domingo, 4 de junho de 2017

ESTÓRIAS COM AS ESCOLAS - SÃO MARTINHO DO PORTO 6D

Em Outubro do ano passado combinei escrever contos de Halloween com alunos da escola de S. Martinho do Porto. Hoje, publico aqui mais uma sempre fascinada pela forma fantástica como com a ajuda da sua professora resolveram acabar o conto. O meu agradecimento a todos. Adorei!

DENTRO DO ESCURO

- Bom dia a todos. Como estamos a poucos dias do Halloween, pensei que podíamos aproveitar a aula de hoje para falar um pouco sobre o que é e como se celebra. Alguém tem alguma ideia?
- Contamos histórias de terror!
- Vimos filmes de terror!
- Fantasmas!
- Fadas!
- Vampiros!
- Bruxas más!
- Criaturas lendárias!
A professora levantou a mão para que se fizesse silêncio. Não foi fácil acabar com o burburinho que se gerara naquele momento.
- Meninos então! Não se esqueçam que estão a decorrer aulas nas salas aqui ao lado.
Assim que se fez silêncio, pode continuar.
- Muito bem esta celebração tem um pouco de isso tudo mas é muito mais. E eu tenho andado a pensar nos últimos dias como poderemos tornar esse dia real. Por isso gostaria de vos desafiar a fazer uma pequena atividade.
- Vamos ter que fazer uma redação? – a voz soava desanimada
Sorriu-lhes
- Não. Mas vão ter que contar aqui na sala de aula tudo o que sentiram.
Olhavam uns para os outros muito curiosos.
- Antes que me perguntem o que vamos fazer agradecia que se levantassem calmamente sem arrastar as cadeiras e que me seguissem.
- Onde é que vamos professora?
- É uma surpresa.
Saíram da sala de aula e caminharam através dos corredores. Não sabiam para onde iam nem queriam saber.
- Chegámos!
A professora parou de repente em frente de uma porta fechada.
- É aqui que quero fazer a experiência.
- Mas aqui não é a sala onde arrumam as vassouras?
- E o papel higiénico?
- Que porcaria.
- Deve estar cheio de aranhas.
- E ratos.
Já ninguém parecia muito entusiasmado com aquela aula.
- Então meninos. Garanto-vos que não há nem ratos, nem aranhas, nem nada esquisito.
Pelas caras não pareciam muito convencidos
- O que é que esta sala tem a ver com o Halloween?
- Tudo! Vou pedir-vos que entrem, se sentem no chão e fechem os olhos. Vão passar aí dentro esta próxima hora de aulas.
- Estamos a ser castigados?
- Castigados? Claro que não. Como vos disse é uma experiência. Vão ver que a melhor maneira de sentirem o verdadeiro espirito de Halloween será no escuro com os vossos amigos por perto.
- Parece mais um castigo.
- Mas não é. Agora entrem.
- Mas professora, esta sala está às escuras, onde está a luz?
- Não tem luz.
Houve quem tremesse de medo, mas não querendo ficar mal à frente dos amigos lá foram entrando e sentando-se no chão.
- Agora vou fechar a porta, mas fico aqui do lado de fora. Não se esqueçam de manter os olhos sempre fechados.
- E o que devemos fazer aqui.
- O que quiserem desde que não se levantem nem abram os olhos.
- Então não podemos fazer grande coisa.
- Pode ser que se surpreendam. Até já.
Despedindo-se fechou a porta.
O silêncio que se abateu sobre eles era aterrador, houve quem choramingasse, quem entreabrisse um olho para o voltar a fechar. Ouvia-se a respiração ofegante de alguns, as mãos suavam. Mas mantiveram-se sentados quietos como lhes tinha sido ordenado.
- E agora o que fazemos.
- Nada.          
- Temos que fazer alguma coisa.
- E o que sugerem?
- Eu tenho medo do escuro.
- O escuro não mete medo a ninguém.
- E o que se esconde lá dentro?
- Não se esconde nada lá dentro.
- Mas existem fantasmas.
- Já viste algum?
- Não!
- Então é porque possivelmente também não existem.
- Mas os vampiros existem e gostam do escuro.
- Não esses gostam é de sangue e pescoços.
- Não falem assim que eu tenho medo.
- Isto não é uma cripta no castelo do Drácula por isso julgo que estamos a salvo.
- Odeio bruxas e essas aqui até que se davam bem porque estamos rodeadas de vassouras.
- Não te preocupes que as bruxas modernas voam em aspiradores.
- Estúpido.
Continuavam de olhos fechados e conversavam. Muitos deles conversavam pela primeira vez uns com os outros. Mas mais importante falavam sobre tudo o que os assustava e juntos conseguiam esquecer os seus medos.
A hora passara muito rapidamente e ali estavam eles sentados no chão de olhos fechados a rir dos disparates que iam dizendo. Quando ouviram a porta abrir atrás deles e quando se voltaram gritaram pois quem os chamava…era uma criatura medonha. Muito alta e sem rosto, aquela sombra branca entrou e começou a vaguear pela sala às escuras, roçando–lhes o rosto e fazendo-os sentir arrepios.
             Ouviam-se gritos de aflição que eram abafados pela voz terrível daquele fantasma.
            -Não acredito! - sussurrou Joana - é um fantasma! Que medo!

