quarta-feira, 19 de julho de 2017

"Crónicas de Nunes, um asno - maioridade"

“Esta é uma obra de ficção, qualquer semelhança com nomes, pessoas, factos ou situações da vida real terá sido mera coincidência”

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Depois de um início de vida privado de todos os objectos da moda, spectrum, walkman, lembrando somente alguns, que todos os amigos tinham, Nunes começoua a pensar que uma vez atingida a maioridade poderia finalmente começar a ter alguns desses benefícios. Lançava olhares disfarçados ao seu velho pai tentando perceber se este lhe teria preparado algo para o importante dia, enquanto retirava parcas palavras da sua lerda mãe, pois a coitada continuava a preferir adotar a postura de distraída a roçar o absurdo abstraindo-se assim de tudo o que a rodeava. Descobrira que essa era a melhor maneira do marido se ausentar durante todos os meses de Verão, deixando feliz.

Na verdade, nunca soube o que fazia ou para onde ia o velho manhoso, mas naquela fase da sua vida também pouco lhe interessava afinal aqueles meses acabavam por ser sagrados, podia fazer o que mais gostava, dormir. Melhor mesmo seria se o Nunes, que já era um latagão fosse para casa do primo onde aliás ultimamente já passava a maior tempo do tempo.

Chegou o grande dia e o pai, a contragosto lá organizou um jantar de aniversário que envolvia a família e mais um ou dois casais conhecidos, pois era necessário que alguém trouxesse o vinho para regarem a celebração, afinal ele até já oferecia a casa e a língua de vaca estufada. Nos meses que se avizinhavam lá teriam que ficar a pão duro e água, sendo que esta teria que ser racionada, porque até ficava seco de pensar nas contas.

Os convidados conhecendo bem o seu anfitrião vinham jantados de casa motivo pelo qual a língua de vaca conseguia voltar a ser congelada quase intocada para ser requentada na ceia do Natal seguinte, para grande satisfação do velho avarento.

O Nunes andava pela casa cabisbaixo, exceptuando a sua família não conhecia nenhum dos outros convivas, mais uma vez não tinha o seu único amigo Paulitos presente porque o pai simplesmente não o suportava. Levantou a cabeça e começou a esbanjar todo o seu charme, como o pai lhe ensinara. Envergava calças de ganga azul deslavada com uma camisa no mesmo tom, circulando com o seu copo de vinho meio cheio. Bebericando. Não aguentava bem a bebida e particularmente naquele dia não queria fazer cenas.

Mas correu tudo ao contrário das suas pretensões, quando inchado que nem um perú se aproximou de duas primas trazidas de propósito para conhecê-lo, sentia-se perdido, "o que fazer?", não sabia ao certo, aproximou-se cantarolando “uma é loira, outra é morena…” e sem ninguém esperar no único momento de coragem que teria em toda a sua vida, bebeu o liquido de um trago desajeitadamente partindo o copo com os dentes. As primas abriram muito os olhos de espanto, entreolharam-se com expressões de repúdio, aquela era a imagem que ficaria para sempre ligada ao Nunes por muitos anos que vivessem. Este com um pedaço do vidro do copo na boca esboçava um sorriso no preciso momento em que o primo aparecia para o salvar do ridículo, independentemente de já vir tarde. Pousou-lhe a mão no ombro comunicando em voz alta.

- Não bebas mais que hoje vais finalmente conhecer os prazeres que uma meretriz da noite te pode oferecer. Eu pago.

E assim o Nunes conheceria da pior forma possível como dar prazer a uma mulher, sem saber, no entanto, que nem sempre quando se ouvem gemidos signifique que a coisa esteja a correr bem pode ser também o sinal de que se deve despachar porque vai começar uma telenovela brasileira nova a não perder.

terça-feira, 18 de julho de 2017

"Crónicas de Nunes, um asno - adolescência"

“Esta é uma obra de ficção, qualquer semelhança com nomes, pessoas, factos ou situações da vida real terá sido mera coincidência”

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Com meia dúzia de pelos mal semeado no peito, deitado numa toalha de praia tão reduzida que pouco mais lá conseguia deitar do que o seu anafado traseiro ficando com as pernas, cabeça e braços sujos de areia, apertado nos seus minúsculos calções axadrezados de cor verde musgo, antigo modelo que o próprio pai vestira uns anos antes como boxers, pois não havia necessidade de gastar dinheiro em modelos recentes, lá ia encolhendo a barriga cada vez que uma sombra passava por ele.

