quarta-feira, 27 de setembro de 2017

À conversa com o autor Manuel do Nascimento

Tenho conversado regularmente com novos autores portugueses que tentam vingar no competitivo panorama literário português, sem me esquecer de todos os outros que vivem fora de Portugal.  

No ano passado conheci alguns desses autores e cheguei mesmo a ter a oportunidade de apresentar o meu trabalho em Paris por intermédio deles.

Deixo-vos aqui a conversa que tive com o Manuel do Nascimento para que o possam conhecer um pouco melhor e saber o que tem feito pela divulgação da nossa história. A altura para o fazer foi a ideal na medida em que o Manuel publicou o seu primeiro romance no passado mês de agosto.

MBC – Para quem ainda não te conheça, gostava que te apresentasses.
MN - Nasci numa vila da região do Dão no distrito de Viseu. Aos 11 anos completei o exame da 4ª classe, e como os meus pais tinham poucos recursos. Vi-me obrigado a vir para Lisboa viver com familiares de forma a poder continuar os meus estudos. A verdade é que podia ter ido para Lamego ou Viseu, mas infelizmente os meus pais não podiam comportar tamanho encargo. De 1962 até 1970, estudei e trabalhei na capital. Quando completei 20 anos, estava na eminencia de ser chamado para o serviço militar que implicava a minha partida para as colónias. Como não conseguia entender a finalidade das guerras coloniais, decidi partir para Paris, onde resido desde então.

MBC – Há tanto tempo fora da Portugal e sabendo que voltas todos os anos para “matar” saudades, pensas regressar definitivamente um dia?
MN - Estou radicado em Paris desde 1970, mas após o 25 de Abril, volto todos os anos, uma ou mais vezes por ano. Aproveito e dou sempre uma volta de norte a sul, mas gosto particularmente de Lisboa, onde a minha família ainda hoje reside. Venho por assim dizer matar saudades. Quanto à questão de voltar um dia definitivamente, posso dizer-te que para já a prioridade não é essa.

MBC – Os teus livros são o espelho da nostalgia que sentes pela nossa história? Ou uma forma de a dares a conhecer em França?
MN - Eu diria que não é nostalgia, mas sim a paixão pela história em geral. Mas é claro que adoro dar a conhecer a nossa história em França. Principalmente para os de terceira geração, os luso-descendentes que têm muito pouco conhecimento da história do país dos seus pais. Grande parte dos meus livros são em francês, não só para colmatar a falta de conhecimento da nossa história dos nossos luso-descendentes, mas também para que os franceses a conheçam um pouco melhor. Uma das coisas que notei aquando da minha chegada a Paris foi a falta de conhecimento do grande país que somos. Falar-lhes do pai do nosso primeiro rei, das invasões francesas em Portugal ou até mesmo da batalha de La Lys, no quadro da participação de Portugal nesse conflito mundial é o mesmo que nada. Parte dos franceses desconhecem esta parte da história tal como desconhecem a própria história de França. Sempre me incomodou muito tanto desinteresse por aquilo que nos torna Portugueses ou até mesmo Franceses. Esse foi talvez o principal motivo que me levou a escrever.

MBC – Soube que escreveste pela primeira vez um livro fora daquilo a que estás habituado. Queres falar-nos um pouco dele e do porquê de o fazeres neste momento?
MN - É verdade. Desta vez é um romance, “Nem tudo acontece por acaso”. Não te vou dizer que tenha sido por acaso, acredito mais que tenha sido o destino! Aconteceu numa das minhas viagens, na esplanada de um café em Lisboa tive uma conversa muito interessante com um sábio mendigo e com uma senhora. É uma estória em flashes que nos vai conduzir para um antiquíssimo mistério familiar. Aqui é-nos permitido viajar desde os tempos mais antigos até aos nossos dias. Revivemos duas guerras mundiais, as guerras de África, o Estado Novo, falo da ordem social onde os ricos tinham tudo e os pobres tão pouco, da chamada emigração de sonho onde muitos pensavam deixar a miséria para trás para encontrar uma outra nos países de acolhimento, de lendas, tradições, dos jardins e miradouros lisboetas, do vinte cinco de abril de 1974. Este livro acaba por ser uma viagem pela própria cidade de Lisboa, que tanto amo e para onde volto sempre que posso.

