmente se sentia que algo estava errado. E definitivamente alguma coisa
estava muito errada ali. Devia seguir o seu primeiro instinto e sair dali o
mais depressa que as suas pernas permitissem, mas a maldita curiosidade não a
deixava. Onde estariam as irmãs dela?
Voltou-se
para sair quando lhe pareceu vislumbrar pelo canto do olho algo a mexer-se
debaixo das escadas de acesso ao primeiro andar da casa.
Não
pensou duas vezes, voltou-se o mais depressa que conseguiu e preparava-se para
sair quando chocou contra um corpo que a agarrou com mãos fortes. Gritou.
-
Mana estás bem?
Diogo estava parado à sua
frente.
- Estás a tremer, o que
foi que te aconteceu?
Apesar
de sentir que podia desmaiar a qualquer momento ainda conseguiu arranjar forças
para falar.
-
Vamos sair daqui, vamos para casa, por favor.
-
Sabes que não há luz em toda a ilha?
-
Era sobre isso que vos queria falar. Onde está o Miguel?
-
Em casa.
-
Como soubeste que estava aqui?
-
Pareceu-me ouvir-te quando estávamos a subir os degraus.
-
Porque vieram tão tarde? Já está escuro.
-
Tem calma, estamos bem. Afinal o que estás aqui a fazer? – Olhava em volta
tentando perceber o que a atraíra ali.
-
Vinha ver as irmãs da Matilde.
-
E onde é que elas estão?
-
Não sei. – Inês já caminhava para a porta puxando o irmão – Vamos sair daqui
que esta casa começa a arrepiar-me.
-
Reparaste no cheiro? – Diogo cheirava o ar.
Já
não trocaram mais nenhuma palavra até entrarem em casa.
Inês trancou a porta
atrás deles. Se alguma coisa andava lá fora não conseguiria passar pelas portas
blindadas.
Miguel
mastigava uma sandes e o Mário ainda não tinha descido.
-
Hoje vi umas pessoas esquisitas na praia. Vocês viram alguma coisa? – Mexeu a
carne que deixara ao lume enquanto tentava acalmar o coração que ameaçava
saltar-lhe pela boca.
-
Não vimos ninguém. Estás a tremer? – Miguel parecia verdadeiramente preocupado.
-
Estou bem. Só me assustei um pouco, estava a escurecer e vocês ainda não tinham
voltado. Ficava melhor se fossem buscar uns candeeiros a óleo que a mãe gosta
de deixar espalhados pela casa.
Diogo fez-lhe a vontade.