segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

O Covil da Ria Formosa - IV Capítulo

Capítulo Quatro

   Tinham-se juntado no quarto de Mário. Matilde tentava insistentemente contactar com as irmãs para as avisar, mas estas continuavam incomunicáveis.
    Diogo entrou a correr, tinha ido espreitar se ainda ali se encontravam e reparara nuns faróis a atravessarem a ponte de acesso à ilha.
     - Vem aí alguém.
- O que queres dizer? - Inês levantou-se de um salto - Conseguiram entrar?
- Não mana, vem alguém a atravessar a ponte.
Matilde parecia perder cor a cada hora que passava.
- Vamos ter calma. Pelo que percebemos eles não conseguem entrar sem a nossa autorização.
O carro passava naquele momento à frente da casa continuando sem abrandar, um grupo de rapazes cantava desafinadamente tentando acompanhar a música sem saberem para onde se dirigiam. Ficou naquele momento provado que não iriam longe, no seu encalce corriam quase todas aquelas almas penadas.
- Matilde e Inês, não saiam daqui, já voltamos. – Mário fez sinal aos primos para que o seguissem.
- Não nos deixem, por favor, voltem. - Inês sentou-se na cama e Matilde juntou-se a ela. Abraçaram-se confortando-se naquela hora de terror.
- Matilde estás muito fria, queres um cobertor?
- Estou bem, só um pouco agoniada.
Não disseram mais nada.