MBC – Os teus livros escritos em francês tendo em conta que alguns deles como já disseste relatam acontecimentos envolvendo os dois países em tempo de guerra, qual é a aceitação dos mesmos por parte dos franceses?
MN – Tenho que explicar um pouco o meu processo criativo. Desde o momento que decido escrever sei de imediato em que língua o vou fazer, mas sei também a que público se destinará. A maioria deles é em francês pois pretendo não somente dar a conhecer ao povo francês a nossa história como deixar testemunhos em França.  Todas as minhas obras editadas em Paris têm estado a cargo da mesma editora que tem apostado no meu trabalho, e, por conseguinte, uma grande parte das bibliotecas universitárias e públicas de França já os adquiriram.

MBC – Sei que és um dos responsáveis pela SALF. Queres explicar-nos o que significa a sigla, como surgiu? O que fazem pela divulgação dos artistas portugueses? Têm planos futuros para integrar os autores portugueses no fechado mundo artístico francês?
MN – A SALF - Sociedade dos Autores Lusófonos de França, é uma associação sem fins lucrativos, que foi fundada em 2011 por um grupo de autores lusófonos do qual faço parte. Exerço atualmente a função de Presidente. Esta associação tem por objectivo ajudar os autores lusófonos desde a criação à divulgação das suas obras sejam elas em português ou francês. Uma outra nossas outras componentes é a organização de encontros literários que inclua todos os nossos membros. Tivemos já a oportunidade de acolher escritores portugueses não residentes em França que participaram nos nossos encontros culturais,

MBC – Apresentações em Portugal? Tens feito? Tens alguma agendada para breve?
MN - Fiz duas apresentações em Portugal em 2013, uma em Lisboa outra em Viana do Castelo, para apresentar a obra História de Portugal-Uma Cronologia. Foi um trabalho que me levou 10 anos a concluir e que se compõe de três volumes. Não tenho nada previsto para breve, mas quando o meu romance “Nem Tudo Acontece por Acaso” for colocado nas livrarias e se estas mostrarem interesse numa apresentação, tudo pode Acontecer! Posso neste momento adiantar que no próximo mês de outubro, este meu último livro será apresentado no Consulado Geral de Portugal em Paris.

MBC – Uma frase que utilizas: “Só é vencido quem desiste de lutar” Aplica-se de alguma forma a ti?
MN - Não se aplica só a mim. Há tanta gente no mundo que luta das mais diversas formas. O meu combate em França tem sido, e continua a ser, dar uma imagem diferente daquela que têm dos portugueses e de Portugal. A forma que encontrei para lutar foi relatar a nossa história e cultura, deixar uma marca neste país, deixar para os meus filhos e netos uma lembrança escrita de quem somos, de quem sou. Temo que se parar de escrever tudo possa voltar a ser como dantes.
Gostava de deixar aqui o que me foi escrito um dia, numa dedicatória: Ao Manuel do Nascimento, autor contra o obscurantismo e pela história do povo português.

MBC – Para terminarmos gostarias de deixar alguma mensagem aos nossos leitores?
MN - Dizer que a história de um país e a de Portugal em particular sendo tão rica não tem fim é através dela que aprendemos quem somos e de onde vimos. Se não se conhece o passado não se pode avançar no futuro. E é com os nossos próprios erros que aprendemos a não os repetir.


In Jornal Nova Gazeta, 27 Setembro 2017 

domingo, 24 de setembro de 2017

Férias de Verão, Casamento e Emigração

 
Acabaram as férias que para muitos continuam a ser repartidas entre o mês de junho e o mês de setembro, em grande parte para evitar o afluxo de emigrantes que regressam sempre nos fortes meses de verão. A simples ideia de praias atulhadas de “Michel vien ao pai”, horas nas filas, o ouvir as habituais reclamações de que em Portugal é sempre a mesma coisa, que este nosso país parece um daqueles do terceiro mundo, continuam a ser motivo mais do que suficiente para muitos portugueses continuarem a fazer férias fora do característico período emigrante.

Se esta é a realidade do nosso país nos dois fortes meses de verão, também é verdade que os emigrantes não são mais do que os nossos portugueses regressados numa tentativa de aplacarem o saudosismo que se acumula nos longos e frios meses, nos países de acolhimento. Voltam para recarregar baterias com a boa comida, o vinho, o clima, a família e os amigos antes de serem uma vez mais obrigados a regressar.