-Professora, professora?!- gritavam eles muito apavorados agarrando-se uns aos outros.
            Naquele momento, o fantasma desapareceu e uma voz, que parecia distante, começou a ouvir-se assustadora, acompanhada por um riso arrepiante. Mais parecia o riso de uma bruxa!
            Decorridos alguns minutos, as luzes começaram a acender-se e a apagar. E então, alguém grita:
            -Ali! Na parede! É sangue?! Ai!
            Enquanto tentavam, desesperadamente, aproximarem –se da porta para fugir da sala, uma voz trocista, mas algo familiar falou:
            - Olá meninos! Com que então, caíram que nem uns patinhos! - exclamou radiante a professora saindo de um canto da sala perante as caras meio assustadas, meio pasmadas dos alunos. 
            -Oh, professora! Então era você? Pregou-nos cá um susto! - exclamou o Cláudio respirando aliviado, mas ainda pasmado.
            - Na verdade, nada disto existiu – explicou a professora –o fantasma era um projetor, a voz sinistra era um gravador e o sangue…era simplesmente tinta vermelha.
             Entretanto, regressaram à sala de aula, rindo de si próprios e dos pavores que sentiram. Depois, aplaudiram a professora pois tinha conseguido assustá-los a sério. Afinal, era o Halloween!




sábado, 3 de junho de 2017

ESTÓRIAS COM AS ESCOLAS - SÃO MARTINHO DO PORTO 6C

Em Outubro do ano passado combinei escrever contos de Halloween com alunos da escola de S. Martinho do Porto. Hoje, publico aqui a forma fantástica como com a ajuda da sua professora resolveram acabar o conto. O meu agradecimento a todos e um beijinho especial à professora do 6C pelas suas palavras. Uma visita no próximo ano lectivo fica desde já prometida. 


A CASA ASSOMBRADA


Todos sabem da existência do velho casarão virado para a baía. Abandonado pelo tempo e pela sua própria história. Dizem ser uma das primeiras casas construída naquele local. Porém, pouco se sabe sobre a vida de quem lá vivera, os mais velhos garantiam que eram pescadores, uns mais afoitos afirmavam que eram piratas. O que se sabe é que está abandonada há muito tempo e a sua história continua sem ser contada.
Aqueles que passam na marginal, depois da meia noite, juram já ter visto vultos caminhando no seu interior sob luzes tremeluzentes de velas, juram até já ter ouvido vozes a murmurar um convite.
Contudo, ao longo do tempo, o velho casarão acabou por tornar-se num local de romaria para os curiosos do sobrenatural.
Para surpresa de muitos, recentemente foi autorizado a um grupo específico de alunos da turma 6ºC uma visita de estudo a esta velha casa na companhia dos seus professores e do atual dono que aparecera misteriosamente uns dias antes.
No dia combinado, o grupo de alunos já se encontrava parado à frente do portão de ferro forjado, aguardando em silêncio. Aquela ausência das habituais conversas entre eles deixou pasmados até os seus professores. A verdade é que todos se encontravam nervosos perante o que iriam ver lá dentro. Nunca antes ninguém lá entrara. Isto era, ninguém que não pertencesse àquela família.
O sol permanecia escondido atrás das carregadas nuvens, conferindo àquele local um ar muito mais sinistro do que já tinha. Algumas alunas soluçavam receosas enquanto os professores as acalmavam. Também para eles, que tinham crescido naquele local, aquela era uma oportunidade única de ver o que nunca ninguém vira.
O portão abriu-se, permitindo-lhes a passagem, rangendo sonoramente como que empurrado por uma mão invisível.
Entraram no pátio da casa atravessando uma névoa fina quase impercetível. A turma 6ºC, acompanhada pela sua diretora de turma, que caminhava à sua frente e a encerrar o grupo o professor de Educação Física.
Continuavam todos em silêncio.
Na ombreira da porta, viram um vulto alto e escuro que os fez estancar o passo.
- Bem-vindos a minha casa. Façam o favor de entrar.
Aquele convite fez gelar o sangue nas veias dos professores. Soava como se, ao aceitarem aquele convite, nunca mais pudessem sair.
Entraram, parando no largo vestíbulo. A porta voltou a fechar-se atrás deles, desta vez silenciosamente. O misterioso homem avançou até ao centro daquele grupo olhando cada um deles nos olhos:
- Como sabem, esta é a primeira vez que a casa se abre para receber visitas. A última vez que foi habitada faz, no dia de hoje, precisamente oitocentos anos. Sei que existem muitas histórias à volta da minha família e desta casa. Pois bem, estou aqui para vos matar essa curiosidade.
Os professores entreolharam-se, aquela última frase não lhes tinha soado muito bem. Aproximaram-se mais daquele estranho, colocando-se entre ele e os alunos. Se fosse necessário estavam ali para os proteger.
- Como estava a dizer. Vou fazer-vos um breve resumo da história da minha família e depois se quiserem podem dar uma volta pela casa e pelo jardim que fica na parte de trás – fez uma pausa - Somos uma família de gentes do mar. Vivemos grande parte da nossa vida do que o mar nos dava e foi desse mesmo mar que veio a nossa riqueza.