Mário pegou na chave do carro entregando-a ao Diogo.
- O que queres que faça com isto?
- Vais entrar no meu carro e sair da ilha…
- Sozinho? E deixo-vos aqui? Deves estar louco.
- Não nos vais deixar para trás. Vais posicionar-te no cruzamento do aeroporto, evita que mais pessoas tentem entrar na ilha.
- E vocês?
- Enquanto estivermos dentro de casa estamos seguros. - Miguel esticou-lhe o telemóvel que colocou no bolso das calças.
- A porta do meu carro abre com a aproximação do comando pelo que só tens que correr lá para dentro, não olhes para trás nós vamos distrai-los do outro lado da casa. Boa sorte meu.
Abraçaram-se.
Diogo voltou-se.
- Ao menos sabem contra o que lutamos?
- Vampiros meu, vampiros.
Diogo e Mário olharam para ele, tudo indicava que assim fosse.
- Só mais um conselho, fecha bem as portas, não dês boleia e desconfia da tua própria sombra.
- Tomem conta da minha irmã.
- Sabes que sim. – Mário bateu-lhe ao de leve no ombro decidido a ganhar tempo ao primo para que este partisse em segurança.
Miguel teria que fechar a porta mal saísse.
Nesse momento na sala Mário abria a porta deparando-se com o mesmo cenário.
- Soube que queria entrar. - Dirigiu-se à criatura, tinha que a distrair
Continuava na mesma posição olhando-o.
- Mário.
- Desculpe, conhecemo-nos? – O simples facto de saber o seu nome e de o ter pronunciado gelara-o.
- Conheço-te.
Engoliu em seco. Aquela voz começava a mexer com ele. Tinha que a afastar da sua mente. Reparou que falava sem mexer os lábios.
Ouviu quando Diogo saiu da garagem a alta velocidade, antes que alguma daquelas criaturas tivesse tempo de reagir. Viu as luzes atravessarem a ponte. Conseguira.
Sorriu satisfeito.
Fechou-lhe a porta na cara, ouvindo um uivo de raiva.
Tinha a cabeça pesada. O efeito daquela voz deixara-o com uma terrível dor de cabeça. Fora difícil resistir-lhe.
Miguel trancava a porta quando uma explosão ecoou. 
Correram para a janela, não queriam acreditar no que os seus olhos viam, a ponte já não existia. Por ali não conseguiriam sair.
Intuitivamente olharam para os relógios. Faltavam horas para o nascer do dia. Ia ser uma longa noite.
Viram as luzes do carro que por ali passara minutos antes ziguezaguear até embater no muro do parque de campismo, souberam de imediato o que acontecera com os seus ocupantes.
- Preparem-se, temos que estar prontos para sair daqui assim que pudermos.
- Sair daqui? - Matilde gemeu – Mas aqui estamos seguros.
- Não sei se durante muito tempo, são muitos e sinto que provocar aquela doida lá em baixo, não jogou a nosso favor.
- Vamos para onde? Como? - Inês faria o que lhe dissessem apesar de ter muitas dúvidas.
- Os vampiros conseguem atravessar água? - Miguel olhava através da janela para os ocupantes do carro.
- Querem atravessar a nado, no escuro? - A Inês não lhe agradava a ideia. - Como pensam passar por eles?
- Eu consigo distrai-los.
- Já chega o meu irmão ter-se arriscado, não nos vamos separar novamente. Sozinhos ficamos vulneráveis. – Inês agarrou na mão de Miguel
- Já te esqueceste que sou campeão de corta mato? Dá-me um pouco de crédito prima.
- Só não te quero perder.
- Não vai acontecer.
- E se esperássemos pela madrugada? – Matilde estava cada vez mais franca.
- Não sei se temos esse tempo. - Mário olhava alternadamente para todos. - O Miguel só tem que levar atrás dele aqueles que se encontram na parte da frente da casa…
- E vai para onde? - Inês parecia confusa – A ponte não existe.
- Eu salto. – Miguel já fazia aquecimentos.
- Saltas? E nós?
- Seguimos pela Ria, contornamos a casa da Matilde e avançamos até alcançarmos a água. Temos que ser rápidos e silenciosos.
- Está maré baixa vamos ter que correr pelo lodo.
- Conseguimos. – Mário piscou-lhe o olho.
- Prontos? – Miguel já abria a porta.
- Não! - Inês agarrou-o no braço
- Garanto-te que nenhuma daquelas anormais sanguessugas me conseguirá apanhar - Sorriu-lhe.
- Vemo-nos mais tarde. – Mário fez-lhe sinal – Quando quiseres.
Naquele momento não havia tempo para mais despedidas.
Abriu a porta e começou a correr saltando o muro, vários vultos corriam no seu encalço. Inês manteve os olhos fixos nele até o deixar de ver, nesse momento rezou para que todos sobrevivessem àquela tormenta.
O caminho estava livre.
Mário certificou-se fazendo-lhes sinal para que saíssem junto a ele, fechou a porta à chave colocando-a no bolso das calças. Mantinham-se alerta.
Avançaram pelo lodo a custo. 
- Quando chegarmos perto da água preparem-se para nadar até ao barco.
 Matilde parou.
- Não podes parar. – Inês gritou-lhe quando viu que aquelas criaturas estavam quase a alcançá-los. Mário segurou-lhe na mão puxando-a com ele, mergulhando.
Perante o seu olhar horrificado Matilde entrava em combustão em contacto com a água salgada.
- Mário! Nada!.
A verdade é que não podia fazer nada. Quando é que fora transformada? Como conseguira entrar na casa deles? Lembrou-se que no dia em que chegara lhe tinha perguntado se não a convidava a entrar. E ele fizera-o.
Começou a nadar ao lado da prima, subiram para o barco com a ajuda de Miguel que também se lançara à água para escapar a quem o perseguia. Repararam num carro que se aproximava no caminho de acesso à ilha. Diogo vira a explosão. Saiu do carro mergulhando na direção deles. O único local seguro naquela noite era no meio da Ria Formosa.
Viram as irmãs de Matilde.