Passei a entender esta movimentação de gentes da terra quando no passado mês de agosto conheci a Milene Paulo e o Hugo Joaquim, dois jovens emigrantes que fizeram de Inglaterra a sua nova morada, e que desta feita voltavam a casa para se casarem.

Tudo começou quando me mudei de Lisboa para um simpático lugarejo no Oeste, daqueles onde entramos e já não queremos voltar a partir, onde a única família que aqui habita nos considera uma parte do seu núcleo.
Foi confrontada com esta realidade que aprendi a olhar para os nossos emigrantes com novos olhos.

A Milene e o Hugo fazem parte da estatística de portugueses que deixam o país em busca de uma vida melhor. Deixam tudo o que têm como garantido para trás e partem na esperança de um trabalho, de uma casa, de um futuro, nunca esquecendo quem cá deixam. Com eles percebi que existe um forte motivo para o regresso dos emigrantes em particular nestes meses e que não se deve ao calor e às fantásticas praias que temos para oferecer, é sim um regresso às origens, um reencontro com a sua família.

Por todos esses motivos sinto que a história da Milene e do Hugo deve ser contada.
Com eles, o “Era uma vez…” toma um significado diferente.


“Era uma vez uma jovem rapariga chamada Milene que vivia numa pequena aldeia do oeste português. Não muito longe, numa aldeia vizinha vivia um jovem, Hugo de seu nome. A verdade é que se conheciam, já se tendo cruzado por diversas vezes em festas nas aldeias vizinhas. Mas, foi somente quando o destino decidiu que o amor aconteceu.
Porém a vida daria uma reviravolta e Milene partia para Inglaterra. Hugo passava os dias a pensar na falta que a ausência daquela jovem mulher a quem já entregara o coração lhe fazia. Não demorou muito a segui-la. Em breve aterrava em Londres com um único intuito, ficarem juntos para sempre. O amor cresceu e como prova desse profundo sentimento eram abençoados com o nascimento de Emily.”

Assim como na história deles também a de tantos outros portugueses que partem na esperança de um dia regressarem, nem que seja somente durante os meses que tanto incómodo gera àqueles que têm o privilégio de cá viver em permanência. Não nos podemos esquecer de quem fica e que os espera ansiosamente todos os anos, falamos dos seus pais.


Para tentar perceber melhor o que os motiva a voltarem particularmente agora e no
caso da Milene e do Hugo para se casarem, coloquei-lhes na véspera algumas questões tendo o cuidado de o fazer separadamente, perguntei-lhes o que mais gostavam no outro. Para a Milene, a capacidade que o Hugo tem de correr atrás daquilo em que acredita, da sua persistência para alcançar todos os objectivos independentemente da dificuldade que os mesmos possam acartar. Já para o Hugo, não há nada que não goste na Milene. Tudo! Foi a sua pronta resposta.


Pedi-lhes que me descrevessem o que significava o amor para cada um deles. Se para a Milene era a felicidade que sentia por estar com a pessoa amada e ter a vida que desejava para o Hugo era o carinho que só ela e a filha de ambos lhe conseguiam dar.

Porém ainda me faltava colocar-lhes a pergunta que maior curiosidade me despertava. Porquê o casamento nesta altura e em Portugal? Para a Milene era o momento ideal pois assim conseguiam reunir as pessoas que mais amavam naquele momento inesquecível, era a única altura do ano em que conseguiam estar todos juntos. O Hugo acabaria por completar o pensamento da noiva sem o saber ao afirmar que estão finalmente perto de quem mais gostam pelo que é a altura perfeita, sem nunca se esquecer que este momento ganha mais significado pelo valor que tem para a Milene.

Por todos estes motivos confesso que passei a ter mais respeito por quem regressa nem que seja somente durante um curto período nas férias, afinal não somos emigrantes, somos todos portugueses e se voltamos é porque este país nos corre nas veias independentemente de muitos de nós não saberem se algum dia voltarão de vez.

De uma coisa tenho a certeza, a história da Milene e do Hugo teve o seu inicio de conto de fadas no casamento e se começou com o “Era uma vez…” terminará certamente com o “Foram felizes para sempre.”


Obrigada aos dois.

Texto: MBarreto Condado
Fotos: Hugo Joaquim

quinta-feira, 21 de setembro de 2017

À conversa com a autora Raquel Fonseca


"Agora que sei para o que trabalho, sou mais perfecionista e exigente comigo mesma."

