“Esta é uma obra de ficção, qualquer semelhança com nomes,
pessoas, factos ou situações da vida real terá sido mera coincidência”
*
“Cabo é rabo, rabo é cú, cú é merda e merda és tu”
e foi ao som da melodiosa música acompanhada pela banda do seu aquartelamento
que Nunes ficou a conhecer a sua posição na hierarquia militar a partir daquele
dia.
A verdade é que o coitado que estava habituado a
fazer um pouco de nada foi obrigado a uma dolorosa recruta em Tancos e de nada
lhe valia chorar, porque a partir daquele momento não teria o paizinho para o
aconselhar. Até uma ingreme ladeira de casquilho foi obrigado a subir e descer
numa noite de trovoada e frio escusado será dizer que no dia seguinte tiveram que furar as unhas dos
pés do menino com um alfinete em brasa para que o sangue pisado pudesse sair. Mais tarde caiam-lhe todas as unhas. Verdade seja dita que o rapaz tinha umas unhas tão horríveis
que o que lhe aconteceu naquele dia melhorou consideravelmente a visão
daqueles pés.
Infelizmente com o passar dos ias as coisas não melhorariam pois não havia uma única manhã em que o Nunes não chegasse
atrasado à formatura sendo de todas elas severamente castigado. Porém aprenderia
lições importantes para o resto da sua estadia naquele SPA militar, sendo que a mais
importante delas seria não voltaria a lavar a roupa interior à mão pois isso deixava-lhe
bolhas maiores que os próprios dedos. As camaratas, essas brilhavam depois de
ser obrigado a limpá-las com a sua escova dos dentes, já as favolas do menino começavam
a acumular uns fungos verdes que deixavam muito a desejar e a boca cheirava a cano de esgoto. Mr. Ed ficaria desgastado por encontrar um seu conterrâneo em tão
mal estado.
Na manhã em que oficialmente terminava a recruta devido à sua petulância e à
incapacidade de a controlar respondia sorrindo ao seu sargento. Escusado será
dizer que nem se apercebeu quando uma possante mão do homem, não as mãozinhas de princesa que herdara de seu pai, voou na sua direção
entortando-lhe a gravata e dando-lhe alguma cor às faces do petiz. Seria assim que lhe seria tirada a fotografia para registo
oficial, com as faces rosadas e o bivaque de lado, não fossem os olhos molhados das lágrimas que continha a custo e quase que parecia um galã de hollywood dos anos 20. Contudo, o pior ainda estava para vir e esse dia chegaria uns dias antes da primeira saída do quartel, quando todo o seu
batalhão foi castigado por Nunes se ter recusado comer a ração de combate, obrigados a passar a noite a marchar, em cuecas, à chuva. As represálias do que viria a acontecer posteriormente decidi não descrever por ser demasiado gráfico. A verdade é que Nunes que nem era religioso, começara a rezar pelo final da recruta para bem longe daqueles "companheiros de armas".
Numa sexta-feira, ao final do dia o Cabo Nunes voltava a casa fardado, não que fosse obrigatório mas sempre lhe dava um ar mais respeitoso afinal havia que
impressionar a vizinhança a quem o pai já dissera que o filho era Major.
Para a mãe o seu regresso não era motivo de satisfação pois uma vez mais sobrava a rotineira lavagem das
cuecas e meias do menino que desta vez tão sujas estavam que se conseguiam manter em
posição de formatura na janela da varanda do quarto do asno.
Para o pai foi um longo fim de semana tantas vezes o Nunes se queixou das injustiças a que era submetido naquele ambiente hostil, de tal forma que este só para o calar lá conseguiu meter uma cunha através de um amigo, de um amigo, de um amigo, de um amigo, de um amigo que
conhecia um comandante de um pelotão perto de casa, para ver se o menino ficaria mais
resguardado até ao final da tropa.
O asno zurrou de prazer ao ser-lhe confirmado tal feito com início já na segunda-feira seguinte, tinha uma vez mais conseguido
ser bafejado pela sorte.
E assim lá entrava no novo
aquartelamento onde passou a moço de recados de manhã dormindo todas as tardes
num velho colchão abandonado num sótão do barracão das mercearias. Podia
não ser Major nem ser destacado para nenhuma comissão militar, mas continuava a
ser um afortunado.