Os vultos seguiam pela praia até à Quinta do Lago. A longa noite começava…

domingo, 5 de fevereiro de 2017

O Covil da Ria Formosa - III Capítulo

Capítulo Três

            A cozinha e a sala estavam iluminadas pelos candeeiros.
            Conseguiam sentir o nervosismo uns dos outros. Sabiam que algo estava errado.
            Matilde jantou com eles.
Achava-a muito pálida. Podia ser do medo.
            - Onde estão as tuas irmãs Matilde? - Inês não resistiu perguntar.
            - Foram passear para Faro hoje à tarde, há uma feira de artesanato, devem jantar por lá.
            Miguel comia as últimas batatas fritas antes que Diogo as visse.
            - A Matilde dorme cá esta noite! - Mário olhou para a prima.
            - Parece-me bem. – Não queria que ele fosse para casa dela, não conseguia deixar de pensar na sensação estranha que sentira naquela casa. - Vai ser agradável ter a tua companhia aqui esta noite.
            - Obrigada Inês. – Sorriu-lhe.
Não parecia ter muita fome, brincava com a comida no prato. Levantou-se.
            - Eu já vos venho ajudar a lavar a loiça, vou só num instante a casa buscar algumas roupas.
            - Não! - Inês nem se tinha apercebido que gritara
            - Não? - Matilde parou perplexa a olhá-la.
            - Por favor não vás eu empresto-te umas roupas minhas.
            - Mana não estás a dizer coisa com coisa. - Sentou-se novamente perto dela tocando-lhe na mão percebeu que tremia, estava gelada. - Afinal o que é que se passa contigo?
            - Inês estás bem? - Mário já se levantava - O que é que te aconteceu esta tarde? Nunca te vi assim.
            Levantou os olhos encarando-os, o que podia(m) ver neles não era dor era desespero.
            - Tenho medo.
            - Medo? De quê?
            - Se vos contar vão pensar que estou maluca.
            - Não! Isso nós já sabemos – Miguel sorriu-lhe enquanto falava - mas se não nos contares vamos pensar algo muito pior. - Terminara as batatas fritas.
            - Começa do princípio. Temos a noite toda. – Mário puxou a cadeira para perto dela.
            Respirou fundo, nunca fora cobarde. Podiam pensar o que quisessem, crescera com eles, conheciam-na o suficiente para saber que existiam motivos para agir assim.
            - Vocês não notaram nada estranho nos últimos dias?
            - Quando dizes estranho estás a referir-te a quê? - Miguel enchia o copo com uma cerveja morna.
            - A tudo. Olhem à vossa volta. Em todos estes anos que para aqui vimos, alguma vez se lembram de ver a ilha tão deserta com este tempo fantástico? O cheiro nauseabundo que está permanentemente no ar. Não acham estranho o padeiro não aparecer nem enviar alguém que o substitua? Algumas das pessoas vivem aqui o ano inteiro e aparentemente só nós é que cá estamos. Onde estão todos?
            O silêncio tornou-se pesado.
            Já todos tinham pensado o mesmo.
            Mário conseguia reconhecer o cheiro.
            - Tens razão. Algo muito estranho se passa.
            Miguel falou finalmente.
            - Talvez gostassem de saber da nossa tentativa de comprar pão esta manhã na estalagem. Quando entrámos só lá estava aquele empregado que a prima acha giro.
            Inês fulminou-o com o olhar.
            - Confirmou-nos que não têm recebido pão, nem fruta, nem queijos, enfim parece que todos os distribuidores estão de greve.
            - Mas o que é que isso tem de estranho?
            - O facto de não estar ninguém na estalagem àquela hora apesar de o buffet do pequeno-almoço estar preparado. Segundo o empregado a estalagem está cheia.
            Ninguém falava, parecia que estavam a viver um filme de John Carpenter.
            - Mas o estranho foi quando o empregado se ausentou, – Diogo recomeçou onde Miguel ficara – e já não voltou a aparecer. Ficámos completamente sozinhos, acabámos por vir embora, sem o pão.
            - Vocês sabem como gosto de ir correr pela praia. – Mário tomou a palavra - Hoje a seguir ao almoço fui até à barra e a verdade é que não vi ninguém em todo o areal. Nem sequer os cães dos pescadores, ou até mesmo os gatos que costumam estar pendurados nas varandas das casas. Regressei pela ria e é a mesma desolação, até o parque de campismo parece deserto. Malta, estamos em pleno fim de semana, onde estão todos?
            - A ilha está amaldiçoada. – Miguel engoliu o resto da cerveja
            - Mas estás louco? – Inês parecia relutante
            - Então como justificas este silêncio?
            - Algum de vocês reparou que ao final da tarde na praia está sempre um grupo parado a olhar nesta direção? – Diogo abria outro pacote de batatas mantendo-as afastadas de Miguel.
            - Então também os viste? - Inês suspirou fundo, afinal não estava doida.
            - Começam a assustar-me. - Matilde chegou-se mais para perto de Mário que a abraçou.
            - Eu acho que temos razões para ficar assustados, - Inês continuou – não devemos sair durante a noite.
            - Depois de tudo o que foi dito podes ficar descansada que não vamos a lado nenhum mana.
            - E as minhas irmãs? - Matilde olhava para eles à espera de uma solução. - Tenho que as avisar de que algo errado se passa. O que lhes digo?
            Olharam todos entre si. Afinal o que é que temiam?
            - Não sei o que está lá fora - Mário falou segurando-lhe a mão entre as suas - mas temos que evitar que entre nesta casa. Acho que lhes deves ligar para os telemóveis a avisá-las para não voltarem para casa esta noite.
            Levantaram-se ao mesmo tempo, iam confirmar que estava tudo trancado. Miguel caminhou para a porta da sala que dava acesso ao pátio das traseiras, lembrava-se de a ter deixado aberta, preparava-se para a fechar quando se deparou com uma mulher prostrada à sua frente olhando-o com uns olhos sem luz.
            - Posso ajudá-la?
            - Convida-me a entrar. - Falou com uma voz que o atraia para si.
            Antes mesmo que Miguel pudesse responder Inês tinha-se aproximado do primo tapando-lhe a boca respondendo em vez dele.
            - Quem é a senhora?
            Os olhos dela transformaram-se em duas bolas vermelhas de ódio enquanto a encaravam.
            - Convida-me a entrar.
            - Mas se nem a conheço.
            - Cabra. Deixa-me entrar! - Gritou tirando Miguel do torpor em que se encontrava.
            O pátio começou a encher-se, reconhecia quase todos. Eram os vizinhos desaparecidos. Pareciam em transe, olhando-os com olhares sequiosos.
            - Sabes com quem te estás a meter?
            - Não quero saber. Aqui não entra.
            Empurrou a porta fechando-lha na cara.
            Conseguiam ouvi-los do lado de fora. Estavam cercados dentro da própria casa.
            - Quem era aquela mulher? Viste os olhos deles?
            - Vi prima. Os nossos vizinhos pareciam almas penadas.
            - Também lá estava o padeiro.
            - E o rapaz da estalagem.
            - O que são aquelas coisas?
            - Tenho as minhas suspeitas.
            - A porta está bem fechada?