O que poderá ser mais refrescante e inspirador, do que entrevistar alguém que de alguma forma nos faz lembrar um pouco como eramos aos vinte anos?

À conversa com a jovem autora Raquel Fonseca na Feira do Livro de Lisboa, no passado mês de Junho, fiquei a saber que escreve desde muito cedo tendo começado como uma simples actividade de férias na companhia da sua irmã e da sua prima. Que tem muitas estórias guardadas, algumas delas só com inícios, outras só com meios e outras só com fins. Que conta com um fantástico apoio familiar e que desde o lançamento do seu livro já fez inúmeras apresentações em escolas, sempre com a ajuda incondicional da sua mãe, professora de físico química.

Esta actualmente a trabalhar no seu blog de autora que contará divulgar muito em breve de forma a ajudar na promoção do seu trabalho. Uma das muitas curiosidades que me confidenciou foi, de que independentemente de ser aluna de Música e de se sentir fortemente inspirada por tudo o que tenha a sonoridade certa, só consegue estudar ou ler em silêncio. 

Durante a nossa conversa debaixo de um calor abrasador, percebi que a Raquel ainda terá muitas surpresas escondidas e prontas a revelar. Contudo, o que mais me impressionou nela naquele dia, foi que sem saber que perdera o meu pai há pouco tempo, acabou por me dizer as palavras certas, precisamente o que precisava de ouvir para conseguir voltar a reagir: “Tanto o amor como a morte e tudo o que vem com estes sentimentos são muito importantes e enriquecedores”. A realidade é que estamos em permanente aprendizagem e a maior sabedoria e sensibilidade chega muitas vezes de forma inesperada mas sempre de pessoas fantásticas.

Também por esse motivo gostaria de vos convidar a conhecerem melhor a Raquel Fonseca e pedir-vos que ao lerem esta entrevista colocassem como música de fundo, “Kissing in cars” de Pierce de Veil, recomendada pela Raquel e que segundo ela seria a música ideal para o seu livro.

Desejo-te muito sucesso em tudo o que faças e principalmente que continues a seguir os teus próprios conselhos: “Se queremos muito uma coisa seguimos em frente, até porque as coisas podem ser ditas e acontecem”.

Até breve.

MBC – Quem é a Raquel?
RF - A Raquel é música, livros, bolos, bolachas e maçãs.  É sonhos desde a infância e imaginação também. É amizades antigas e novas, projetos cumpridos e ainda mais por cumprir. É a pessoa que tem uma opinião definida, mas que está sempre a reformular. Gosta de estar com a família e de sair com os amigos. De praia, mas não em demasia, de ir ao cinema, organizar festas e jantares. A Raquel sou eu. E quem não me conhece nunca vai ter a ideia de quem sou de mais nenhuma maneira.

MBC - Que idade tinhas quando escreveste este livro?
RF - Eu escrevi este livro com 15 anos. Quando foi publicado tinha 16.

MBC - O que te levou a escrever sobre adolescentes?
RF - Várias razões. Eu própria sou e era uma adolescente, portanto é esse o meu mundo. Queria escrever sobre alguma coisa que parecesse real, que pudesse ser real! E não havia forma de isso acontecer se eu escrevesse sobre um mundo que ainda não experienciei. Além disso, acho que os adolescentes são “seres” espetaculares. Vivem tudo de forma muito mais intensa, são dramáticos, revolucionários, são fogo e gelo em simultâneo.

MBC – Quando publicaste o que sentiste?
RF - Senti uma felicidade enorme! Algo que eu achava ser impossível (pelo menos naquela altura), aconteceu. E por muitas vezes nem acreditei que aquilo estava a acontecer.

MBC - Inspiraste-te de alguma forma em ti, nos amigos e família que te rodeiam para escrever este livro?
RF - Não, embora muita gente me pergunte isto… O livro é pura ficção, é mesmo tudo fruto da minha imaginação.

MBC – Tão nova e tratas temas como o amor e a morte com uma leveza incontestável, é assim que vês a vida? Ou foi somente a tua imaginação a levar-te enquanto escrevias?
RF - Na verdade, eu vejo a vida de forma muito mais séria e intensa do que vejo neste livro, mas não foi a minha visão que eu quis passar no livro. Todo o livro passa uma mensagem de inocência – quase até ingenuidade – em relação a temas importantes da vida. Da parte de todas as personagens. E foi essa visão “leve” de tomar decisões e de ver a vida que eu quis passar no livro.

