Capítulo
Quatro
Tinham-se
juntado no quarto de Mário. Matilde tentava insistentemente contactar com as
irmãs para as avisar, mas estas continuavam incomunicáveis.
Diogo
entrou a correr, tinha ido espreitar se ainda ali se encontravam e reparara
nuns faróis a atravessarem a ponte de acesso à ilha.
- Vem aí alguém.
- O que queres dizer? -
Inês levantou-se de um salto - Conseguiram entrar?
- Não mana, vem alguém a
atravessar a ponte.
Matilde parecia perder
cor a cada hora que passava.
- Vamos ter calma. Pelo
que percebemos eles não conseguem entrar sem a nossa autorização.
O carro passava naquele
momento à frente da casa continuando sem abrandar, um grupo de rapazes cantava
desafinadamente tentando acompanhar a música sem saberem para onde se dirigiam.
Ficou naquele momento provado que não iriam longe, no seu encalce corriam quase
todas aquelas almas penadas.
- Matilde e Inês, não
saiam daqui, já voltamos. – Mário fez sinal aos primos para que o seguissem.
- Não nos deixem, por
favor, voltem. - Inês sentou-se na cama e Matilde juntou-se a ela. Abraçaram-se
confortando-se naquela hora de terror.
- Matilde estás muito
fria, queres um cobertor?
- Estou bem, só um pouco
agoniada.
Não disseram mais nada.
Mário pegou na chave do
carro entregando-a ao Diogo.
- O que queres que faça
com isto?
- Vais entrar no meu
carro e sair da ilha…
- Sozinho? E deixo-vos
aqui? Deves estar louco.
- Não nos vais deixar
para trás. Vais posicionar-te no cruzamento do aeroporto, evita que mais
pessoas tentem entrar na ilha.
- E vocês?
- Enquanto estivermos
dentro de casa estamos seguros. - Miguel esticou-lhe o telemóvel que colocou no
bolso das calças.
- A porta do meu carro
abre com a aproximação do comando pelo que só tens que correr lá para dentro,
não olhes para trás nós vamos distrai-los do outro lado da casa. Boa sorte meu.
Abraçaram-se.
Diogo voltou-se.
- Ao menos sabem contra o
que lutamos?
- Vampiros meu, vampiros.
Diogo e Mário olharam
para ele, tudo indicava que assim fosse.
- Só mais um conselho,
fecha bem as portas, não dês boleia e desconfia da tua própria sombra.
- Tomem conta da minha
irmã.
- Sabes que sim. – Mário
bateu-lhe ao de leve no ombro decidido a ganhar tempo ao primo para que este
partisse em segurança.
Miguel teria que fechar a
porta mal saísse.
Nesse momento na sala
Mário abria a porta deparando-se com o mesmo cenário.
- Soube que queria
entrar. - Dirigiu-se à criatura, tinha que a distrair
Continuava na mesma
posição olhando-o.
- Mário.
- Desculpe,
conhecemo-nos? – O simples facto de saber o seu nome e de o ter pronunciado
gelara-o.
- Conheço-te.
Engoliu em seco. Aquela
voz começava a mexer com ele. Tinha que a afastar da sua mente. Reparou que
falava sem mexer os lábios.
Ouviu quando Diogo saiu
da garagem a alta velocidade, antes que alguma daquelas criaturas tivesse tempo
de reagir. Viu as luzes atravessarem a ponte. Conseguira.
Sorriu satisfeito.
Fechou-lhe a porta na
cara, ouvindo um uivo de raiva.
Tinha a cabeça pesada. O
efeito daquela voz deixara-o com uma terrível dor de cabeça. Fora difícil
resistir-lhe.
Miguel trancava a porta
quando uma explosão ecoou.
Correram para a janela,
não queriam acreditar no que os seus olhos viam, a ponte já não existia. Por
ali não conseguiriam sair.