Tentava apresentar músculos que nunca chegariam a aparecer, aparentar ser mais velho do que era, não fosse o som da sua voz traí-lo com os seus agudos repentinos, o seu desejo continuava a ser seguir as pegadas do velho pai, contudo, no seu intimo esperava que este o perdoasse, mas ultimamente andava obsecado pela imagem de tarzan Taborda, do qual guardava secretamente uma foto em posse vestindo uns reduzidos calções de banho rodeado de belas camones. Guardada na única abertura da sua carteira com uma nota de vinte escudos que guardava religiosamente desde que o pai a deixara cair e não se apercebera.

Mas como este lhe lembrava tantas vezes: “encontrado não é roubado, mas se for bem roubado e ninguém der pela sua falta, por direito é teu”.

Naquele verão, como em todos os outros que passara na Costa da Caparica numa casa alugada que chamavam de sua maison plage, lá conseguiria ter as suas primeiras experiências com as namoradas dos seus então amigos. Porém, sempre com as palavras do seu pai a assolarem-no cada vez que trocava saliva: “se são realmente teus amigos não podem levar a mal que leves emprestado para brincar um pouco, depois de lavado devolves como novo”.

E com estas máximas, Nunes passou o verão com um brutal herpes labial e um escaldão nas costas, além de que voltou para casa com os olhos negros como se não andasse a dormir bem. Mas só ele e um dos seus mais recentes ex-amigo conheciam a verdadeira razão…

segunda-feira, 17 de julho de 2017

"Crónicas de Nunes, um asno - infância"

“Esta é uma obra de ficção, qualquer semelhança com nomes, pessoas, factos ou situações da vida real terá sido mera coincidência”

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A infância do Nunes decorreu dentro da normalidade podre que reinava na sua casa. O menino não podia correr porque o velho pai não gostava, não podia falar porque a sua voz o irritava, não podia tocar em nada porque podia partir o espólio que tanta lábia lhe custara a amealhar às já parcas velhas senhoras endinheiradas de Lisboa.

Uma coisa era certa com a sabedoria e sageza do velho pai quando o menino morresse tinha diversos jazigos bem localizados dentro do cemitério do Alto de São João por onde escolher passar a eternidade, até porque como se sabe na alta roda lisboeta mesmo depois de morto tem que se manter a posição social independentemente de como esta tenha sido adquirida. Já as idosas senhoras e as suas respectivas famílias não teriam a mesma sorte, teriam sim o privilégio de escolher um qualquer lote suburbano onde penar pelo seu triste fadário.

O velho pai mantinha, no entanto, enormes expectativas para este filho, tentando criá-lo à sua imagem e semelhança não fosse a diferença de alturas que por esta altura já os separava por uns bons dez centímetros a favor do Nunes. Pouco letrado, mas com o douto conhecimento que a vida lhe dera, o velho pai conseguiria incutir-lhe o mesmo princípio pelo qual regera toda a sua vida: “Não interessava como obtinha tudo o que se queria ter desde que o fizesse”. E assim Nunes aprendeu a sua primeira grande lição, isso e aprender a dizer restaurant carregando bens os erres e a usar o plastron a envolver-lhe o pescoço cheio de acne por não deixar a pele respirar devidamente.

O Nunes entrava na adolescência com as expectativas do pai a cairem por terra tal como a presunção de o vir a casar um dia com a princesa Vitória da Suécia e poder assim, ter um filho a quem todos chamariam de rei ainda que fosse consorte. 