MBC – Reparei que também tratas a sexualidade sem rodeios, sem cuidados de linguagem. Será alguma mensagem que queres transmitir aos teus leitores?
RF - A mensagem que eu sempre fiz questão de passar foi que os adolescentes não são aquelas figuras inocentes e desconhecedoras que todos à sua volta pensam. E para matar esse erro criei personagens quase irresponsáveis em relação a esse assunto, sem, ao mesmo tempo, dar sequer importância ao mesmo. Mostrei um bocado daquela visão romântica em que só o amor importa, e tudo à sua volta são só mais maneiras de mostrar o sentimento.

MBC – Algo que me deixou fascinada foi o facto de o narrador ser um rapaz. Porque não uma rapariga?
RF - Talvez esse aspeto tenha sido puramente a minha curiosidade. Quando dei por mim, o narrador já era um rapaz, nunca foi mais ninguém, desde o início. Penso que foi uma maneira de eu especular sobre como são as coisas do ponto de vista contrário ao meu. E foi muito interessante pensar assim, foi uma aventura do início ao fim.

MBC – Toda a trama se passa à volta do que aconteceu naquele terraço, de onde te surgiu esta fantástica ideia?
RF - Eu acho sempre que todos os lugares guardam histórias. Quando passo num sítio novo que me salta à vista, é o que tento ver: o que é que já poderá ter acontecido aqui? Será este local um símbolo de vida, ou de amor, ou de tragédia, ou de tristeza para alguém? Foi isso que tentei criar também. Aquele terraço não era um sítio qualquer. Tinha histórias e segredos para contar; tinha visto e ouvido coisas que mais ninguém sabia. E agora talvez todos os meus leitores se lembrem da Filipa, do Dinis, do Rodrigo e do Filipe quando estiverem num.

MBC – Como surgiu a ideia do nome?
RF - O nome não foi fácil. Nenhum me agradava. Mas no final tomei essa decisão como as próprias personagens do livro tomaram as suas: de forma simples e sem pensar muito. Daí ser um título sem rodeios, sem demasiadas explicações.

MBC – Se o voltasses a escrever hoje o que mudarias?
RF - Acho que qualquer autor olha para o seu livro e vê “erros” por todo o lado. Eu penso que mudava algumas coisas estilísticas, frásicas, gramaticais… A forma e estrutura. Mas não mudava os personagens nem o desenrolar da história. Penso que se deve o facto de o livro ser tão viciante à genuinidade e naturalidade das personagens e das suas ações.

MBC – Sabendo que continuas a estudar, quais os teus planos para um futuro próximo? Algum novo livro para breve ou para já vais manter-te somente com a música?
RF - Nos últimos anos é claro que tive de me concentrar mais na música. Depois de lançar “O Segredo do Terraço” tomei decisões importantes na minha vida em relação à música, e por isso tive de lutar para as manter. No entanto, nunca deixei de escrever, e está sempre nos meus planos escrever mais um livro. E, quem sabe, mais um e mais outro. Agora que sei para o que trabalho, sou mais perfecionista e exigente comigo mesma. Espero que o meu próximo livro esteja para breve, agrade aos meus leitores e supere “O Segredo do Terraço”.

In Jornal Nova Gazeta, 30 Agosto 2017


quarta-feira, 20 de setembro de 2017

À conversa com a poetisa Mafalda Pascoal

Ainda se tem muito a errónea ideia de que já não se escreve poesia. Que faz parte de uma realidade que já não é actual. A verdade é que todos os dias somos surpreendidos por novos autores que tentam transmitir o seu próprio sentimento a quem queira ceder um pouco do seu tempo a ler. Sim, a ler o que escrevem com a alma e o coração.

Se esse é o aspecto positivo de se escrever poesia, abrir as portas da nossa alma, certamente que o menos positivo é o facto de a maior parte destes novos autores nunca chegar a ser devidamente conhecido.

Por todos os motivos que possam estar relacionados com essa enorme falha considerei importante dar o momento há tanto merecido a uma dessas poetisas que também é cronista no nosso jornal.

E nada melhor do que a própria para falar de si.  