            - Por aqui garanto-te que ninguém entra.

sábado, 4 de fevereiro de 2017

O Covil da Ria Formosa - II Capítulo

Capítulo Dois
     Os raios de sol penetravam através da janela do quarto. Mesmo fechada permitia a passagem daquele cheiro que parecia ter ganho novas proporções.
      Desceu dirigindo-se à cozinha onde preparou um bule de café. Encheu uma chávena e foi abrir a porta de acesso ao pátio virado para a ria no preciso momento em que Matilde se preparava para bater.
          - Olá Mário!
          - Matilde? Quando chegaste?
          - Ontem à noite. Tiveste saudades minhas?
            Ali prostrada à sua frente estava a miúda com quem namorava todos os anos nas férias.
            Como não respondesse. Matilde avançou para ele abraçando-o e beijando-o. Evitando passar o limiar da porta. – Não me convidas a entrar?
            - Tenho sempre saudades tuas, anda cá. Entra. – Apertou-a, beijando-a.
            - Olha porque é que nunca me procuras em Lisboa?
            Beijava-lhe o pescoço enquanto lhe respondia a custo – Porque ando sempre de um lado para o outro, sabes que o meu curso não me permite ter muito tempo livre.
            - Pois, – fez beicinho – preferes passar o teu tempo com cadáveres.
           