Nunes acabava por ser também ele a sua má sorte.

domingo, 16 de julho de 2017

"Crónicas de Nunes, um asno - o nascimento"

“Esta é uma obra de ficção, qualquer semelhança com nomes, pessoas, factos ou situações da vida real terá sido mera coincidência”

Todos, pelo menos uma vez na vida, conhecemos pessoas tão vazias, insignificantes, porém com trejeitos de grandes feitos, criaturas que se rodeiam dos seus similares numa efémera tentativa de se encontrarem na sua triste e insignificante passagem entre nós. No fim não deixam saudades, memórias, e o que eventualmente fica acaba por ser destruído pelo próprio tempo. Por esse motivo as “Crónicas de Nunes, um asno” tenta ser um retrato vivo do que não queremos para os nossos filhos e filhas.
*
Numa quente tarde de maio nascia Nunes de cognome um asno. O seu inesperado nascimento vinha trocar as voltas de final de vida ao seu velho pai que nunca pensou que na sua provecta idade tivesse que ouvir os gritos daquela criança insegura que numa demonstração da sua fraqueza vinham sempre acompanhados por rios de baba. O velho sentou-se num cadeirão do quarto do hospital da Cruz Vermelha, sim porque o menino tinha que nascer num local frequentado pelos brasonados de Lisboa, mesmo que para isso tivessem que comer língua de vaca durante uns meses (a mesma subentenda-se, que isto de comprar várias era um desperdício de dinheiro), pousou a cabeça entre as mãos e naquele momento tomou as decisões que melhor lhe facilitariam a sua coexistência com este novo rebento, enviaria o seu filho mais velho para um colégio interno de padres de preferência bem longe de Lisboa (quanto mais longe mais barato) e a sua filha, bem como era meio doidivana tinha esperanças que fugisse de casa. Estava decidido, levantou-se de repente satisfeito com a sua decisão, o corpo podia estar velho, mas a sua cabeça ainda funcionava a cem por cento. Uma coisa era certa nunca mais se deitaria excitado (o que já era raro) com a mulher, sempre que tivesse ideias infelizes tomaria um banho de água tépida, na sua idade já não era necessário o uso abusivo de água fria até porque lhe fazia mal ao reumático.

O Nunes que dormia no berço ao lado da cama da mãe acordou assustado começando a berrar. A mãe nem se mexeu, finalmente descansava merecidamente, tinham sido nove árduos meses a transportar aquele infeliz que parecia já ter nascido com dentes e uma aptidão invulgar para apertar os atacadores. Entrava uma enfermeira incomodada pelo choro da criança, a um sacudir de mão da mãe levou-a com ela para o berçário.

A verdade é que estes primeiros momentos da vida de Nunes iriam influenciar toda a sua vida futura, na tentativa infrutífera de conquistar a admiração e respeito do pai bem como a atenção da mãe. E seria somente aos seus 33 anos que o conseguiria, ao exemplo de seu pai encontraria uma mulher disposta a financiar as suas ideias de grandeza e melhor ainda, que o trataria como um filho o que a sua mãe nunca fizera.


Naquele dia nascia aquele, cujas crónicas começam hoje. 

domingo, 4 de junho de 2017

ESTÓRIAS COM AS ESCOLAS - SÃO MARTINHO DO PORTO 6D

Em Outubro do ano passado combinei escrever contos de Halloween com alunos da escola de S. Martinho do Porto. Hoje, publico aqui mais uma sempre fascinada pela forma fantástica como com a ajuda da sua professora resolveram acabar o conto. O meu agradecimento a todos. Adorei!