MBC – Quem é a Mafalda Pascoal?
MP - A Mafalda é uma pessoa nascida e criada no campo. A partir dos 10 anos de idade passei a ser educada somente pela minha mãe. MÃE esta de uma coragem e ao mesmo tempo de uma fragilidade impressionantes. Ter que trabalhar sempre de cara alegre não deixando transparecer o desgosto descomunal em que se encontrava ao ser abandonada pela grande paixão da sua vida. Sozinha criou dois filhos...e assim fui crescendo...educada a respeitar os outros, a viver honestamente, a dar valor a tudo o que tinha, a viver com humildade, mas ao mesmo tempo com a certeza de que nada nem ninguém é superior a nós.

MBC – O que te motiva para escrever?
MP -  Uma necessidade premente de agarrar num lápis, num papel pequeno e escrever...assim simplesmente.

MBC – Sentes que os teus poemas são excertos dos teus sentimentos, pedaços da tua alma ou algo mais?
MP - Sim, é isso tudo, mas também dos meus sentimentos, da minha alma...e de todos os que me rodeiam. Sei que em algum momento da nossa vida, já todos nos sentimos iguais ao nosso semelhante.

MBC – Escreveste este teu primeiro livro e paraste. Sei que tens muito mais escondido literalmente no fundo da gaveta. Por esse motivo, para quando o “Momentos II”? Ou tens algum trunfo escondido na manga?
MP - (riso) Não, não tenho nenhum trunfo escondido a não ser o que está no fundo da gaveta. O "Momentos II" sairá assim que for possível :)

MBC – O que pensas da divulgação de novos autores em Portugal?
MP - Presentemente existem muito mais oportunidades para as pessoas mostrarem o que escrevem. O meu livro foi lançado em 2011 porque foi quando começou a haver mais facilidades de edição. Tenho coisas escritas com 30 anos, se estas oportunidades existissem há mais tempo, já teria mais do que 1 livro editado.

MBC – Para além da escrita quais são as tuas outras paixões?
MP - Adoro ler, pintar, observar tudo e todos, analisar comportamentos, gosto de ajudar as pessoas a crescerem espiritualmente, fazer com que se sintam bem dentro delas próprias. Gosto de fazer trabalhos manuais, por exemplo o croche ajuda-me a relaxar :)

MBC – Qual é o teu lema de vida?
MP - Ensinar aos outros o que aprendi ao longo dos anos e sentir que isso de alguma forma os irá acrescentar positivamente.

MBC – Gostarias de nos deixar aqui um poema teu que te descreva?
MP -   Sim. "Escrever"!
“Pudera eu ter
O infinito nas minhas mãos
Saber do que é feito
O teu ser
O meu ser
Ter a certeza do que é a certeza
Saber decifrar o além
Eu quero escrever
Por tudo e por nada
Porque a escrever
Vou vivendo e sonhando
Enquanto eu escrever
Corro atrás do meu sonho
Qualquer papel
É meu confessionário
Uma palavra
Uma ideia
Uma frase
No papel toma corpo
Eu vou escrever
Até onde puder
Até onde chegar
Escrever o que vai na "ialma"
Que não consigo decifrar
Só se eu escrever
Escrever infinitamente
Que eu sei, mesmo assim
Nunca chegarei ao fim
Por isso vou escrever
Enquanto me deixarem
Eu vou escrever, escrever, escrever
E coisas novas sempre virão
Porque nunca chegaremos
Ao fim da questão
Quem somos?!
O que somos?!
Para onde vamos?!
Eu sempre vou escrever
Escrever, escrever, escrever...”

MBC – Que mensagem gostarias de deixar para quem começa agora neste vasto e povoado mundo da escrita?

MP - Que não desistam, escrevam sempre, porque mais tarde ou mais cedo, tudo seguirá o seu caminho...até porque é sempre bom fazer do papel nosso confessionário :)

In Jornal Nova Gazeta, 20 Setembro 2017

segunda-feira, 4 de setembro de 2017

À conversa com a autora Vanessa Lourenço

Quem me conhece sabe que sou uma apaixonada por livros e por animais e a verdade é que encontrei recentemente uma autora que conseguiu unir estas minhas duas paixões. Estou a falar da Vanessa Lourenço.

Quando tive o privilégio de a conhecer tinha acabado de lançar “A Cria Negra de Felis Mal’Ak” e aproveitando para citar a própria: “Não existem coincidências”.