- Eram piratas? – um dos alunos gritou a pergunta.
Sorriu-lhe
- Não! Nunca fomos piratas. Mas tivemos a felicidade de encontrar um tesouro.
Ouviram-se murmúrios.
- Num final de tarde, depois de não termos pescado nada, quando retirávamos a última rede, notámos que esta trazia um peso extra. Qual não foi a nossa surpresa quando vimos uma bela mulher lá presa.
O silêncio era assustador.
- Era a mais bela mulher que já tinha visto. Trouxe-a para esta casa que, na altura, não passava de um casebre. Tratei dela e, eventualmente, casámo-nos. Nos primeiros dez anos de vida juntos, tudo em que tocava se transformava em ouro, mas apesar da riqueza, nunca fomos abençoados com filhos.
Suspirou, parecia que lembrar-se daquela história o amargurava.
- Contudo, no dia em que celebrávamos exatamente dez anos, ela desapareceu. E eu, perdido com a sua estranha ausência e por não a encontrar, voltei para o mar à sua procura. Ainda hoje o faço. Mas de dez em dez anos, na data do nosso encontro, volto sempre a esta casa na esperança de que ela tenha voltado.
Fez nova pausa.
- Por esse motivo, esta casa continua e continuará aqui até que nos encontremos novamente nesta vida. Agora que já conhecem a minha história, convido-vos a passearem pela casa à vontade. Está tudo como foi deixado naquela altura.
Sem dizer mais nada, afastou-se desaparecendo por detrás da porta da sala.
Os professores ainda estavam meio aturdidos com o que tinham acabado de ouvir. Contudo, os seus alunos já percorriam todos os recantos a investigar.
Certificaram-se que se encontravam sozinhos antes de voltarem a falar.
- Não achas estranho que ele tenha contado aquela história como se tudo se tivesse passado com ele?
- Mais estranho ainda por ter acontecido tudo há oitocentos anos atrás.
Começaram a andar, através daquelas largas salas, tinham que garantir que deixavam aquele local tal como o tinham encontrado.
Estava tudo estranhamente limpo, apesar de não estar habitada. O ar degradado do seu exterior não combinava com o que ali viam.
- Não te cheira a bolo acabado de fazer?
- Cheira.
- Ouves isto?
- Não ouço nada.
- Nem eu! Onde estarão os miúdos?
Não foi necessário dizer mais nada instintivamente correram na direção de onde lhes chegava o cheiro a comida.
Quando se aproximaram do salão, pararam ao ouvir a voz melodiosa de uma mulher. Da ombreira da porta não queriam acreditar no que os seus olhos viam. A mesa estava repleta de bolos, pão acabado de sair do forno, sumos. A lareira crepitava aquecendo a sala e, no centro, sentada num cadeirão, estava uma jovem mulher. Os alunos pareciam hipnotizados pela sua presença, escutando-a atentamente.
Não ousaram mexer-se. Sentiam que estavam perante um fantasma.
Ouviram passos atrás de si voltaram-se a medo e viram o seu anfitrião parar e olhar perplexo para a mesma visão.
- Ana!
A mulher voltou-se sorrindo-lhe.
Avançou na direção dela, passando através deles. Arrancou a mulher da cadeira apertando-a nos seus braços.
- Finalmente, encontrei-te!
- Tenho estado sempre aqui. Vejo-te apesar de saber que não me vês.
- Porque desapareceste?
- Porque o tempo que me tinha sido permitido para estar junto de ti se esgotou.
- Não desapareças novamente, por favor.
- Agora que conseguiste encher esta casa de crianças, a minha má sorte acabou. Ficaremos juntos para sempre.
Os professores não queriam acreditar no que viam e ouviam.
Naquele momento tudo à sua volta desapareceu e eles passaram daquela estranha sensação de fantasmagórico para a realidade. Professores e alunos, atónitos, ainda viram um feixe de luz multicolorida que se dirigia para uma das paredes da sala, onde um quadro mostrou a todos o homem que os recebera e a bela Ana, numa pose de serenidade e beleza. Afinal, os donos daquela casa ficariam juntos para sempre, segundo aquele quadro…
Um dos alunos mais curiosos reparou ainda num documento que tinha aparecido numa ponta da mesa onde tinham lanchado.
- Ouçam, ouçam, o que está aqui escrito “Como não tivemos filhos, é nossa vontade que esta casa fique, de futuro, aberta para que todos os jovens de São Martinho do Porto possam visitá-la, apreciar todas as riquezas que fomos juntando e, mais importante ainda, possam ler todos os livros da nossa biblioteca! Apenas vos pedimos, alunos do 6ºC, que escrevam uma breve notícia sobre o que aqui se passou e a divulguem no jornal local “Vampiro Azul.”
- Que rica ideia! - exclamou a professora de Português, sempre emocionada com os livros e as bibliotecas…
- Fixe! - exclamaram todos - vamos ficar famosos!
- Calma, meninos, temos de tratar das formalidades com o senhor Presidente da Junta de Freguesia – advertiu a diretora de turma.
- Está bem, “stôra”, vamos!
Embalados  pela leve e brilhante ondulação da baía, os alunos e os professores avançaram, decididos, até à Junta de Freguesia.