DENTRO DO ESCURO

- Bom dia a todos. Como estamos a poucos dias do Halloween, pensei que podíamos aproveitar a aula de hoje para falar um pouco sobre o que é e como se celebra. Alguém tem alguma ideia?
- Contamos histórias de terror!
- Vimos filmes de terror!
- Fantasmas!
- Fadas!
- Vampiros!
- Bruxas más!
- Criaturas lendárias!
A professora levantou a mão para que se fizesse silêncio. Não foi fácil acabar com o burburinho que se gerara naquele momento.
- Meninos então! Não se esqueçam que estão a decorrer aulas nas salas aqui ao lado.
Assim que se fez silêncio, pode continuar.
- Muito bem esta celebração tem um pouco de isso tudo mas é muito mais. E eu tenho andado a pensar nos últimos dias como poderemos tornar esse dia real. Por isso gostaria de vos desafiar a fazer uma pequena atividade.
- Vamos ter que fazer uma redação? – a voz soava desanimada
Sorriu-lhes
- Não. Mas vão ter que contar aqui na sala de aula tudo o que sentiram.
Olhavam uns para os outros muito curiosos.
- Antes que me perguntem o que vamos fazer agradecia que se levantassem calmamente sem arrastar as cadeiras e que me seguissem.
- Onde é que vamos professora?
- É uma surpresa.
Saíram da sala de aula e caminharam através dos corredores. Não sabiam para onde iam nem queriam saber.
- Chegámos!
A professora parou de repente em frente de uma porta fechada.
- É aqui que quero fazer a experiência.
- Mas aqui não é a sala onde arrumam as vassouras?
- E o papel higiénico?
- Que porcaria.
- Deve estar cheio de aranhas.
- E ratos.
Já ninguém parecia muito entusiasmado com aquela aula.
- Então meninos. Garanto-vos que não há nem ratos, nem aranhas, nem nada esquisito.
Pelas caras não pareciam muito convencidos
- O que é que esta sala tem a ver com o Halloween?
- Tudo! Vou pedir-vos que entrem, se sentem no chão e fechem os olhos. Vão passar aí dentro esta próxima hora de aulas.
- Estamos a ser castigados?
- Castigados? Claro que não. Como vos disse é uma experiência. Vão ver que a melhor maneira de sentirem o verdadeiro espirito de Halloween será no escuro com os vossos amigos por perto.
- Parece mais um castigo.
- Mas não é. Agora entrem.
- Mas professora, esta sala está às escuras, onde está a luz?
- Não tem luz.
Houve quem tremesse de medo, mas não querendo ficar mal à frente dos amigos lá foram entrando e sentando-se no chão.
- Agora vou fechar a porta, mas fico aqui do lado de fora. Não se esqueçam de manter os olhos sempre fechados.
- E o que devemos fazer aqui.
- O que quiserem desde que não se levantem nem abram os olhos.
- Então não podemos fazer grande coisa.
- Pode ser que se surpreendam. Até já.
Despedindo-se fechou a porta.
O silêncio que se abateu sobre eles era aterrador, houve quem choramingasse, quem entreabrisse um olho para o voltar a fechar. Ouvia-se a respiração ofegante de alguns, as mãos suavam. Mas mantiveram-se sentados quietos como lhes tinha sido ordenado.
- E agora o que fazemos.
- Nada.          
- Temos que fazer alguma coisa.
- E o que sugerem?
- Eu tenho medo do escuro.
- O escuro não mete medo a ninguém.
- E o que se esconde lá dentro?
- Não se esconde nada lá dentro.
- Mas existem fantasmas.
- Já viste algum?
- Não!
- Então é porque possivelmente também não existem.
- Mas os vampiros existem e gostam do escuro.
- Não esses gostam é de sangue e pescoços.
- Não falem assim que eu tenho medo.
- Isto não é uma cripta no castelo do Drácula por isso julgo que estamos a salvo.
- Odeio bruxas e essas aqui até que se davam bem porque estamos rodeadas de vassouras.
- Não te preocupes que as bruxas modernas voam em aspiradores.
- Estúpido.
Continuavam de olhos fechados e conversavam. Muitos deles conversavam pela primeira vez uns com os outros. Mas mais importante falavam sobre tudo o que os assustava e juntos conseguiam esquecer os seus medos.
A hora passara muito rapidamente e ali estavam eles sentados no chão de olhos fechados a rir dos disparates que iam dizendo. Quando ouviram a porta abrir atrás deles e quando se voltaram gritaram pois quem os chamava…era uma criatura medonha. Muito alta e sem rosto, aquela sombra branca entrou e começou a vaguear pela sala às escuras, roçando–lhes o rosto e fazendo-os sentir arrepios.
             Ouviam-se gritos de aflição que eram abafados pela voz terrível daquele fantasma.
            -Não acredito! - sussurrou Joana - é um fantasma! Que medo!