Diogo e Miguel desciam as escadas, Inês já comia uma taça de cereais sentada na cozinha.
            - O Mário? – Perguntou o irmão bocejando.
            - Está na sala na marmelada com a Matilde.
            Abriram os olhos de espanto entreolhando-se.
            - O homem não tem descanso. – A voz de Miguel soava com admiração
            - Chegou esta madrugada. – Inês levantou-se para ir lavar a taça.
            - Agora é que nunca mais lhe pomos a vista em cima
            - Espero bem que não, meu – Miguel riu-se dando-lhe uma cotovelada – não temos café?
            - Já não. Faz mais – Inês mordiscava uma maçã.
            - Nesse caso bebo coca-cola – virou a caneca para baixo, inconformado.
            - És mesmo preguiçoso Miguel.
– Também não temos pão? 
            - Vocês comeram todo o que comprámos ontem e o padeiro não tem aparecido. Não acham estranho?
            - Estranho mesmo é este cheiro. – Miguel levantou-se começando a subir as escadas – Estou esfomeado. Vou ver se arranjo pão na estalagem se não tiverem vou até ao parque de campismo.
            - Se esperares um pouco vou contigo. – Diogo levantou-se caminhando para a porta.
            Inês continuou sentada. O cheiro estava mesmo cada vez mais intenso e nauseabundo.
*
Deitada no chão húmido entre caixotes vazios na cave da estalagem sabia que estava segura.
Sorriu sem abrir os olhos.
Nas três últimas noites desde que ali chegara tinha-se alimentado à vontade.  Mas a comida começa a escassear.
Ouviu passos, desciam as escadas caminhando na sua direção.
Passou a língua pelos lábios humedecendo-os na expectativa de uma refeição ligeira antes do acordar. Nunca se sentira tão insaciada em tantos séculos como agora.
A porta abriu-se e uma luz fraca pendurada num fio do teto acendeu-se ferindo-lhe os olhos apesar de ainda os manter fechados. Não precisava de o ver para saber onde se encontrava, conseguia ouvir o bater do seu coração, o pulsar do seu sangue, atraindo-a. Continuou deitada no meio dos caixotes. Queria que a encontrasse ali.
O jovem caminhava na direção da sua própria morte sem se aperceber.
Largou a caixa de cartão que transportava quando viu aquela jovem mulher deitada no chão frio. Agachou-se perto do corpo olhando para a sua palidez, temendo o pior.
- Minha senhora, - falava com a voz baixa - minha senhora.
Ria-se sem se fazer ouvir. Não se cansava de ouvir a preocupação na voz deles quando a encontravam. Dava-lhes outro sabor ao sangue, ficava mais espesso, mais saboroso.
O jovem pegou-lhe no pulso, não o sentia, estava gelada.
Estava morta.
Levantava-se para ir pedir ajuda quando uma forte mão o segurou pela nuca puxando-o de encontro à boca já sequiosa daquele líquido quente que começava a fluir livremente. Ainda se tentou debater, mas o espanto na sua cara espelhava o pânico que sentia naquele momento. A vida abandonava-o.
Agora era só aguardar.
*
            Miguel e Diogo tinham levado as chaves do barco e as canas de pesca, Mário continuava entretido com Matilde. Suspeitava que não iria ver nenhum deles até ao final do dia.
            Saiu da espreguiçadeira, não conseguia ali ficar muito mais tempo com aquele cheiro. Olhou na direção da casa de Matilde, era estranho que ainda não tivesse visto nenhuma das suas irmãs. Continuava com as portadas todas corridas.
            Olhou na direção do aeroporto, tirou os óculos, nuvens escuras ameaçavam tapar o sol. Tinha uma luzinha de alerta a acender dentro do seu cérebro avisando-a de que algo poderia correr muito mal se ficasse no escuro. Olhou para a ria, queria que eles voltassem depressa. Começou a arrumar o pátio.
            Vestiu uma t-shirt comprida, estava a ficar com frio. Continuou a olhar para a ria, a maré estava a baixar e nem sinal deles. As nuvens taparam o sol. Contornou a casa e a sua atenção prendeu-se nas escadas de acesso à praia onde estava um grupo parado olhando na sua direção.