sexta-feira, 2 de junho de 2017

ESTÓRIAS COM AS ESCOLAS - SÃO MARTINHO DO PORTO 6A

Em Outubro do ano passado combinei escrever contos de Halloween com alunos da escola de S. Martinho do Porto. Hoje, publico aqui a primeira delas e a forma fantástica como com a ajuda da sua professora resolveram acabar o conto. O meu agradecimento a todos. Adorei!

UM DIA MÁGICO

A escola parecia diferente naquele dia. As funcionárias recebiam-nos à entrada vestidas de bruxas, nem faltavam os corvos negros pousados nos seus ombros. As paredes dos corredores estavam cobertas de teias de aranhas gigantes, mantos escuros tapavam as janelas. Conseguiam vislumbrar pelos cantos, olhos a brilhar como se os observassem. Aceleraram o passo para as respetivas salas de aulas. Esperavam que ali não fosse tão assustador. Mas estavam enganados a sala ainda estava pior, parecia assombrada. 
- Mas o que é que se passa aqui? – Luís foi o primeiro a falar.
Estavam todos parados à entrada, ninguém queria ser o primeiro a entrar.
- Onde está a professora?
Juntaram-se mais; começavam a sentir medo.
Nesse momento ouviram um restolhar ao fundo da sala, olharam todos naquela direção, mas a escuridão não lhes permitia ver quem era. Começaram a dar um passo para fora dali. Sabiam que bastava um começar a correr para irem todos atrás.
- Bem-vindos, alunos do 6A. 
Houve quem gritasse de medo. Mas a voz era-lhes familiar. Não se mexeram.
- Entrem e sentem-se. Hoje é um dia muito especial. Hoje celebramos o Halloween. 
Viram quando um vulto envolto numa longa capa avançava na sua direção, queriam fugir, mas os pés não se mexiam.
- Vamos. Não tenham medo. Sentem-se.
- Professora?  - foi com a voz sumida que Luís conseguiu perguntar.
- Sim sou eu. Agora ocupem os vossos lugares.
Sentaram-se tão depressa quanto conseguiam. Os alunos das últimas filas olhavam em volta desconfiados, sabiam que naquele momento aqueles lugares não eram os melhores. Davam tudo para trocar com os colegas da primeira fila. Pelo menos ali estavam mais perto da porta.
Nunca aquela sala estivera tão silenciosa. Aliás toda a escola. Parecia que conseguiam ouvir as moscas a voar pelos corredores, coitadas, nem elas estavam livres de perigo se caíssem numa daquelas enormes teias de aranha.
- Sabem que dia é hoje?
A professora continuava a andar pelo meio deles enquanto falava, deixando-os ainda mais nervosos.
- Alguém me sabe dizer o que é o Halloween? 
Como continuassem todos sem conseguir responder, a professora continuou.
- Será um dia mágico? Como se celebra? Pois bem vou explicar-vos. Neste dia podemos ser quem quisermos, um super-herói ou um super vilão. Fadas, bruxas, palhaços, vampiros, princesas. Podemos fazer caras assustadoras com as abóboras, bolos com o seu recheio, pedir “doçuras” ou fazer “travessuras” ou podemos simplesmente não fazer nada. 
Já todos se tinham esquecido do medo sentido inicialmente, agora estavam pendentes das palavras da professora.
- Mas este ano, e visto que é a primeira vez que festejamos este “Dia das Bruxas”, como também é conhecido, decidi contar-vos uma história.
- De terror? – Ana perguntou com a voz a tremer de emoção
- Aterradora!
E assim começou:
“Naquela manhã, quando chegaram à escola, os alunos viram que algo tinha mudado, a escola parecia diferente, as pessoas andavam estranhas, até as simpáticas funcionárias pareciam apáticas. Caminharam todos muito juntos, pelos largos corredores, não ousando fazer barulho, o silêncio era ensurdecedor. As professoras e professores esperavam por eles dentro das suas salas, esperavam que entrassem e se sentassem e depois ficaram ali parados, a olhar para eles, sem nada dizerem. 
O tempo ia passando tão lentamente que parecia ter parado.
Lá fora o dia escurecia como que acompanhando a disposição dentro daquelas paredes. 
O silêncio reinava. Parecia uma escola deserta, apesar de lá estarem todos.
O alarme, a anunciar o final daquela aula, disparou fazendo com que alguns gritassem. Os professores continuavam parados, assim tinham estado durante todo o período da aula. A medo, alguns alunos começaram a levantar-se imediatamente seguidos dos colegas. 
Saíam para os corredores. Só se encontravam lá eles, não havia nenhum adulto por perto. 
Alguém gritou que estavam fechados lá dentro. As portas da escola tinham sido todas trancadas a cadeado. Voltaram a olhar para dentro das salas de aulas, os professores continuavam sem se mexer, a única diferença é que nas suas carteiras estavam agora sentados os seus pais. Por onde é que eles tinham entrado que não os tinham visto?
Naquele momento, o alarme, a anunciar o início da próxima aula, tocou, mas desta vez soou como o grito de uma bruxa. Os pais e professores olharam todos na direção deles. 
Ouviu-se um silvo agudo, e todos olharam para a professora… algo de estranho estava a acontecer, mas não conseguiam perceber o quê. De repente, com um grande estrondo, a professora explodiu e do seu corpo saíram milhares de morcegos que voaram em todas as direções.
Os alunos ficaram estarrecidos. Os seus ossos tremeram afundando a sanidade no mar do medo e da estagnação. Tentaram mexer-se mas não conseguiam. Os seus pais aproximavam-se deles e, à medida que se aproximavam, iam ficando mais monstruosos. Era hoje que iam morrer… quando Ana acordou.”



quarta-feira, 31 de maio de 2017

Entrevista ao autor Paulo Costa Gonçalves




Para quem ainda não o conhece, Paulo Costa Gonçalves é sociólogo e autor, mas acima de tudo um apaixonado pela vida. Bom companheiro de conversas, costuma descrever-se como um aprendiz, uma espécie de escritor que adora a nossa História colocando-a sempre como fio condutor em todos os seus livros.
Através da sua escrita conhecemos e aprendemos a amar o inspector Alexandre Melo, este investigador que tem a singular capacidade de nos entrar pela imaginação como um pensamento tornando-se num vicio difícil de saciar. Se nos seus anteriores livros começámos a acompanhar as aventuras e desventuras deste homem que aprendemos carinhosamente a tratar por Alex, no “Enigma da Mentira”, voltarmos a sentir-nos novamente catapultados para as suas investigações, acompanhando cada momento como se fosse o último, vibrando com as suas decisões, opondo-nos a algumas delas, mas acabando sempre por nos sentirmos parte integrante daquele mundo enquanto devoramos as suas páginas na ânsia de saber mais. Damos por nós a ler como se um filme se desenrolasse na nossa imaginação e começamos a refrear a nossa leitura quando sentimos que nos aproximamos do seu último capítulo. A verdade é que é difícil resistir à escrita criativa do seu criador.
Por saber que o Paulo vende muito bem em países como a Argentina e o Brasil, perguntei-lhe para quando os seus livros em outros idiomas. Garantiu-me que poderá estar para breve apesar de sentir que a sua escrita acabará por perder muito com as traduções. 
O “Enigma da Mentira”, o terceiro livro de Paulo Costa Gonçalves foi apresentado no passado dia 9 de abril no café literário da Chiado Editora, o local ideal para receber mais uma aventura do nosso inspector, numa sala cheia de leitores ávidos onde a conversa fluiu como é habitual com o Paulo. Ficou ainda no ar a possibilidade de enveredar por outro género literário mantendo sempre o nosso apetite saciado no que diz respeito ao inspector Alex Melo.
Mas nada melhor do que falarmos com ele.