-Professora, professora?!- gritavam eles muito apavorados agarrando-se uns aos outros.
            Naquele momento, o fantasma desapareceu e uma voz, que parecia distante, começou a ouvir-se assustadora, acompanhada por um riso arrepiante. Mais parecia o riso de uma bruxa!
            Decorridos alguns minutos, as luzes começaram a acender-se e a apagar. E então, alguém grita:
            -Ali! Na parede! É sangue?! Ai!
            Enquanto tentavam, desesperadamente, aproximarem –se da porta para fugir da sala, uma voz trocista, mas algo familiar falou:
            - Olá meninos! Com que então, caíram que nem uns patinhos! - exclamou radiante a professora saindo de um canto da sala perante as caras meio assustadas, meio pasmadas dos alunos. 
            -Oh, professora! Então era você? Pregou-nos cá um susto! - exclamou o Cláudio respirando aliviado, mas ainda pasmado.
            - Na verdade, nada disto existiu – explicou a professora –o fantasma era um projetor, a voz sinistra era um gravador e o sangue…era simplesmente tinta vermelha.
             Entretanto, regressaram à sala de aula, rindo de si próprios e dos pavores que sentiram. Depois, aplaudiram a professora pois tinha conseguido assustá-los a sério. Afinal, era o Halloween!




sábado, 3 de junho de 2017

ESTÓRIAS COM AS ESCOLAS - SÃO MARTINHO DO PORTO 6C

Em Outubro do ano passado combinei escrever contos de Halloween com alunos da escola de S. Martinho do Porto. Hoje, publico aqui a forma fantástica como com a ajuda da sua professora resolveram acabar o conto. O meu agradecimento a todos e um beijinho especial à professora do 6C pelas suas palavras. Uma visita no próximo ano lectivo fica desde já prometida. 