            Voltou a sentir medo.
            Entrou a correr dentro de casa pela porta da frente.
Sabia que não tinha imaginado nada daquilo.
            Abriu o frigorífico que estava às escuras, não tinham luz. O telefone fixo também não funcionava e a rede móvel tinha falhas. Tinha que se manter ocupada.
            O sol voltara a aparecer levando com ele os sinistros vultos. Saiu a medo olhando de relance para a rua, notou que os cães da casa em frente não ladravam. O seu cérebro enviava-lhe mensagens de perigo que ignorou, avançando em passo acelerado para a casa de Matilde, saltou o baixo muro de separação e entrou.
- Ana? Filipa? - Estava muito escuro, não obteve resposta. Conhecia bem aquela casa, brincara ali diversas vezes com elas. Voltou a insistir – É a Inês.
O mesmo silêncio.
            Sentia-se gelada. Empurrou a porta que dava acesso ao interior, carregou nos interruptores à sua passagem e nada. Aparentemente a falta de luz era generalizada.
            Espreitou para dentro da escuridão e voltou a chamar.
            - Estamos sem eletricidade e telefones queria saber se também estão com o mesmo problema.
            Uma vez mais só silêncio.
Fazia lembrar um daqueles filmes de terror que os primos e o irmão tanto gostavam de ver. Também ela já vira demasiados para saber que não devia entrar num local às escuras, principalmente se sentia que algo estava errado. E definitivamente alguma coisa estava muito errada ali. Devia seguir o seu primeiro instinto e sair dali o mais depressa que as suas pernas permitissem, mas a maldita curiosidade não a deixava. Onde estariam as irmãs dela?
            Voltou-se para sair quando lhe pareceu vislumbrar pelo canto do olho algo a mexer-se debaixo das escadas de acesso ao primeiro andar da casa.
            Não pensou duas vezes, voltou-se o mais depressa que conseguiu e preparava-se para sair quando chocou contra um corpo que a agarrou com mãos fortes. Gritou.
            - Mana estás bem?
Diogo estava parado à sua frente.
- Estás a tremer, o que foi que te aconteceu?
            Apesar de sentir que podia desmaiar a qualquer momento ainda conseguiu arranjar forças para falar.
            - Vamos sair daqui, vamos para casa, por favor.
            - Sabes que não há luz em toda a ilha?
            - Era sobre isso que vos queria falar. Onde está o Miguel?
            - Em casa.
            - Como soubeste que estava aqui?
            - Pareceu-me ouvir-te quando estávamos a subir os degraus.
            - Porque vieram tão tarde? Já está escuro.
            - Tem calma, estamos bem. Afinal o que estás aqui a fazer? – Olhava em volta tentando perceber o que a atraíra ali.
            - Vinha ver as irmãs da Matilde.
            - E onde é que elas estão?
            - Não sei. – Inês já caminhava para a porta puxando o irmão – Vamos sair daqui que esta casa começa a arrepiar-me.
            - Reparaste no cheiro? – Diogo cheirava o ar.
            Já não trocaram mais nenhuma palavra até entrarem em casa.
Inês trancou a porta atrás deles. Se alguma coisa andava lá fora não conseguiria passar pelas portas blindadas.
            Miguel mastigava uma sandes e o Mário ainda não tinha descido.
            - Hoje vi umas pessoas esquisitas na praia. Vocês viram alguma coisa? – Mexeu a carne que deixara ao lume enquanto tentava acalmar o coração que ameaçava saltar-lhe pela boca.
            - Não vimos ninguém. Estás a tremer? – Miguel parecia verdadeiramente preocupado.
            - Estou bem. Só me assustei um pouco, estava a escurecer e vocês ainda não tinham voltado. Ficava melhor se fossem buscar uns candeeiros a óleo que a mãe gosta de deixar espalhados pela casa.
Diogo fez-lhe a vontade.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