MBC - Para os leitores que ainda não te conheces como te apresentarias?
PCG - Apresentar-me-ia como um autor que passo a passo, neste caso livro a livro, tenta singrar no panorama literário português e num género, o romance policial, onde não existem referências nacionais ao nível da ficção o que leva muitos dos leitores a fazerem comparações com autores internacionais e com uma maior incidência no Dan Brown, talvez pelos acontecimentos históricos que uso para criar os enredos das histórias dos meus livros. Ou seja, como costumo dizer: histórias que se cruzam com a História. Sou ainda alguém que tem consciência do panorama literário nacional, distribuição, etc., e por isso com os pés bem assentes no chão e que estranhamente ou talvez não tem inúmeras encomendas de livros vindas dos quatro cantos do mundo. Em suma, por mais estranho que possa parecer tenho mais encomendas via redes sociais do que o que se vende nas lojas.

MBC - Porquê um inspector Alexandre Melo? Foi uma personagem baseada em alguém que conheças? Talvez um pouco em ti mesmo?
PCG - O inspetor Alexandre Melo, Alex para os amigos, foi pensado um pouco como um género de Hercule Poirot contemporâneo. No entanto enquanto o personagem da Agatha Christie era um detective particular, o meu inspetor é um mero agente da polícia judiciária portuguesa, com vida pessoal e o oposto do super-herói, e conjuga a sua intuição com a ciência forense, não deixando, contudo, de mesmo contra todas as provas por vezes bem fundamentadas na ciência forense de seguir a sua intuição e com isso fazer a diferença. Se há nele um pouco de mim? Sim, penso que sim, mas também um pouco de cada um de nós. No meu caso e sendo sociólogo que trabalha muito no terreno e numa contemporaneidade em constante mutação há alturas em que também tenho que sair das ditas “conchas teóricas” onde assenta muita da investigação sociológica para uma melhor obtenção de resultados. No de todos nós, porque o Alex é um homem normal, inspetor da polícia que tem uma vida normal com amores e desamores como qualquer comum mortal com quem nos podemos cruzar na rua, assim como todos os personagens dos meus livros. 


MBC - Fala-nos um pouco do teu processo criativo. O que te inspira, qual o segredo para manteres os teus leitores agarrados à leitura sempre com receio de que a estória tenha um fim.
PCG - Desde criança que sempre gostei muito de ler e as minhas leituras também desde cedo foram transversais a todos os géneros literários, contudo houve sempre alguma preferência pela História e pelos policiais. A História pelo conhecimento mais dos acontecimentos e o que influenciaram o percurso da humanidade e menos do herói, e os policiais pelo entretenimento de horas bem passadas. Digamos que é um misto disso que tento passar nos meus livros. Isto é, dar a conhecer alguns acontecimentos históricos e praticamente desconhecidos de todos e depois o entretenimento de um enredo policial com base nesses mesmos acontecimentos. Por exemplo, em O Herdeiro de Antioquia, e a sequela. Sob estranhos céus, a base foi a conquista da cidade de Antioquia em 1098, durante a primeira cruzada e o que aconteceu e que por muito que não se queira acreditar aconteceu. Já no recente Enigma da Mentira a base é um documento que relata uma incursão viking em 1015 na zona onde se situava e ainda se situa a cidade do Porto e a história de um lavrador que viu as suas três filhas serem raptadas pelos invasores e tudo o que ele passou para as resgatar. Depois pego nesses acontecimentos e em descendentes contemporâneos de quem os viveu e crio uma história onde esses descendentes fazendo uso dos mais diversificados ardis tentam tirar benefícios próprios. Acontece que como tento escrever sobretudo histórias que sejam de fácil leitura e para entretenimentos dos leitores e onde eles passem umas horas, digamos desligados dos problemas da vida, os livros acabam por ter um ritmo que muitos consideram algo cinematográfico. Inclusive muitos dos feedbacks dos leitores sublinham, por um lado, precisamente isso e a sensação que têm de estar a ver um filme e até se esquecerem das horas, de trocarem de transportes ou passarem a noite em branco embrenhados na leitura e, por outro lado, confidenciam que por vezes têm a sensação que conhecem aquele personagem, que têm a ideia de já se terem cruzado com ele na rua, etc.    

MBC - Planos para um futuro próximo. Podes garantir-nos que independentemente de enveredares por outros géneros de escrita continuaremos a vibrar com as fantásticas aventuras do inspector Melo?
PCG - Sim, as histórias do inspetor Alex que se cruzam com a História são para continuar enquanto os leitores assim o desejarem e existam editoras dispostas a apostar, porque como disse anteriormente trata-se de um género sem referencial nacional e pelo que julgo saber existem apenas dois ou três autores, pelo menos com o seu nome real e sem disfarces de pseudónimos anglo-saxónicos, a tentar singrar neste género, inclusive no passado Dinis Machado com o pseudónimo de Dennis McShade também fez algumas incursões no género mas sem grande sucesso. O que quero dizer é que como diz um proverbio africano: se queres ir depressa vai sozinho, mas se quiseres ir longe vai acompanhado. No fundo é isso, só posso ir longe com este género e com o inspetor Alex se for acompanhado tanto pelos leitores, como pelas editoras que queiram apostar num “terreno ainda virgem”. No entanto gostava também de abordar um outro género que embora tenha já o enredo na cabeça e algumas coisas no papel ainda não consegui fazer a abordagem que realmente me satisfaça. Não é um género fácil e tem alguma complexidade porque é algo relacionado com segundas oportunidades que nos podem ser proporcionadas após a morte.