A CASA ASSOMBRADA


Todos sabem da existência do velho casarão virado para a baía. Abandonado pelo tempo e pela sua própria história. Dizem ser uma das primeiras casas construída naquele local. Porém, pouco se sabe sobre a vida de quem lá vivera, os mais velhos garantiam que eram pescadores, uns mais afoitos afirmavam que eram piratas. O que se sabe é que está abandonada há muito tempo e a sua história continua sem ser contada.
Aqueles que passam na marginal, depois da meia noite, juram já ter visto vultos caminhando no seu interior sob luzes tremeluzentes de velas, juram até já ter ouvido vozes a murmurar um convite.
Contudo, ao longo do tempo, o velho casarão acabou por tornar-se num local de romaria para os curiosos do sobrenatural.
Para surpresa de muitos, recentemente foi autorizado a um grupo específico de alunos da turma 6ºC uma visita de estudo a esta velha casa na companhia dos seus professores e do atual dono que aparecera misteriosamente uns dias antes.
No dia combinado, o grupo de alunos já se encontrava parado à frente do portão de ferro forjado, aguardando em silêncio. Aquela ausência das habituais conversas entre eles deixou pasmados até os seus professores. A verdade é que todos se encontravam nervosos perante o que iriam ver lá dentro. Nunca antes ninguém lá entrara. Isto era, ninguém que não pertencesse àquela família.
O sol permanecia escondido atrás das carregadas nuvens, conferindo àquele local um ar muito mais sinistro do que já tinha. Algumas alunas soluçavam receosas enquanto os professores as acalmavam. Também para eles, que tinham crescido naquele local, aquela era uma oportunidade única de ver o que nunca ninguém vira.
O portão abriu-se, permitindo-lhes a passagem, rangendo sonoramente como que empurrado por uma mão invisível.
Entraram no pátio da casa atravessando uma névoa fina quase impercetível. A turma 6ºC, acompanhada pela sua diretora de turma, que caminhava à sua frente e a encerrar o grupo o professor de Educação Física.
Continuavam todos em silêncio.
Na ombreira da porta, viram um vulto alto e escuro que os fez estancar o passo.
- Bem-vindos a minha casa. Façam o favor de entrar.
Aquele convite fez gelar o sangue nas veias dos professores. Soava como se, ao aceitarem aquele convite, nunca mais pudessem sair.
Entraram, parando no largo vestíbulo. A porta voltou a fechar-se atrás deles, desta vez silenciosamente. O misterioso homem avançou até ao centro daquele grupo olhando cada um deles nos olhos:
- Como sabem, esta é a primeira vez que a casa se abre para receber visitas. A última vez que foi habitada faz, no dia de hoje, precisamente oitocentos anos. Sei que existem muitas histórias à volta da minha família e desta casa. Pois bem, estou aqui para vos matar essa curiosidade.
Os professores entreolharam-se, aquela última frase não lhes tinha soado muito bem. Aproximaram-se mais daquele estranho, colocando-se entre ele e os alunos. Se fosse necessário estavam ali para os proteger.
- Como estava a dizer. Vou fazer-vos um breve resumo da história da minha família e depois se quiserem podem dar uma volta pela casa e pelo jardim que fica na parte de trás – fez uma pausa - Somos uma família de gentes do mar. Vivemos grande parte da nossa vida do que o mar nos dava e foi desse mesmo mar que veio a nossa riqueza.
- Eram piratas? – um dos alunos gritou a pergunta.
Sorriu-lhe
- Não! Nunca fomos piratas. Mas tivemos a felicidade de encontrar um tesouro.
Ouviram-se murmúrios.
- Num final de tarde, depois de não termos pescado nada, quando retirávamos a última rede, notámos que esta trazia um peso extra. Qual não foi a nossa surpresa quando vimos uma bela mulher lá presa.
O silêncio era assustador.
- Era a mais bela mulher que já tinha visto. Trouxe-a para esta casa que, na altura, não passava de um casebre. Tratei dela e, eventualmente, casámo-nos. Nos primeiros dez anos de vida juntos, tudo em que tocava se transformava em ouro, mas apesar da riqueza, nunca fomos abençoados com filhos.
Suspirou, parecia que lembrar-se daquela história o amargurava.