A verdade é que ao acabar de ler o seu livro dei por mim como uma das suas mais fervorosas leitoras, ansiosa pela continuação da estória. Que felizmente chegou com o segundo volume “A Batalha de Sekmet”, porém a minha ansiedade não ficou curada somente saciada. Continuo a desejar saber que final terão estes pequenos heróis de quatro patas.

Para todos aqueles que acham que não gostam de gatos, que estes são pura e simplesmente animais, desenganem-se e leiam o que a Vanessa tem para vos contar. Só ela conseguiria com a sua forma única de contar estórias criar os laços de união que faltavam. Com ela, aprendemos a aceitar que nos acompanham desde sempre e acabamos a desejar que o façam para sempre. Por esse motivo em meu nome e em nome de todos eles, Obrigada Vanessa.

O que muitos dos nossos leitores não devem saber é que foi devido à perda de um destes seus companheiros de viajem que a Vanessa escreveu esta obra.

Compreendo a sua dor e acredito que foi ele o anjo que a ajudou, não poderia ser de outra maneira. Por esse motivo não arriscaria dar inicio a esta entrevista sem lembrar as suas palavras na sentida dedicatória a esse amigo, que nos oferece neste livro e a convidar-vos a todos a seguir o seu trabalho.

“Ao Méfis, o meu Felis Mal’Ak.
Ao Félix, as patas negras que percorrem o caminho.
Comigo para sempre.”



MBC – Como aparece a Vanessa Lourenço neste diversificado mundo da literatura fantástica em Portugal e em português?
VL - Por intermédio de uma aventura inspiradora que teve a sua génese numa mistura de amor aos animais com a necessidade de fazer chegar ao mundo uma mensagem importante relativa ao papel preponderante dos nossos amigos de quatro patas na capacidade de alcançarmos o nosso mais elevado potencial enquanto seres humanos.

MBC – Foi a tua vontade desde sempre escreveres? Dai à publicação do teu primeiro livro demorou muito tempo? Foi um sonho concretizado?
VL - Acho que escrevo desde que me lembro, mas o gosto pela leitura sempre foi mais preponderante na minha vida. Abres um livro e vês um mundo inteiro construir-se na tua mente, onde o enredo ganha vida e te consegues distanciar de um mundo que, por vezes, se nos apresenta demasiado cinzento. Mas a determinada altura senti a necessidade de começar a expressar-me através da palavra escrita, num processo talvez um pouco catártico, e pouco depois começavam a desenhar-se os primeiros esboços de “A cria negra de Felis Mal’ak”, o meu primeiro livro publicado. A publicação deste primeiro volume viria a concretizar-se apenas sete anos depois. Um sonho concretizado... sim, mas ao mesmo tempo foi muito mais do que isso: foi a concretização de uma promessa a um amigo muito especial, a entrega do seu legado a todo um universo de leitores em potencial.

MBC – Num mundo onde os heróis são gatos como foi a aceitação dos leitores dos teus livros?
VL - Neste mundo (que poderia ser facilmente o nosso), os gatos vestem a pele de anjos, heróis e mestres. É uma história sujeita a várias interpretações diferentes, de acordo com a forma como cada leitor encara o mundo e os animais, e por isso mesmo a reacção aos meus livros foi uma agradável surpresa: de repente estava a receber feedbacks muito positivos ao meu trabalho por motivos tão distintos como a fidelidade no que diz respeito à vertente comportamental dos gatos ou à complexidade psicológica que tardamos em lhes atribuir. Ouço frequentemente leitores dizerem-me que nunca mais olharão para os seus gatos da mesma forma depois de lerem os meus livros, e não podia sentir-me mais grata.

MBC – Pensaste conseguir publicar três livros num tão curto espaço de tempo? Sendo que um deles é a versão inglesa d’” A Cria Negra de Felis Mal’Ak” o teu primeiro livro desta saga?
VL - Numa primeira fase, pretendia publicar os três livros da trilogia no espaço de três anos, mas depressa compreendi que o processo é muito mais complexo do que isso. É preciso ter em conta não só a publicação de mais um livro, mas também todo o trabalho que lhe está associado em termos de divulgação e marketing do mesmo. Quando pretendemos desenvolver um trabalho consistente, os prazos pré-definidos passam para segundo plano relativamente ao processo de o fazer chegar ao maior número possível de leitores potenciais, com qualidade. E isso exige muito trabalho, muita disciplina e dedicação constantes. No que diz respeito à edição inglesa de “A cria negra de Felis Mal’ak”, senti a necessidade de estender o meu público para além-fronteiras, e penso que foi uma boa aposta uma vez que à data desta entrevista, os meus leitores já se estendem aos EUA, Reino Unido, Canadá, Austrália, entre outros. É um enorme orgulho e um retorno imenso ao trabalho que tenho vindo a desenvolver.