Intuitivamente olharam
para os relógios. Faltavam horas para o nascer do dia. Ia ser uma longa noite.
Viram as luzes do carro
que por ali passara minutos antes ziguezaguear até embater no muro do parque de
campismo, souberam de imediato o que acontecera com os seus ocupantes.
- Preparem-se, temos que
estar prontos para sair daqui assim que pudermos.
- Sair daqui? - Matilde
gemeu – Mas aqui estamos seguros.
- Não sei se durante
muito tempo, são muitos e sinto que provocar aquela doida lá em baixo, não
jogou a nosso favor.
- Vamos para onde? Como?
- Inês faria o que lhe dissessem apesar de ter muitas dúvidas.
- Os vampiros conseguem
atravessar água? - Miguel olhava através da janela para os ocupantes do carro.
- Querem atravessar a
nado, no escuro? - A Inês não lhe agradava a ideia. - Como pensam passar por
eles?
- Eu consigo distrai-los.
- Já chega o meu irmão
ter-se arriscado, não nos vamos separar novamente. Sozinhos ficamos
vulneráveis. – Inês agarrou na mão de Miguel
- Já te esqueceste que
sou campeão de corta mato? Dá-me um pouco de crédito prima.
- Só não te quero perder.
- Não vai acontecer.
- E se esperássemos pela
madrugada? – Matilde estava cada vez mais franca.
- Não sei se temos esse
tempo. - Mário olhava alternadamente para todos. - O Miguel só tem que levar
atrás dele aqueles que se encontram na parte da frente da casa…
- E vai para onde? - Inês
parecia confusa – A ponte não existe.
- Eu salto. – Miguel já
fazia aquecimentos.
- Saltas? E nós?
- Seguimos pela Ria,
contornamos a casa da Matilde e avançamos até alcançarmos a água. Temos que ser
rápidos e silenciosos.
- Está maré baixa vamos
ter que correr pelo lodo.
- Conseguimos. – Mário
piscou-lhe o olho.
- Prontos? – Miguel já
abria a porta.
- Não! - Inês agarrou-o
no braço
- Garanto-te que nenhuma
daquelas anormais sanguessugas me conseguirá apanhar - Sorriu-lhe.
- Vemo-nos mais tarde. –
Mário fez-lhe sinal – Quando quiseres.
Naquele momento não havia
tempo para mais despedidas.
Abriu a porta e começou a
correr saltando o muro, vários vultos corriam no seu encalço. Inês manteve os
olhos fixos nele até o deixar de ver, nesse momento rezou para que todos
sobrevivessem àquela tormenta.
O caminho estava livre.
Mário certificou-se
fazendo-lhes sinal para que saíssem junto a ele, fechou a porta à chave
colocando-a no bolso das calças. Mantinham-se alerta.
Avançaram pelo lodo a
custo.
- Quando chegarmos perto
da água preparem-se para nadar até ao barco.
Matilde parou.
- Não podes parar. – Inês
gritou-lhe quando viu que aquelas criaturas estavam quase a alcançá-los. Mário
segurou-lhe na mão puxando-a com ele, mergulhando.
Perante o seu olhar
horrificado Matilde entrava em combustão em contacto com a água salgada.
- Mário! Nada!.
A verdade é que não podia
fazer nada. Quando é que fora transformada? Como conseguira entrar na casa
deles? Lembrou-se que no dia em que chegara lhe tinha perguntado se não a
convidava a entrar. E ele fizera-o.
Começou a nadar ao lado
da prima, subiram para o barco com a ajuda de Miguel que também se lançara à
água para escapar a quem o perseguia. Repararam num carro que se aproximava no
caminho de acesso à ilha. Diogo vira a explosão. Saiu do carro mergulhando na
direção deles. O único local seguro naquela noite era no meio da Ria Formosa.
Viram as irmãs de
Matilde.
Os vultos seguiam pela
praia até à Quinta do Lago. A longa noite começava…