- Contudo, no dia em que celebrávamos exatamente dez anos, ela desapareceu. E eu, perdido com a sua estranha ausência e por não a encontrar, voltei para o mar à sua procura. Ainda hoje o faço. Mas de dez em dez anos, na data do nosso encontro, volto sempre a esta casa na esperança de que ela tenha voltado.
Fez nova pausa.
- Por esse motivo, esta casa continua e continuará aqui até que nos encontremos novamente nesta vida. Agora que já conhecem a minha história, convido-vos a passearem pela casa à vontade. Está tudo como foi deixado naquela altura.
Sem dizer mais nada, afastou-se desaparecendo por detrás da porta da sala.
Os professores ainda estavam meio aturdidos com o que tinham acabado de ouvir. Contudo, os seus alunos já percorriam todos os recantos a investigar.
Certificaram-se que se encontravam sozinhos antes de voltarem a falar.
- Não achas estranho que ele tenha contado aquela história como se tudo se tivesse passado com ele?
- Mais estranho ainda por ter acontecido tudo há oitocentos anos atrás.
Começaram a andar, através daquelas largas salas, tinham que garantir que deixavam aquele local tal como o tinham encontrado.
Estava tudo estranhamente limpo, apesar de não estar habitada. O ar degradado do seu exterior não combinava com o que ali viam.
- Não te cheira a bolo acabado de fazer?
- Cheira.
- Ouves isto?
- Não ouço nada.
- Nem eu! Onde estarão os miúdos?
Não foi necessário dizer mais nada instintivamente correram na direção de onde lhes chegava o cheiro a comida.
Quando se aproximaram do salão, pararam ao ouvir a voz melodiosa de uma mulher. Da ombreira da porta não queriam acreditar no que os seus olhos viam. A mesa estava repleta de bolos, pão acabado de sair do forno, sumos. A lareira crepitava aquecendo a sala e, no centro, sentada num cadeirão, estava uma jovem mulher. Os alunos pareciam hipnotizados pela sua presença, escutando-a atentamente.
Não ousaram mexer-se. Sentiam que estavam perante um fantasma.
Ouviram passos atrás de si voltaram-se a medo e viram o seu anfitrião parar e olhar perplexo para a mesma visão.
- Ana!
A mulher voltou-se sorrindo-lhe.
Avançou na direção dela, passando através deles. Arrancou a mulher da cadeira apertando-a nos seus braços.
- Finalmente, encontrei-te!
- Tenho estado sempre aqui. Vejo-te apesar de saber que não me vês.
- Porque desapareceste?
- Porque o tempo que me tinha sido permitido para estar junto de ti se esgotou.
- Não desapareças novamente, por favor.
- Agora que conseguiste encher esta casa de crianças, a minha má sorte acabou. Ficaremos juntos para sempre.
Os professores não queriam acreditar no que viam e ouviam.
Naquele momento tudo à sua volta desapareceu e eles passaram daquela estranha sensação de fantasmagórico para a realidade. Professores e alunos, atónitos, ainda viram um feixe de luz multicolorida que se dirigia para uma das paredes da sala, onde um quadro mostrou a todos o homem que os recebera e a bela Ana, numa pose de serenidade e beleza. Afinal, os donos daquela casa ficariam juntos para sempre, segundo aquele quadro…
Um dos alunos mais curiosos reparou ainda num documento que tinha aparecido numa ponta da mesa onde tinham lanchado.
- Ouçam, ouçam, o que está aqui escrito “Como não tivemos filhos, é nossa vontade que esta casa fique, de futuro, aberta para que todos os jovens de São Martinho do Porto possam visitá-la, apreciar todas as riquezas que fomos juntando e, mais importante ainda, possam ler todos os livros da nossa biblioteca! Apenas vos pedimos, alunos do 6ºC, que escrevam uma breve notícia sobre o que aqui se passou e a divulguem no jornal local “Vampiro Azul.”
- Que rica ideia! - exclamou a professora de Português, sempre emocionada com os livros e as bibliotecas…
- Fixe! - exclamaram todos - vamos ficar famosos!
- Calma, meninos, temos de tratar das formalidades com o senhor Presidente da Junta de Freguesia – advertiu a diretora de turma.
- Está bem, “stôra”, vamos!
Embalados  pela leve e brilhante ondulação da baía, os alunos e os professores avançaram, decididos, até à Junta de Freguesia.