MBC – Como tem sido a aceitação da versão inglesa sabendo que o teu público alvo, os teus leitores já passam além-fronteiras?
VL - Como referi acima, é com muito orgulho que posso dizer que a edição inglesa de “A cria negra de Felis Mal’ak” já se encontra neste momento um pouco por todo o mundo, e os feedbacks têm sido muito positivos.

MBC – Fala-nos um pouco desta fantástica saga? Para quando o terceiro e último livro?
VL - Resumidamente, trata-se de uma trilogia de vertente inspiracional onde os personagens são um grupo de gatos muito especial, que nos vai guiar ao longo desta aventura pela sua própria visão do mundo em que vivemos. É a história de um gato preto que, acompanhado de outros da sua espécie, vai ao encontro de uma batalha que decidirá o destino de todos os gatos no nosso planeta... e para lá dele. Uma história de como existem laços mais fortes do que a morte, e de como a força de cada um de nós se liberta quando caminhamos de encontro ao nosso maior potencial e quando temos que lutar por aqueles que amamos ou algo em que acreditamos. Quanto ao terceiro e último volume da trilogia, tudo o que posso adiantar neste momento é que ainda estou a terminar a história.

MBC – A seguir poderemos esperar algo diferente na tua escrita, nas tuas personagens ou ainda é cedo para perguntar?
VL - (risos). Tenho já algumas ideias, mas para já o meu foco está no último volume desta trilogia. Se te referias ao terceiro volume... veremos adiante o que nos traz!

MBC – Sabendo que a divulgação de novos autores é muito complicada e competitiva em Portugal. Onde na maior parte das vezes se dá mais importância a um nome do que ao conteúdo apresentado. Onde te encaixas no momento em que te encontras?
VL - Publiquei o meu primeiro livro em Setembro de 2015, e hoje em dia posso afirmar que as minhas expectativas iniciais estavam muito afastadas da realidade. Um novo autor em Portugal encontra hoje em dia alguma facilidade na publicação porque esta se encontra bastante acessível... se se tiver capacidade de investimento. Mas mesmo que a capacidade de investimento não seja um problema, os desafios estão longe de terminar com a publicação. Desenganem-se aqueles que pensam que basta publicar e o mundo lá fora faz o resto, porque tal não poderia estar mais longe da verdade: é preciso trabalhar muito, ser-se muito disciplinado e perseverante. Com poucas excepções, é preciso ir ao encontro das oportunidades e dos leitores todos os dias, e lutar por uma visibilidade e um reconhecimento que por vezes não só tardam em chegar, como têm que ser alimentados constantemente.

MBC – Se pudesses dar conselhos a quem começa agora o que lhes dirias?
VL - Há uma frase de que gosto muito, e que uso muitas vezes: não desistam. As pessoas mais dificeis de derrotar são aquelas que não desistem. Não é um caminho fácil ou sempre a direito, mas se a vontade for suficientemente forte vale sempre a pena. Preparem-se para os desafios, mas nunca percam a capacidade de se orgulharem das vitórias, mesmo que sejam pequenas. E nunca se esqueçam do motivo que vos fez começar quando as coisas se complicarem. Uma página de autor nas redes sociais é também muito importante, exponham o vosso trabalho com disciplina e dedicação.

MBC – O que podemos esperar para um futuro próximo?
VL - Trabalho, trabalho e mais trabalho para trazer aos meus leitores livros capazes de os inspirar, e merecedores de um lugar de destaque na prateleira das suas casas. Livros que sintam vontade de usufruir e recomendar.

MBC – Se tivesses uma frase que te definisse qual seria?

VL - A ser verdade que escrevemos o que somos, não haverá melhor forma de me descrever que por intermédio dos meus livros. Para quem os ler com olhos de ver.


In Jornal Nova Gazeta, 27 Agosto 2017

A CASA

“Esta é uma obra de ficção, qualquer semelhança com nomes, pessoas, factos ou situações da vida real terá sido mera  coincidência” ...