O Covil da Ria Formosa - I Capítulo






O sol ainda aquecia naquele final de setembro.
Estirados nas toalhas alheios a tudo, mas felizes por estarem juntos. Os corpos imóveis absorviam o último calor que os raios de sol lhes ofereciam, embalados pelo arrolar das ondas na rebentação. Estavam novamente na sua casa da ilha de Faro.
Situada na avenida nascente a velha casa era uma das mais antigas, dois lotes antes do parque de campismo. Tinha dois portões sendo um deles para os automóveis. Um enorme pátio de pedra voltado para a ria formosa dava-lhes a privacidade que tanto apreciavam durante os meses mais agitados do verão. Era de dois andares, dois quartos, uma sala, casa de banho, cozinha e despensa no piso térreo e quatro quartos, casa de banho e duas varandas no piso superior. A garagem situada no lado esquerdo da casa era o local onde arrumavam as bicicletas e todo o material do barco e da praia, bem como o grelhador que tinham adquirido no início desse verão. Ainda tinham espaço para estacionar dois carros.
Adoravam aquele local onde o tempo parecia parar.
No final do verão, tirando alguns veraneantes tardios quase todos do norte da europa, só os pescadores e os que ali tinham residência fixa, maioritariamente no parque de campismo, a ilha ficava praticamente deserta. Na única estrada que atravessava a ilha, apenas a sua e mais duas casas e a estalagem à entrada da ilha mantinham luzes, porém era nos seus extremos, espalhados pelo areal que viviam as famílias dos pescadores.
Os primos começavam a mexer-se a seu lado, podia jurar que os ouvira ressonar momentos antes. Inês já se levantava sacudindo a areia da toalha.
- Querem ir dar um último mergulho? – Perguntou.
- Está a levantar-se vento. - Olhou para a prima, gostava dela como de uma irmã, tinham crescido juntos, a diferença de idades entre eles não chegava a um ano.
- Meus, já viram que hoje as pessoas debandaram da praia mais cedo? – Diogo apoiando-se nos cotovelos abria os olhos pela primeira vez apesar de ter ouvido a conversa da irmã com o primo. Deu um encontrão a Miguel que continuava sem dar acordo de si. – Vê lá se acordas, já chega, meu.
Miguel bocejou mantendo-se imóvel, não tinha forças para lhe responder, de tão descontraído que estava.
Inês olhava em volta, o irmão tinha razão a praia estava praticamente deserta. Àquela hora a praia estava sempre cheia de turistas.
- Se calhar foram almoçar. Devíamos fazer o mesmo. Estou esfomeada.
- Cheira mal, foste tu Diogo? – Miguel levantou-se de repente pegando na toalha tapando o nariz, afastando-se. – Meu, tens que aprender a controlar-te já não tens treze anos. Que fedor. – Apertava o nariz com uma mão enquanto se abanava com a outra.
- Ó meu grandessíssimo anormal. Eu não fiz nada. – Levantou-se também cheirando o ar à sua volta. – Mas cheira realmente mal.
Com as rajadas de vento o cheiro ameaçava tornar-se insuportável.
- Como não recolhem o lixo há pelo menos três dias deve ser disso. Ouviram falar em alguma greve? – Inês deixou cair a toalha – Olhem, se querem dar um mergulho tem que ser agora enquanto ainda tenho coragem.
- Ui, tens medo que um tubarão te dê uma dentadinha mana? Podes ficar descansada que deve ter mais por onde escolher.
Olhou para o irmão não se dignando responder-lhe.
Mário caminhou para perto da prima abraçando-a. Não queria assustar os primos com ideias parvas, mas aquele cheiro assemelhava-se a cheiro de cadáveres e ele já o andava a sentir há pelo menos aos mesmos dias que Inês dissera não haver recolha de lixo.
Naquela manhã tinha percorrido a praia toda até ao final da Ilha para ambos os lados, pensara que poderia ser de um cadáver de cachalote ou de golfinho, mas não descobrira nada. Também reparara que ao longo da ilha o lixo não era recolhido e que os contentores transbordavam.
- Eu vou contigo Inês. – Caminharam na direção da água seguidos pelos outros que não querendo dar parte fraca já os ultrapassavam mergulhando.
Com as toalhas sobre os ombros atravessaram o curto parque de estacionamento, entrando no portão de acesso a casa.