sexta-feira, 2 de junho de 2017

ESTÓRIAS COM AS ESCOLAS - SÃO MARTINHO DO PORTO 6A

Em Outubro do ano passado combinei escrever contos de Halloween com alunos da escola de S. Martinho do Porto. Hoje, publico aqui a primeira delas e a forma fantástica como com a ajuda da sua professora resolveram acabar o conto. O meu agradecimento a todos. Adorei!

UM DIA MÁGICO

A escola parecia diferente naquele dia. As funcionárias recebiam-nos à entrada vestidas de bruxas, nem faltavam os corvos negros pousados nos seus ombros. As paredes dos corredores estavam cobertas de teias de aranhas gigantes, mantos escuros tapavam as janelas. Conseguiam vislumbrar pelos cantos, olhos a brilhar como se os observassem. Aceleraram o passo para as respetivas salas de aulas. Esperavam que ali não fosse tão assustador. Mas estavam enganados a sala ainda estava pior, parecia assombrada. 
- Mas o que é que se passa aqui? – Luís foi o primeiro a falar.
Estavam todos parados à entrada, ninguém queria ser o primeiro a entrar.
- Onde está a professora?
Juntaram-se mais; começavam a sentir medo.
Nesse momento ouviram um restolhar ao fundo da sala, olharam todos naquela direção, mas a escuridão não lhes permitia ver quem era. Começaram a dar um passo para fora dali. Sabiam que bastava um começar a correr para irem todos atrás.
- Bem-vindos, alunos do 6A. 
Houve quem gritasse de medo. Mas a voz era-lhes familiar. Não se mexeram.
- Entrem e sentem-se. Hoje é um dia muito especial. Hoje celebramos o Halloween. 
Viram quando um vulto envolto numa longa capa avançava na sua direção, queriam fugir, mas os pés não se mexiam.
- Vamos. Não tenham medo. Sentem-se.
- Professora?  - foi com a voz sumida que Luís conseguiu perguntar.
- Sim sou eu. Agora ocupem os vossos lugares.
Sentaram-se tão depressa quanto conseguiam. Os alunos das últimas filas olhavam em volta desconfiados, sabiam que naquele momento aqueles lugares não eram os melhores. Davam tudo para trocar com os colegas da primeira fila. Pelo menos ali estavam mais perto da porta.
Nunca aquela sala estivera tão silenciosa. Aliás toda a escola. Parecia que conseguiam ouvir as moscas a voar pelos corredores, coitadas, nem elas estavam livres de perigo se caíssem numa daquelas enormes teias de aranha.
- Sabem que dia é hoje?
A professora continuava a andar pelo meio deles enquanto falava, deixando-os ainda mais nervosos.
- Alguém me sabe dizer o que é o Halloween? 
Como continuassem todos sem conseguir responder, a professora continuou.
- Será um dia mágico? Como se celebra? Pois bem vou explicar-vos. Neste dia podemos ser quem quisermos, um super-herói ou um super vilão. Fadas, bruxas, palhaços, vampiros, princesas. Podemos fazer caras assustadoras com as abóboras, bolos com o seu recheio, pedir “doçuras” ou fazer “travessuras” ou podemos simplesmente não fazer nada. 
Já todos se tinham esquecido do medo sentido inicialmente, agora estavam pendentes das palavras da professora.
- Mas este ano, e visto que é a primeira vez que festejamos este “Dia das Bruxas”, como também é conhecido, decidi contar-vos uma história.
- De terror? – Ana perguntou com a voz a tremer de emoção
- Aterradora!
E assim começou:
“Naquela manhã, quando chegaram à escola, os alunos viram que algo tinha mudado, a escola parecia diferente, as pessoas andavam estranhas, até as simpáticas funcionárias pareciam apáticas. Caminharam todos muito juntos, pelos largos corredores, não ousando fazer barulho, o silêncio era ensurdecedor. As professoras e professores esperavam por eles dentro das suas salas, esperavam que entrassem e se sentassem e depois ficaram ali parados, a olhar para eles, sem nada dizerem. 
O tempo ia passando tão lentamente que parecia ter parado.
Lá fora o dia escurecia como que acompanhando a disposição dentro daquelas paredes. 
O silêncio reinava. Parecia uma escola deserta, apesar de lá estarem todos.
O alarme, a anunciar o final daquela aula, disparou fazendo com que alguns gritassem. Os professores continuavam parados, assim tinham estado durante todo o período da aula. A medo, alguns alunos começaram a levantar-se imediatamente seguidos dos colegas. 
Saíam para os corredores. Só se encontravam lá eles, não havia nenhum adulto por perto. 
Alguém gritou que estavam fechados lá dentro. As portas da escola tinham sido todas trancadas a cadeado. Voltaram a olhar para dentro das salas de aulas, os professores continuavam sem se mexer, a única diferença é que nas suas carteiras estavam agora sentados os seus pais. Por onde é que eles tinham entrado que não os tinham visto?
Naquele momento, o alarme, a anunciar o início da próxima aula, tocou, mas desta vez soou como o grito de uma bruxa. Os pais e professores olharam todos na direção deles. 
Ouviu-se um silvo agudo, e todos olharam para a professora… algo de estranho estava a acontecer, mas não conseguiam perceber o quê. De repente, com um grande estrondo, a professora explodiu e do seu corpo saíram milhares de morcegos que voaram em todas as direções.
Os alunos ficaram estarrecidos. Os seus ossos tremeram afundando a sanidade no mar do medo e da estagnação. Tentaram mexer-se mas não conseguiam. Os seus pais aproximavam-se deles e, à medida que se aproximavam, iam ficando mais monstruosos. Era hoje que iam morrer… quando Ana acordou.”



A CASA

“Esta é uma obra de ficção, qualquer semelhança com nomes, pessoas, factos ou situações da vida real terá sido mera  coincidência” ...