DENTRO DO ESCURO
-
Bom dia a todos. Como estamos a poucos dias do Halloween, pensei que podíamos
aproveitar a aula de hoje para falar um pouco sobre o que é e como se celebra.
Alguém tem alguma ideia?
-
Contamos histórias de terror!
-
Vimos filmes de terror!
-
Fantasmas!
-
Fadas!
-
Vampiros!
-
Bruxas más!
-
Criaturas lendárias!
A
professora levantou a mão para que se fizesse silêncio. Não foi fácil acabar
com o burburinho que se gerara naquele momento.
-
Meninos então! Não se esqueçam que estão a decorrer aulas nas salas aqui ao
lado.
Assim
que se fez silêncio, pode continuar.
-
Muito bem esta celebração tem um pouco de isso tudo mas é muito mais. E eu
tenho andado a pensar nos últimos dias como poderemos tornar esse dia real. Por
isso gostaria de vos desafiar a fazer uma pequena atividade.
-
Vamos ter que fazer uma redação? – a voz soava desanimada
Sorriu-lhes
-
Não. Mas vão ter que contar aqui na sala de aula tudo o que sentiram.
Olhavam
uns para os outros muito curiosos.
-
Antes que me perguntem o que vamos fazer agradecia que se levantassem
calmamente sem arrastar as cadeiras e que me seguissem.
-
Onde é que vamos professora?
-
É uma surpresa.
Saíram
da sala de aula e caminharam através dos corredores. Não sabiam para onde iam
nem queriam saber.
-
Chegámos!
A
professora parou de repente em frente de uma porta fechada.
-
É aqui que quero fazer a experiência.
-
Mas aqui não é a sala onde arrumam as vassouras?
-
E o papel higiénico?
-
Que porcaria.
-
Deve estar cheio de aranhas.
-
E ratos.
Já
ninguém parecia muito entusiasmado com aquela aula.
-
Então meninos. Garanto-vos que não há nem ratos, nem aranhas, nem nada
esquisito.
Pelas
caras não pareciam muito convencidos
-
O que é que esta sala tem a ver com o Halloween?
-
Tudo! Vou pedir-vos que entrem, se sentem no chão e fechem os olhos. Vão passar
aí dentro esta próxima hora de aulas.
-
Estamos a ser castigados?
-
Castigados? Claro que não. Como vos disse é uma experiência. Vão ver que a
melhor maneira de sentirem o verdadeiro espirito de Halloween será no escuro
com os vossos amigos por perto.
-
Parece mais um castigo.
-
Mas não é. Agora entrem.
-
Mas professora, esta sala está às escuras, onde está a luz?
-
Não tem luz.
Houve
quem tremesse de medo, mas não querendo ficar mal à frente dos amigos lá foram
entrando e sentando-se no chão.
-
Agora vou fechar a porta, mas fico aqui do lado de fora. Não se esqueçam de
manter os olhos sempre fechados.
-
E o que devemos fazer aqui.
-
O que quiserem desde que não se levantem nem abram os olhos.
-
Então não podemos fazer grande coisa.
-
Pode ser que se surpreendam. Até já.
Despedindo-se
fechou a porta.
O
silêncio que se abateu sobre eles era aterrador, houve quem choramingasse, quem
entreabrisse um olho para o voltar a fechar. Ouvia-se a respiração ofegante de
alguns, as mãos suavam. Mas mantiveram-se sentados quietos como lhes tinha sido
ordenado.
-
E agora o que fazemos.
-
Nada.
-
Temos que fazer alguma coisa.
-
E o que sugerem?
-
Eu tenho medo do escuro.
-
O escuro não mete medo a ninguém.
-
E o que se esconde lá dentro?
-
Não se esconde nada lá dentro.
-
Mas existem fantasmas.
-
Já viste algum?
-
Não!
-
Então é porque possivelmente também não existem.
-
Mas os vampiros existem e gostam do escuro.
-
Não esses gostam é de sangue e pescoços.
-
Não falem assim que eu tenho medo.
-
Isto não é uma cripta no castelo do Drácula por isso julgo que estamos a salvo.
-
Odeio bruxas e essas aqui até que se davam bem porque estamos rodeadas de
vassouras.
-
Não te preocupes que as bruxas modernas voam em aspiradores.
-
Estúpido.
Continuavam
de olhos fechados e conversavam. Muitos deles conversavam pela primeira vez uns
com os outros. Mas mais importante falavam sobre tudo o que os assustava e
juntos conseguiam esquecer os seus medos.
A hora passara muito rapidamente
e ali estavam eles sentados no chão de olhos fechados a rir dos disparates que
iam dizendo. Quando ouviram a porta abrir atrás deles e quando se voltaram
gritaram pois quem os chamava…era uma criatura
medonha. Muito alta e sem rosto, aquela sombra branca entrou e começou a
vaguear pela sala às escuras, roçando–lhes o rosto e fazendo-os sentir
arrepios.
Ouviam-se gritos de aflição que eram abafados
pela voz terrível daquele fantasma.
-Não
acredito! - sussurrou Joana - é um fantasma! Que medo!
-Professora,
professora?!- gritavam eles muito apavorados agarrando-se uns aos outros.
Naquele
momento, o fantasma desapareceu e uma voz, que parecia distante, começou a
ouvir-se assustadora, acompanhada por um riso arrepiante. Mais parecia o riso
de uma bruxa!
Decorridos
alguns minutos, as luzes começaram a acender-se e a apagar. E então, alguém
grita:
-Ali!
Na parede! É sangue?! Ai!
Enquanto
tentavam, desesperadamente, aproximarem –se da porta para fugir da sala, uma
voz trocista, mas algo familiar falou:
-
Olá meninos! Com que então, caíram que nem uns patinhos! - exclamou radiante a
professora saindo de um canto da sala perante as caras meio assustadas, meio
pasmadas dos alunos.
-Oh,
professora! Então era você? Pregou-nos cá um susto! - exclamou o Cláudio
respirando aliviado, mas ainda pasmado.
- Na verdade,
nada disto existiu – explicou a professora –o fantasma era um projetor, a voz
sinistra era um gravador e o sangue…era simplesmente tinta vermelha.
Entretanto,
regressaram à sala de aula, rindo de si próprios e dos pavores que sentiram.
Depois, aplaudiram a professora pois tinha conseguido assustá-los a sério.
Afinal, era o Halloween!