MBC - O próximo passo lógico para quem já leu os livros seria uma série televisiva. Podes adiantar-nos algo acerca disso?
PCG - Bem… é algo que não desdenharia até porque como já referi os leitores referem-se aos meus livros como: terem a sensação de estar a ver um filme. Apenas posso dizer que após o lançamento de O Herdeiro de Antioquia houve alguém bem conhecido no panorama televisivo e das novelas que, após ter lido o livro, me contactou e questionou a minha opinião sobre o assunto, mas foi algo que não passou disso mesmo, de uma mera abordagem, talvez prematura ou talvez como uma ideia de futuro. Honestamente não sei porque a coisa ficou por ali mesmo e já se passaram dois anos. 



In Jornal Nova Gazeta, 31 Maio 2017

domingo, 14 de maio de 2017

Entrevista à escritora Paula Veiga "Leonor de Lencastre, foi uma mulher fabulosa"



Paula Veiga falou-me do seu mais recente livro “A Rainha Perfeitíssima”, editado pela Saída de Emergência e inserido na coleção “História Portuguesa em Romances” onde se cobrem quase quatro séculos de história através dos cinco continentes.
Neste seu novo romance ficamos a conhecer D. Leonor de Lencastre em toda a sua plenitude, como mulher, mãe, tia, educadora, regente, benemérita, mecenas e Rainha.
Sabendo que a autora faz sempre uma intensiva investigação para todos os seus processos criativos, fico ansiosamente à espera do que ainda tem guardado “dentro da gaveta”, com a certeza, porém de que será uma nova e fantástica obra, seja ela sobre o império romano ou sobre a segunda Grande Guerra Mundial.

MBC - Rainha Perfeitíssima, para quem ainda não leu o livro o que pode esperar tendo em conta o título? 
PV - O leitor pode esperar uma obra biográfica sobre esta rainha.
D. Leonor enfrentou durante a sua vida algumas tragédias pessoais, sendo confrontada, desde muito nova, com a morte dos irmãos, do pai e de um filho (um nado morto em 1483). Anos mais tarde, morreria o príncipe herdeiro, num acidente suspeito, em 1491.
Após a morte do filho veio a desilusão quando o seu marido, em substituição do seu próprio filho, tentou colocar no trono o seu descendente bastardo, D. Jorge, filho de D. Ana de Mendonça, fidalga de Castela.
A sua vida foi fértil em tragédias e amarguras. Veja-se, por exemplo, as contendas entre o seu marido, D. João II, e a nobreza. As conspirações sucediam-se e culminaram não só na prisão, como posteriormente na execução, do duque de Bragança (seu cunhado) como também na morte do duque de Viseu, D. Diogo (seu irmão), com um punhal no peito, às mãos de El-Rei.
Também a morte do Rei, seu marido, provavelmente envenenado, em 1495, não foi facilmente ultrapassável porque levantaram-se falsas suspeitas contra ela.
É a minha singela homenagem a uma grande mulher. Na minha opinião, a uma mulher Perfeitíssima!

MBC - Porquê esta rainha em particular quando a nossa história está repleta de rainhas com as mesmas qualidades, virtudes, e com tanta intensidade de momentos marcantes durante os seus reinados?
PV - Porque na minha opinião, Leonor de Lencastre, foi uma mulher fabulosa! Provavelmente a monarca mais culta e magnânima que o reino de Portugal alguma vez viu nascer. Era uma rainha que se preocupou com as causas sociais, com os desfavorecidos, com os doentes e criou as Misericórdias que ainda hoje têm um papel activo na nossa sociedade. Criou igualmente vários hospitais e outras construções relevantes, entre os quais destaco: o Centro Hospitalar das Caldas da Rainha, a Igreja de Nossa Senhora do Pópulo, o Hospital de Todos os Santos, o Convento da Madre de Deus, o Convento da Anunciada, a igreja de Nossa Senhora da Merceana, a Igreja de Santo Elói e o Convento de S. Bento, de Xabregas.
O seu legado. O amor que tinha pelos mais desfavorecidos, o esforço que empreendeu na luta contra a miséria, o empenho com que se dedicou a esta causa tão nobre que foi o princípio orientador da sua acção como rainha.
A Rainha também deu uma notável contribuição à divulgação das artes e das letras, nomeadamente ao ter encomendado e mandado imprimir as obras de Gil Vicente. A título de exemplo, saliento o “Auto da Visitação”, o “Auto da Alma”, “Auto da Barca do Inferno” e a “Auto da Barca do Purgatório”. Divulgou, igualmente, autores estrangeiros, entre os quais posso destacar o livro de Marco Polo; o Livro de Nicolau Veneto; Carta de um Genovês mercador; o livro do “Os actos dos Apóstolos”, o “Bosco Deleitoso”, “O espelho de Cristina”;
 
MBC - Podemos esperar uma continuação? Possivelmente a vida de outra rainha? Para quando? 

PV - Sim, sem dúvida! Já escrevi mais três Romances Históricos, depois de ter escrito este sobre D. Leonor, mas nenhum deles versa sobre outra rainha. Estas obras estão para apreciação da minha editora e espero que sejam editadas brevemente.

In Jornal Nova Gazeta, 09 Maio 2017

domingo, 2 de abril de 2017

Entrevista à escritora Vanessa Lourenço publicada no Jornal Nova Gazeta

Quando há um ano atrás a escritora Vanessa Lourenço nos prometeu uma trilogia com gatos, algumas vozes em surdina pareciam desconfiar desta sua intenção. Como seria possível escrever uma estória fantástica cujos personagens fossem gatos e que ao mesmo tempo não fosse um livro para crianças?