- E se fossemos almoçar à estalagem? – Sugeriu Miguel.
- Eu pessoalmente preferia ir almoçar ao fórum algarve. – Sugeriu Mário – Temos que comprar gasolina para o barco e já começamos a ter falta de alguma mercearia. Fazíamos tudo de uma só vez.
- Parece-me bem. – Inês subia as escadas para o quarto – Vou tomar um banho rápido e vestir qualquer coisa. Despachem-se.
- Tenho mesmo que ir? – Diogo mostrava má cara – Não me apetece nada.
- Tens, se quiseres comer nos próximos dias. – Mário virou-lhe as costas ignorando as caretas.
O cheiro estava mais forte.
O sinal para atravessar a ponte estava fechado apesar de não existir nenhum carro para entrar na ilha.
- Passa. Não esperes mais – Miguel estava impaciente com fome. – Nem a polícia aqui está hoje. Vai.
- Tem calma. Lá por não os vermos não quer dizer que não estejam aqui.
- Olha lá bem para a cabine do posto. Está tudo fechado.
- Para a próxima Miguel vê lá se comes qualquer coisa antes de saíres de casa, com fome ficas impaciente de mais para meu gosto.
O sinal mudou permitindo que finalmente passassem, eram os únicos a sair da ilha àquela hora.
*
No regresso repararam que a maior parte da ilha estava às escuras. Desta vez desobedeceu à sinalização.
Até a estalagem parecia deserta.
 - Tive um mau pressentimento. – Inês estremeceu.
Mário não disse nada, mas tinha sentido o mesmo. Ninguém falou. Miguel mantinha-se calado perscrutando a noite. Viu vultos que os pareciam observar da escadaria da praia, mas não disse nada.
- Estão ali na marmelada. Mais descansada? – Diogo apontava para um casal que se apertava de encontro a uma sebe, ninguém respondeu.
Se tivessem prestado atenção àqueles dois tinham percebido que a rapariga que não devia ser muito mais velha do que eles, gemia. Não de prazer, mas da dor que a trespassava e lhe retirava as últimas forças que ainda a mantinham presa à vida. Pedia ajuda, mas a voz já não lhe saia, estava somente na sua cabeça.
Miguel guardou o bidão de gasolina para o barco na garagem, fechara a porta atrás de si e guardara a chave no chaveiro da sala.
Naquela noite algo os manteve dentro de casa. Pela primeira vez trancaram as portas. Levantara-se um vento frio.
Jantaram as pizzas que tinham comprado nessa tarde.
Não estavam sozinhos, lá fora as sombras moviam-se ignorando o vento. De olhos vazios procuravam por algo que cada vez parecia mais difícil de encontrar.
Ao longe ouviam-se gritos, mas como era sexta-feira queriam acreditar que eram jovens que vinham até à ilha à procura de diversão. Contudo, naquela noite os poucos carros que passavam a ponte e entravam na ilha já não a voltariam a atravessar quando o dia voltasse a nascer.
*
Parada no exterior, cheirou o ar lambendo os lábios com satisfação. Um carro entrou no acesso à casa do lado, estacionando debaixo do telheiro. Ali estava uma doce surpresa agora que julgava estar a ficar sem reservas chegava sangue novo. Escondeu-se mais na proteção que o escuro lhe conferia. Queria ver sem ser vista.
Três jovens raparigas saíam de dentro do carro a rir sem saberem que as observava, sem saberem o que o destino lhes reservava. Conseguia ouvir o seu sangue palpitar, sorriu perante a expectativa do que lhes faria.
            Inês olhava através das portadas da sala que davam para a casa do lado, tinha ouvido o carro chegar. Nos últimos dias, durante a noite, podia jurar que ouvia o que pareciam ser unhas a arranhar nas paredes, sentia-se observada. Durante o dia não receava, mas quando a noite chegava e com ela a escuridão, sentia um medo irracional que lhe deixava todos os sentidos alerta. As pessoas pareciam estar a desaparecer e aparentemente ninguém sentia a sua falta.

            Deixara os primos e o irmão a jogar e fora certificar-se que estava tudo fechado. Voltou para a cozinha onde preparou um chá para se acalmar.

A CASA

“Esta é uma obra de ficção, qualquer semelhança com nomes, pessoas, factos ou situações da vida real terá sido mera  coincidência” ...