Pois desenganem-se os mais céticos, porque não somente os gatos conseguiram provar que estão preparados para enfrentar tudo e todos seguindo os passos da sua criadora, como passado apenas um ano a Vanessa acabou de lançar o segundo volume desta trilogia.

A verdade é que desde a publicação de “A Cria Negra de Felis Mal’Ak”, a Vanessa voltou para nos apresentar “A Batalha de Sekmet” e mais uma vez conseguiu provar que quando se gosta do que se faz e se trabalha muito conseguem alcançar-se todos os objetivos a que nos propomos e os limites deixam de existir.

Mas todas as estórias têm a sua própria história e por detrás destes fantásticos gatos está a sua criadora. A Vanessa escreve sobre aquilo que é, uma apaixonada por livros e por gatos. Esta odisseia a quatro patas começou a crescer na sua cabeça quando teve o infortúnio de ver o seu gato preto morrer atropelado, nesse momento decidiu que a vida dele tinha que ser contada, dai a passá-la para o papel foi logicamente para a Vanessa o passo seguinte. E desta forma para além de o honrar acabou por o imortalizar.

Tenho a felicidade de conhecer a Vanessa pessoalmente e posso afirmar que o que mais me atrai na sua escrita é aquele poder impar que tem de deixar o leitor ansioso para saber o que acontecerá na página seguinte, os seus livros são na realidade um reflexo de quem é. A única garantia que retiramos da sua escrita é a de que parar de ler não é uma opção, até porque não o conseguimos fazer.

Na “A Batalha de Sekmet” vamos ter o tão merecido desenvolvimento pelo qual ansiávamos desde o primeiro livro. Aqui temos a possibilidade de conhecer as duas faces de uma Deusa trazida diretamente da mitologia egípcia que esconde um grande segredo. Mas a questão que nos mantém presos desde o início é se esta conseguirá destruir aquele grupo tão unido e acabar com uma inteira espécie na Terra.

Serão estes amigos de garras afiadas (quando necessário) e sempre prontos para a acção capazes de lutar com todas as suas forças e coragem, que lhes reconhecemos desde o primeiro volume, esta poderosa força?

Em vez de abrir um pouco mais do véu sobre este grupo felino prefiro convidar-vos todos a embarcar nesta aventura e a conhecerem melhor a Vanessa através da sua página. E com o Natal tão próximo porque não oferecer um destes exemplares ou até mesmo os dois? Se até a língua deixou de ser uma barreira, afinal a “A Cria de Felis Mal’Ak” já se encontra disponível em inglês.

Utilizando as palavras da própria: “não quero saber o que pensas, quero saber o que sentes”.

In Jornal Nova Gazeta, 02 Abril 2017


Casa Assombrada do Peso

Não conseguia fechar os olhos naquela noite a pensar no que o irmão me dissera quando chegou da escola naquela tarde. Teimava em assustá-la, parecia que ao sentir o seu medo lhe crescia uma espécie de poder que só ele conseguia compreender. Todos os dias ao final da tarde quando voltava das aulas passava por aquela casa branca, com as janelas de madeira apodrecida, trapos que em tempo teriam sido cortinas de seda e que agora não passavam de nada mais do que velhos trapos sujos, rasgados. Já reparara no brasão de pedra por cima da enorme porta de madeira com batentes de ferro, O quintal tinha ervas tão altas que não permitiam vislumbrar toda a sua opulência de tempos passados e como se não bastasse o velho portão de ferro enferrujado, que já tivera certamente melhores dias, mantinha-se reforçado na sua clausura com correntes de aço trancadas com um cadeado, era notório a quem quer que se atrevesse ali entrar que aquele local estava inacessível.
Parecia-lhe ridículo que o irmão a tentasse assustar com estórias de almas penadas que ali viviam ávidas por novas almas. Mas apesar de saber que não passavam de palavras provocadoras para a deixar assustada a verdade é que sempre que ali passava sentia-se observada. Nunca olhara para trás mas na realidade algo ou alguém parecia seguir os seus passos olhando-a por detrás daquelas janelas onde o vento teimava em brincar com a miséria em que aquele local se transformara.
Fechou os olhos e tentou dormir. No dia seguinte tinha matemática logo no primeiro tempo e não queria chegar sonolenta. Se já era difícil olhar para os números bem acordada nem queria pensar como seria se estivesse dormente.
Adormeceu rapidamente e sonhou.
Sonhou com a casa branca em toda a sua glória. Os muros altos de um branco resplandecente, portão aberto permitindo a entrada a quem se quisesse aventurar naqueles lindos jardins de erva aparada, canteiros de rosas das mais diversas cores, exalando um cheiro impossível de descrever. O brasão por cima da porta anunciando que aquela casa pertencia a uma família abastada. Nem faltava o empregado de libré a abrir-lhe a porta para que entrasse, sorrindo-lhe amistosamente,
Estava na entrada a olhar para o pé alto da casa com as suas escadas de madeira forradas com uma alcatifa vermelho fogo, o seu corrimão tão polido que se podia ver o reflexo do resto da casa, o magnifico lustre de cristal. Sentia que não devia subir. Caminhou pelo lado direito para a imensa sala aberta até à parte de trás da casa, conseguia ver a lareira onde crepitava um fogo lento, a sala com convidativos sofás de veludo com as suas mesas enfeitadas com pequenas toalhas rendadas, o piano perto da janela que se mantinha aberta para o jardim permitindo que o cheiro das flores inundassem aquele espaço como se também elas ali pertencessem. A mesa comprida de mogno com as cadeiras de costas altas, com dois lugares preparados para o jantar, um em cada extremo onde umas velas já aqueciam com a sua calma luz.
Olhou em volta não estava ali mais ninguém a não ser ela. Não sabia como tinha ali ido parar, não se lembrava de o ter feito. Sentia que era errado ali estar, no entanto algo lhe dizia que pertencia àquele lugar. Sentou-se num sofá. Não queria abusar da hospitalidade dos seus donos iria esperar até que um deles aparecesse e lhe conseguisse explicar o porquê da sua presença naquela casa, naquela noite.
Devia ter adormecido porque quando abriu os olhos estava tudo escuro à sua volta. Cheirava a madeira húmida pela chuva que se ouvia cair lá fora. Por momentos não soube onde estava até que ouviu um piano. Tocava uma música triste que os seus olhos se encheram de lágrimas. Estava sentada no que devia ter sido um bom sofá mas que agora não passava de uma recordação de tempos passados, onde as molas soltas se apertavam e encontro aos seus rins, magoando-a. Ergueu-se com dificuldade tentando não cair nos pedaços de vidros espalhados pelo chão à sua volta. Percebeu que eram das janelas altas, olhou em volta tentando que os seus olhos se habituassem àquela escuridão que teimava rodeá-la. Continuava a ouvir a música, não sentia medo antes pelo contrário sentia curiosidade. Muita curiosidade.
Caminhou com cuidado contornando os pedaços de madeira e vidros espalhados no chão tentando não se cortar, percebeu que estava descalça. Mesmo que tentasse fugir daquele local nunca o conseguiria fazer sem se ferir.
O som suave do piano voltou a ouvir-se. Olhou na direcção daquele local que sabia ser o sitio onde o vira. Alguém estava sentado, não conseguia ver-lhe a cara, mas conseguia sentir o seu desespero. Esticou a mão, tremia, tinha que fazer com que aquele vulto se voltasse e a encarasse. Tinha que ver quem era, saber o que o fazia sofrer.
O piano parou e assim que a sua mão lhe tocava no ombro, o vulto voltou-se e sentiu um frio que a congelou, naquele momento teve medo e gritou.
A mãe estava sentada ao seu lado na cama segurando-a pelos braços, tentando acalmá-la. Estava de olhos abertos sentindo-se perdida até que o calor dos braços da sua mãe a trouxe de volta para o conforto da sua cama, do seu quarto, da sua casa. O irmão olhava-a da ombreira da porta, nunca a ouvira gritar daquela maneira, nunca a sentira tão assustada. Talvez fosse uma boa altura para lhe dizer que inventara toda aquela história da “Casa branca do Peso”, afinal não passava mesmo de uma casa velha que alguém abandonara ao tempo, tinha que lhe dizer que os fantasmas não existem só na nossa imaginação e que até esses são somente projecções dos nossos próprios receios.
Assim que a mãe os deixou sozinhos aproximou-se da irmã, sentando-se aos pés da sua cama.
- Desculpa Mafalda não foi minha intenção assustar-te tanto.
A irmã olhou para ele.
- Não! Tens razão. Algo estranho se passa naquela casa, o dono…o dono não tem cara.
Aproximou-se mais dela segurando-lhe na mão.
- Ali não existe nada, nem ninguém. Fui eu com as minhas estúpidas ideias e com a facilidade com que te deixas assustar. Prometo não o voltar a fazer.
- Não! Não estás a perceber, eu estive lá, naquela casa, na sala, havia um piano, eu vi-o!
- Sonhaste, nada disso aconteceu realmente.
- Não estás a perceber, tu tinhas razão.
- Já te disse que inventei tudo só para te assustar. Esquece o que sonhaste e tenta dormir. De preferência desta vez tenta não sonhar nem gritar.
A mãe entrou naquele momento transportando um copo de leite morno com mel, o melhor remédio para acalmar os nervos.
Quando a casa ficou novamente em silêncio e já estava a sentir aquela moleza que antecede o sono. Voltou a ouvir a mesma música, mas desta vez não estava na velha “casa branca do peso”, estava deitada na sua cama, no seu quarto, na sua casa. Levantou-se da cama caminhando descalça até à janela que dava para a entrada da casa e conseguiu ver à distância uma luz que tremeluzia, ouviu a música cada vez mais alta. Desta vez não teve medo, algo mudara naquela melodia estava mais suave mais quente já não soava triste e abandonada. Caminhou de volta para a cama, descalça sem se aperceber que os seus pés sujos de pó e ervas secas manchavam o chão de madeira atrás de si.
No quarto ao lado o irmão conseguia ver o mesmo que ela. E nesse momento a imagem daquele homem sem rosto apareceu-lhe à sua frente e pode ouvir nitidamente a sua voz dentro da sua cabeça.
- Obrigado por me teres apresentado a tua irmã. Era mesmo aquela por quem esperara. Eu Pedro, Barão do Peso sou um homem de palavra pelo que deves considerar a tua divida para comigo saldada.
O irmão não conseguiu gritar, estava tolhido de medo, o que fizera? Nunca devia ter lá entrado, nunca deveria ter tirado a fotografia que encontrara de cima do piano, mas a mulher da imagem era tão parecida com a sua irmã que se assustara. Inconscientemente ao contar à sua irmã a estória daquela velha casa tinha-a conduzido para aquele local que se dizia ser amaldiçoado desde o dia em que a mulher da fotografia, a noiva do dono da casa desaparecera misteriosamente. Contava-se que desesperado deitara fogo à casa com uma vela enquanto tocava piano. Não tivera morte imediata, mas ficara com a cara desfigurada pelo fogo.

Reza a lenda que quem lá entrar por sua livre vontade passara a fazer parte da sua estória e essa nunca estará terminada.
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A CASA

“Esta é uma obra de ficção, qualquer semelhança com nomes, pessoas, factos ou situações da vida real terá sido mera  coincidência” ...